31 de dezembro de 2018

Maria, mãe de Deus

Papa Francisco: Homilia da Santa Missa em Belém (Praça da Manjedoura 25/05/2014)
Fonte: Site do Vaticano - Praça da Manjedoura
 (Belém), 25 de Maio de 2014
Padre Geovane Saraiva*
Neste tempo do Natal, ao celebrarmos no primeiro dia do ano a Solenidade de Maria, mãe de Deus, a família dos filhos de Deus experimenta, pela voz da Igreja, a esperança e a consolação que chegam para a humanidade. É aquela esperança já anunciada em tempos remotos que já se completou, na humildade da simples manjedoura. É Deus em nosso meio, forte e mais forte, nascido como o mais simples e o mais humilde dos humildes; ele, sendo infinitamente rico, fez-se pobre para abundantemente nos enriquecer com a sua pobreza (cf. Cor 8, 9).

A imagem pode conter: 1 pessoa, área internaPor Maria, compreendida e admirada à luz do vínculo misterioso e da visão beatífica de Deus, na sua beleza, somos chamados a contemplá-la aos olhos da fé e da esperança, pela alegre proclamação da chegada do recém-nascido na estribaria. "Pela sua maternidade divina, elevada a uma dignidade quase infinita, uma dignidade quase divina" (Cardeal Lorscheider), somos capazes de superar os empecilhos da vida, no menino que nasceu para nós, num filho que nos foi dado, ele que carrega nos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz" (Is 9, 5), que revelou-nos seu infinito amor para conosco.

Precisamos sempre e cada vez mais do encanto de Maria, patente no amor desmedido de Deus Pai, na mãe afeiçoada de Deus Filho e na esposa favorita do Espírito Santo, nela manifestado. Humanamente, não é fácil imaginar a grandeza das maravilhas de Deus, ao habitar na pessoa de Maria, dando-nos, assim, a certeza e a consciência do grande tesouro de que em Deus nós existimos, para Deus vivemos e para o mesmo Deus voltaremos. É a bondade de Deus no convite que nos é feito: o de "participar da divindade daquele que uniu a Deus nossa humanidade".

Que, diante de Deus, coloquemos a nossa vida, de mãos estendidas, porque nascemos para Deus, como sinal da nossa resposta ao dom maravilhoso da vida, num menino nascido para nós. Ele nos ensina nas dificuldades, nos sofrimentos e nas angústias, pelas quais passamos, mas nos inspira pela pessoa de Maria, no seu pensar reflexivo, no ardente desejo de, com ela, conquistarmos uma cultura de paz, comprometidos em construir um mundo melhor, na superação dos conflitos, a partir do mistério de Deus encarnado. Amém!

*Pároco de Santo Afonso, Jornalista, Blogueiro, Escritor e Colunista, integra a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza - geovanesaraiva@gmail.com

30 de dezembro de 2018

É Natal!

Soneto
Luiz Gustavo Melo Correia Lima*
A imagem pode conter: Luiz Gustavo Melo Correia Lima, close-up

É Natal, dos céus nasceu a esperança,
Veio habitar no coração da humanidade,
A mais perfeita criança, 
O menino Deus traz a verdade e a humildade,

Maria, mãe de Deus Filho,
 Jesus é seu nome, 
Digno de louvor e todos amor,
Veio para que todos o amem,

Nasceu n cidade Belém,
Filho de José, também,
Filho adotivo do fruto do Bem,

Alegremo-nos, o Salvador chegou,
A paz na terra brotou,
É todo mal na vida do povo de Deus findou. 

*Professor de Inglês e Físico

29 de dezembro de 2018

Faça uma reflexão!

Carlos Delano Rebouças*

Na iniciativa privada nem sempre, aliás, muito raramente, se escolhe um chefe democraticamente. Essa escolha acontece, de praxe,  ou por meio meio de nomeação pela diretoria, reconhecendo o trabalho desenvolvido, ou por seleções internas e externas. Isso é fato.

Contudo, para escolher o líder ou enxergar uma liderança não se faz uso desses recursos, pois não necessariamente o chefe nomeado ou selecionado apresenta características de alguém que representa uma equipe, tendo o seu respeito e atenção. Muitas vezes é intitulado de líder, mas sem jamais ser enxergado como tal.

Muita gente critica o chefe que possui, tachando-o de autoritário, desumano e patronal. Enxerga nele tudo que se possa imaginar de alguém que não representa a sua equipe, com vistas à conquista de objetivos comuns, sobretudo aqueles da organização em que todos atuam e que certamente são os maiores. 

Diante dessa análise comportamental do trabalhador brasileiro, dando um grande desconto em relação ao seu visível despreparo e desconhecimento profissional no que tange à postura e saberes diversos, será que somos injustos ao rotular nossos chefes dessa forma,  tendo feito uma escolha de um chefe de estado com todas as características indiferentes a de um verdadeiro líder?

*Professor de Língua Portuguesa e redação, conteudista, palestrante e facilitador de cursos e treinamentos, especialista em educação inclusiva e revisor de textos.

Destaques da literatura em 2018

O conjunto chama atenção para o que vem sendo produzido de mais recente na literatura brasileira e latino-americana com força para continuar reverberando nos próximos anos


CARLOS ANDREI SIQUARA
Entre títulos de ficção, poesia e ensaio, a crítica literária, escritora e professora Maria Esther Maciel (livros nos boxes de contorno vermelho) e o escritor e jornalista Afonso Borges (livro no box de contorno azul) listam alguns dos principais lançamentos de 2018. O conjunto chama atenção para o que vem sendo produzido de mais recente na literatura brasileira e latino-americana com força para continuar reverberando nos próximos anos. 

“Com Armas Sonolentas”, de Carola Saavedra

FOTO: Companhia das Letras/divulgação
Nesse admirável romance, Carola Saavedra trata de três mulheres que, embora bastante distintas, se entrelaçam de maneira surpreendente. É, a meu ver, um livro intenso e perturbador sobre a maternidade, centrado nas relações paradoxais entre mães e filhas. Com muita desenvoltura no manejo da narrativa e da linguagem, a escritora (chilena radicada no Brasil desde criança) articula línguas, países e culturas diferentes, à luz dos versos da grande poeta mexicana Sóror Juana Inés de la Cruz. Experiências de abandono e exílio atravessam as personagens de forma intensa e dolorosa. Realidade, sonho e delírio se misturam, permeados também por elementos fantásticos. Foi uma leitura que me tocou profundamente, em vários aspectos.

Box com “Os Trabalhos e As Noites” e “Árvore de Diana”, de Alejandra Pizarnik

FOTO: Relicario/divulgação
Esses dois livros de poesia da escritora argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972) são uma preciosidade. Publicados de forma primorosa pela editora mineira Relicário, os dois volumes trazem para os leitores brasileiros uma amostra potente da poesia de uma das autoras mais singulares da literatura latino-americana e, até então, pouco conhecida no Brasil. Os poemas são breves, densos e intensos, voltados para as experiências íntimas da própria autora, em embate com os terríveis acontecimentos políticos que vivenciou em sua curta existência.

“Nenhum Mistério”, de Paulo Henriques Britto

FOTO: Companhia das Letras/divulgação
É um belíssimo volume de poemas sobre perda, ausência e desencanto, construído com o requinte poético de um exímio conhecedor da arte do verso. Melancólico em alguns momentos, irônico em outros, o livro tem 27 poemas em que o lirismo se manifesta de maneira intensa e contida ao mesmo tempo. Um dos versos que ainda latejam em mim depois da leitura é este: “nada que te pertence é teu”.

“Pesado Demais para A Ventania: Antologia Poética”, de Ricardo Aleixo

FOTO: Todavia/divulgação
Esta seleção de poemas de um dos mais instigantes poetas brasileiros contemporâneos foi, sem dúvida, um dos notáveis lançamentos de 2018. O volume concentra a diversidade inventiva da poesia do autor mineiro que, neste ano, completou 25 anos de trajetória poética. Em seus poemas, Aleixo experimenta linguagens, alia oralidade e visualidade, reinventa as culturas afro-brasileiras, dialoga com as expressões contemporâneas do pop e da cultura tecnológica, além de realizar uma incisiva denúncia do racismo, sempre atento às questões éticas e políticas do nosso tempo. Agora, o Brasil vai conhecer melhor a força de sua poesia.

“Ser Republicano no Brasil Colônia: A História de uma Tradição Esquecida”, de Heloisa M. Starling

FOTO: Companhia das Letras/divulgação
Para mim, a personalidade mineira da literatura é, sem dúvida alguma, a professora Heloisa M. Starling, da UFMG. Lançou “Ser Republicano no Brasil Colônia: A História de uma Tradição Esquecida” e conquistou vozes múltiplas ao construir uma aliança entre as conjurações baiana, mineira e carioca, tendo como eixo o surgimento da República no Brasil. Além de bem escrito, é interessante, novo, instigante. Como se não bastasse, o seu “Brasil: Uma Biografia”, escrito e coautoria com Lilia Schwarcz, foi publicado nos Estados Unidos e escolhido, pelo “Financial Times” com uma dos mais importantes publicações de 2018.

“Alguns Humanos”, de Gustavo Pacheco

FOTO: Tinta da China Edições/divulgação
Nesse seu livro de estreia, o antropólogo e diplomata carioca reúne 11 contos perturbadores, nos quais discute, por vias ficcionais, os liames e limites entre animais humanos e não humanos, misturando os saberes antropológicos com a imaginação literária. Enciclopédicas, envolventes e, por vezes, estranhas, as histórias advêm de uma ampla pesquisa sobre os temas abordados, diluindo as fronteiras entre ensaio, relato e narrativa. Considero uma das maiores revelações da literatura brasileira atual.

Bailarina e coréografa Katiana Pena recebe o prêmio "Veja-se 2018"

Criado para valorizar iniciativas de cidadãos que transformam a sociedade brasileira ao longo dos anos, em diferentes áreas, o prêmio "Veja-se 2018", na categoria cultura foi entregue a cearense Katiana Pena

Ano que Vem passou ontem lá em casa

O Ano que Vem tem um recado pra você


O ano que vem passou ontem lá em casa e disse que o futuro vai ser melhor. Disse que o presente é bom, que é também doído, que o passado pode ter sido ruim mas que também, certamente, foi bom. Que foi tudo uma mistura. Disse que o futuro assim exatamente o será, alternando as horas duras com as horas doces, os dias de subida pedra acima e os dias de descida e de sombra, de horas de alegria, de muitas horas de tédio – mas sempre um pouquinho mais de tédio do que de emoção. E tudo isso, de novo e pra sempre com a diferença de que, no futuro, nós mesmos seremos uma versão melhorada de nós mesmos. Os nossos defeitos sempre um pouquinho mais despiorados.
O futuro disse ontem que ano vem a vida virá com menos partículas de feiúra porque a gente vai estar mais experiente. No futuro, a gente vai estar mais preparado para a beleza já bonita que exite. O ano que vem tomou um cafezinho com a gente, sentou no sofá, perguntou da família, ficou sabendo das notícias… Disse que é preciso prestar atenção pro presente porque o presente é tudo o que a gente tem. Disse que, bem dizer, o presente é o melhor presente que só ganha quem está vivo.
Sentado num tamborete na varada, depois de um silêncio de tanto falar, disse que cuidemos da casa porque a casa é uma das melhores coisas que temos. Disse que demos atenção pro jardim, que se ria na cozinha, se enfeite o quarto e se tome muito banho bom no banheiro, consciente de que o chuveiro é o maior luxo do nosso tempo.
Saiu lá de casa era boca da noite. Findou a visita ontem dizendo que a casa é pro nosso corpo o que o nosso corpo é pra nossa alma: reveladora de quem somos, de quem podemos ou de quem conseguimos ser. E que pra tudo tem uma esperança, ainda que a esperança seja faz as pazes com tudo que a vida nos dá. De modo que o ano que vem saiu ontem lá de casa rindo, dizendo que o futuro está quase presente e que se deve conciliar com o passado. E que no fim do ano ele chega, e que vai estar feliz de nos ver.

(Se não conseguir visualizar o vídeo, clique aqui)


Poema de feliz ano novo para a Casa da Esquina, ponto de cultura de Limeira – SP. Chegamos pra tocar lá, tinha café passado, bolo com cobertura e chovia. Comíamos, conversávamos no sofá e me sentia em casa. Poesia inspirada no mote “o ano que vem passou ontem lá em casa”, de Zeca Bahia.

Aleteia

28 de dezembro de 2018

Amos Oz, escritor israelense, morre aos 79 anos

Autor de 'Uma história de amor e trevas' sofria de câncer, segundo sua filha. Um dos intelectuais mais reconhecidos de seu país, ele publicou 35 livros e foi ativista pela paz em Israel.


Amos Oz, escritor israelense e cofundador do movimento pacifista Paz Agora, morreu aos 79 anos, disse sua filha no Twitter nesta sexta-feira (28). Segundo ela, ele sofria de câncer.
"Para aqueles que o amam, obrigado", escreveu Fania Oz-Salzberger na rede social.
 
Desde os anos 60, o autor publicou 35 livros, entre romances, histórias infantis e coleções de artigos, críticas e ensaios, além de outros textos.
Como escritor e ativista político, foi um dos intelectuais mais reconhecidos de seu país. Suas obras foram traduzidas para 42 idiomas em 43 países.
 
O escritor israelense Amos Oz, o principal convidado da feira anual de livros de Budapeste, posa entre seus livros no salão do Centro Cultural Millenaris. Foto de abril de 2010 — Foto: Gergely Botar/AFP/Arquivo
O escritor israelense Amos Oz, o principal convidado da feira anual de livros de Budapeste, posa entre seus livros no salão do Centro Cultural Millenaris. Foto de abril de 2010 — Foto: Gergely Botar/AFP/Arquivo

Seu livro mais conhecido é o romance autobiográfico "Uma história de amor e trevas" (2002), considerado uma obra-prima da literatura mundial.
Entre seus trabalhos, estão ainda "Meu Michael" (1968), "A caixa preta" (1988), "Conhecer uma mulher" (1991), "Pantera no porão' (1997), "O mesmo mar" (2002) e "Rimas da vida e da morte" (2007).

Biografia

Nascido em 4 de maio de 1939 em Jerusalém, de uma família de origem russa e polonesa, Amos mudou seu sobrenome em 1954, de Klausner para Oz, uma palavra hebraica que significa "força, coragem". No mesmo ano, deixou sua cidade natal para trabalhar no kibutz Hulda.
Ele publicou seus primeiros contos com pouco mais de 20 anos, em um periódico local. De volta a Jerusalém, estudou filosofia e literatura na Universidade Hebraica antes de retornar ao kibutz, onde por 25 anos dividiu seu tempo entre escrever e dar aulas.
 
Amos Oz em 2007 — Foto: Walter Craveiro
Amos Oz em 2007 — Foto: Walter Craveiro

Como soldado de reserva, Amos lutou no Sinai durante a Guerra dos Seis Dias de 1967 e nas Colinas de Golã na Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973.
Desde então, o autor publicou vários artigos e ensaios sobre o conflito árabe-israelense, nos quais fazia campanha por um compromisso israelense e palestino baseado no reconhecimento mútuo e na coexistência entre Israel e um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza. Seus trabalhos sobre o tema foram traduzidos no mundo todo.
Em 2013, o autor foi reconhecido com o prestigiado prêmio literário Franz Kafka, em Praga. Ele também venceu o Prêmio Goethe em 2005, o prêmio Príncipe das Astúrias em 2007, o Prêmio da Paz dos livreiros alemães em 1992 e o Prêmio Israel de Literatura de 1998.

Ativismo

Nos anos 60, o escritor também foi ativo no grupo social-democrata Min Hayesod, que se opunha ao culto à personalidade em torno do então primeiro-ministro israelense David Ben-Gurion.
Tornou-se o principal porta-voz do movimento Paz Agora (também conhecido como Peace Now), fundado em 1977 com sua participação. A organização foi criada com o propósito de alcançar a paz interna e externa para Israel.
 
O escritor israelense Amos Oz, em foto de 2016 — Foto:  Leonardo Cendamo/Leemage/AFP/Arquivo
O escritor israelense Amos Oz, em foto de 2016 — Foto: Leonardo Cendamo/Leemage/AFP/Arquivo

Em entrevista à GloboNews, em julho de 2017, Amos contou que, por seu ativismo, foi chamado de traidor por alguns grupos extremistas israelenses. Ele considerava o título uma honra:
"Acho que 'traidor' pode ser um título honorário. Muitos grandes homens e mulheres da História foram chamados de traidores simplesmente por estarem um pouco à frente de seu tempo.”
Para o escritor, havia uma "radicalização no mundo todo da extrema direita", assim como uma "certa radicalização da extrema esquerda". "Muita gente se esquece de que o extremismo produz desastres colossais.”
Na entrevista, o autor também falou sobre o papel político do escrítor. "Quais são as qualificações que um escritor tem para discutir política? Eu não sou especialista em nada. Às vezes gosto de pensar que sou especialista em especialistas, mas eu tenho ouvido para palavras, para a linguagem, porque a linguagem é a minha ferramenta". Ele acrescentou:
"Sinto que é meu dever ser bombeiro da linguagem ou pelo menos o detector de fumaça. Eu ergo minha voz e grito sempre para combater uma linguagem corrompida."
Reveja trecho de entrevista de Amos Oz ao programa "Milênio", da GloboNews, em 2017:
 
Milênio: 'Muita gente se esquece de que extremismo produz desastres', diz Amós Oz
Milênio: 'Muita gente se esquece de que extremismo produz desastres', diz Amós Oz

Repercussão

Autoridades e artistas usaram as redes sociais para lamentar a morte do escritor. Emmanuel Nahshon, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, disse que Amos foi "uma das vozes literárias mais proeminentes" do país.
"Uma perda para todos nós e para o mundo. Que a sua memória seja abençoada", escreveu.
"Muitas vezes, em momentos trágicos, quando a certeza parecia vacilar e o chão se esquivar, eu me perguntava: 'O que pensa Amos Oz? O que diz Amos Oz?'", disse o escritor francês Bernard-Henri Lévy.

Por G1

Frágil criança

Por 
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Celebrar o Natal de Jesus Cristo em meio a bloqueios, muros e cercas, com toda a acentuação que se dá à lógica consumista e materialista, nos mostra a face de um mundo visivelmente enganoso, deixando clara a instrumentalização do personagem principal da festa, a qual estamos envolvidos. Embora nosso esforço seja enorme, ao pensar o contrário, vemos cristalizado seu paganismo, distanciando-nos sempre mais de seu verdadeiro significado, que é o da fragilidade de uma criança, que exulte feliz nas contradições da humanidade, no clima alegre e esperançoso do Natal do Senhor, favorecendo todas as pessoas, sem distinção, num bom e grande mergulho no projeto indulgente de Deus.
No cumprimento das promessas, dons de Deus para a humanidade, na celebração do Natal, seria maravilhosa uma consciência sempre maior, de que a verdadeira festa do amor só mesmo pela segura convicção de que a glória de Deus quer se manifestar e brilhar entre nós, no Emanuel, o Deus conosco, na certeza de que chegou a salvação, no linguajar de São Paulo, na bondade de Deus para com a criatura humana, no mistério de seu próprio Filho, salvando-nos por sua livre e benevolente vontade (cf. Tt 3, 4-7).
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A vinda de Jesus à terra foi e é indispensável, porque é a salvação, é Deus visível tornando-se gente no Menino Jesus, de Maria e José, como os vemos na manjedoura, figuras centrais, sendo que a verdadeira luz que ilumina todo homem é Cristo. A celebração solene e comovedora do nascimento do Filho de Deus quer ser a afirmação da nossa fé no mistério de Jesus. Convençamo-nos do nascimento do Cristo como esperança de dias melhores na utópica, porém necessária, crença, afinal não podemos perder de vista a expectativa de um mundo fraterno e justo.

Que a bondade de Deus na criança de Belém nos ajude em nossa caminhada de fé, não distraídos e despercebidos, diante da insensatez do mundo. Assim seja!

Editorial: Amor ao livro e à leitura

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Foto: Google
O fim de ano costuma fazer aflorar bons sentimentos coletivos, que se traduzem em campanhas tendo em vista boas ações e comportamentos inspiradores. Dentre estas movimentações do período natalino chamou a atenção aquela que colocou, no centro de suas atenções, o livro. A ideia consiste em estimular a aquisição de obras impressas, para serem presenteadas aos entes queridos, visando a um movimento em espiral, intensificando sua força e arrebatando novos entusiastas.
Ao contrário do que se pode imaginar, a corrente não foi concebida por departamentos de marketing, como algum tipo de estratégia para alavancar as vendas do setor livreiro. Mais acertado ver como um movimento mais ou menos espontâneo que teve por inspiração uma carta-aberta, de declaração de amor aos livros, escrita por um editor veterano, Luiz Schwarcz, presidente do Grupo Companhia das Letras.
As palavras do editor foram motivadas por uma crise sem precedentes no negócio do livro no Brasil. As duas maiores redes de livrarias do País entraram com pedidos de recuperação judicial na Justiça, acumulando dívidas milionárias. Entre os principais credores, as casas editoriais brasileiras. A recuperação destas empresas depende, dentre outros fatores, da confiança de seus fornecedores; estes, no entanto, enfrentam dificuldades de continuar operando por conta do déficit em suas contas, causado pela falta de pagamentos por parte de seus parceiros.
A preocupação de todos aqueles que fazem parte do negócio brasileiro do livro é justificada e, portanto, é compreensível o engajamento numa campanha que estimula a aquisição de obras num período do ano em que as pessoas estão mais dispostas a gastar. Para mitigar os efeitos da crise, seria oportuno irrigar de recursos o comércio de livros, que tradicionalmente tem um ritmo lento de retorno do capital investido. O impacto, cultural e econômico, deste imbróglio, ainda está por se adivinhar. Pode-se afirmar, com segurança, que um movimento espontâneo, com tal pauta, já se inicia vitorioso.
Lembra que há muitas formas de expressar o amor aos livros e que é importante evidenciar todas elas. Cada uma traz ganhos específicos. O Verso, do Diário do Nordeste, também contagiado pela bibliofilia e pela paixão pela leitura, lançou uma campanha, intitulada "Eu Te Dedico", para reunir declarações de leitores entusiasmados, dispostos a declarar seu amor por suas obras literárias favoritas. Na edição do dia 29 de dezembro, serão publicadas as manifestações mais criativas.
Se, por um lado, é saudável pensar em estratégias, de ordem macro e micro, para restabelecer o negócio de livrarias e editoras; por outro, é fundamental voltar as atenções para as bibliotecas, em especial aquelas abertas ao público, pertençam ao Estado ou a particulares. A frequência nestes espaços é o testemunho de sua importância e dá a dimensão da necessidade de investimentos.
Os livros são receptáculos e veículos da sabedoria, dos conhecimentos e das sensibilidades. Cultivar o apreço por eles e estimular sua leitura trazem ganhos individuais, do divertimento à ilustração, e coletivos, contribuindo para uma sociedade formada por cidadãos mais instruídos e empáticos.

Diário do Nordeste

Sebastião Nunes recebe Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura

Túlio Santos/EM/D.A Press
(foto: Túlio Santos/EM/D.A Press)
O escritor Sebastião Nunes receberá, nesta sexta-feira (28), o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2018 pelo conjunto da obra em cerimônia no auditório do BDMG Cultural. A notícia da homenagem foi publicada em 5 de dezembro, data em que ele comemorou oito décadas de vida. “Foi um presente”, diz.

Agradece, mas não perde a ironia: “Não encontraram outro para premiar”. O ano foi pródigo em homenagem ao bocaiuvense: foi autor homenageado na Feira Miolo(s), reunião de editoras alternativas organizada pela Lote 42 realizada em São Paulo, e sua obra foi abordada no livro Sebastião Nunes: delirante lucidez, de Gustavo Piqueira (Coleção Gráfica Particular/Ed. Lote 42).

A sua poesia é visual. Em que momento você viu que seu caminho era transitar pela imagem e texto?

Tinha muitos caminhos. Esse era o problema. Escrevia teatro, pintava, fazia cartum, fotografava. Tentava fazer tudo de arte e ficava meio perdido. Era uma efervescência muito grande na década de 1960, no Brasil e no mundo todo. Em arte, tinha muita dispersão e muita coisa rolando. Tanto que demorei a publicar. Um dia, consegui juntar tudo que eu fazia: palavra e imagem de vários tipos. Era uma experimentação e vi que era aquilo que queria. Podia juntar tudo. Não tinha lei que impedia de juntar.

Quando você lançou Decálogo da classe média (1998), você enviou exemplares a 120 intelectuais de todo o país dentro de um pequeno caixão de defunto. 

O que escrevo não é romance, não é novela, não é conto. Crônica, sim. É algo caótico. Chamo de prosa experimental. É a única maneira mais próxima de definir. Na época, eu e o artesão Carlinhos Belém fomos à funerária e olhamos modelos de caixões. Fizemos um caixão pequeno, em que cabia o livro e mais papéis “inclâmicos” – “inclame” é um estado de espírito. Não é uma condição econômica, social ou sociológica. É o indivíduo predador, consumista, individualista e egoísta. Isso pode estar em qualquer classe social. Posicionei na classe média por ser maior.

Essa questão está cada vez mais atual, não é mesmo?

Precisamos de um mundo mais ético. Que as pessoas olhem para o outro e vejam a diferença que elas têm se tivessem a visão do outro. As pessoas só mostram a cara. A selfie está aí para provar. Uma mulher e o marido se sentam à mesa cada um com seu celular... É a individualidade mais extrema. Vemos também a ascensão da extrema-direita no mundo todo, o que vai acirrar ainda mais o individualismo, é um fluxo. Quem sabe em dois e três anos comecemos a regredir? A não ser que o mundo se destrua. Trump que destruir e Bolsonaro está apoiando ele. Além da pobreza, a grande questão humana é a ecologia.

O que a experiência como editor da Dubolso influencia na sua escrita?

Fui publicitário muitos anos. A publicidade lida com todas as técnicas, da tipografia à televisão. Transitava em todas essas áreas. Isso ajudou na construção que fiz artisticamente, inclusive a liberdade de transitar entre as áreas. Ia para o rádio gravar spot, para a televisão gravar comercial, sentava-me na prancheta. Era um conhecimento técnico. Como editor, podia ajudar outros autores. Na Dubolso, editei muita gente, mas porque tinha um bom emprego. Não cobrava nada para montar os livros. Ajudava os amigos a lançar os livros, a maioria de poesia, o que era mais difícil.

O que o Prêmio de Literatura do Governo de Minas representa para você?

Foi uma grande surpresa. Jamais imaginei. A tendência é que os prêmios possam laurear carreiras mais bem comportadas, de artistas com comportamento mais convencional, dentro do padrão, sem palavrão, extorsão e experimentalista. Não acharam mais ninguém para dar o prêmio.

Você sempre fazendo uso da sátira...


Gosto muito de brincar. Sátira é melhor forma de brincar em termos de escrita. Os grandes artistas, como Machado de Assis, Millôr, Steinberg nos EUA. São autores muito ricos, que cutucam. Então, a gente fica cutucando as coisas. A gente não é melhor que os outros. É uma forma de brincar com os outros e com a gente.

No poema Data venia, você escreveu: “Sebastião nião choramingou sonetos aos 17 anos./ Bastião nunes tartamudeou contos aos 23 anos./ Sebastunes ião lastimou-se elegíaco aos 37 anos./ Tião nu vaiou-se neste poema aos 46 anos”. Qual é o verso para Sebastião aos 80?

Parei de escrever poesia aos 50 anos. Não tem esse verso. Paul McCartney escreveu o título “quando eu tiver 64 anos”. Só depois, quando tinha 64 anos, fez a letra da música. Mas eu nunca mais escrevi um verso. Parei. Fiquei na prosa e no teatro infantil.

Você tem uma carreira consolidada, inclusive o prêmio é esse reconhecimento. Quais são os seus planos literários para 2019?

Não faço programas e definições claras do que vou fazer. As coisas acontecem. Nessa idade não tem como fazer planos demais. Queria um Brasil melhor, mas é praticamente impossível diante do que temos pela frente.

Qual é o balanço que você faz dessa longa carreira?

A carreira é uma coisa que fiz individualmente, sem participar de grupos. Isso é importante para mim. Se está em um grupo, tem que pedir bênção para o chefe. Isso trava muito a criação. Por outro lado, pode-se ter pouco reconhecimento. Quem comanda tudo são os grupos, determinam caminhos e direções. Se não faz parte, fecham-se os caminhos de divulgação. Mas o balanço é muito positivo. Em outubro, o autor Gustavo Piqueira (SP) entrou em contato comigo. Ele é um designer extraordinário, que só conheci agora – estou cada dia conhecendo menos pessoas. Ele resolveu fazer um livro com minha obra. Cecília Arbolave e João Varella, da editora Lote 42, me homenagearam na Feira Miolo(s). Duas grandes homenagens aos 80 anos que gratificam e recuperam o passado.

PRÊMIO GOVERNO DE MINAS GERAIS DE LITERATURA 2018
. Sebastião Nunes (conjunto da obra)
. Emir Rossoni (ficção)
. Ana Estaregui (poesia)
. Jonathan Tavares Diniz (jovem escritor mineiro).

Cerimônia de premiação:
. Hoje, às 10h30, no BDMG Cultural (Rua da Bahia, 1.600, Lourdes). Entrada franca.


Miúcha era na vida o que cantava

Irmã de Chico Buarque, filha de Sérgio amiga de Vinicius, casada com João Gilberto, mãe de Bebel.
A voz de Miúcha entrava sobretudo nos temas cantados em inglês e trazia um brilho inquestionável.
A voz de Miúcha entrava sobretudo nos temas cantados em inglês e trazia um brilho inquestionável. (TV Brasil_Divulgação)

Era como a seda, uma voz que chegava onde queria com o balbuciar dos cochichos e a leveza do vento. Miúcha era na vida o que cantava. Amorosa, leal, entregue, sorridente, da espécie de gente que gosta de gente. Irmã de Chico Buarque, filha de Sérgio amiga de Vinicius, casada com João Gilberto, mãe de Bebel, jamais tirou proveito da poltrona de vista privilegiada na qual se sentou a vida toda e que lhe permitia ver tudo, onde quer que estivesse.

Miúcha vai fazer falta. A cantora e a mulher, que não resistiu ao câncer no pulmão e teve uma parada respiratória, se foi nesta quinta, 27, aos 81 anos, no Rio. O velório e enterro estão previstos para esta sexta, no Cemitério São João Batista. A cantora anda carente de certa reavaliação que a tire da zona reducionista de "uma das vozes da bossa nova". Ela era mais que isso, apesar de ter tido seu material vocal todo esculpido na madeira de Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes. O álbum com Tom, o primeiro da dupla, de 1977, trazia o naturalismo do gênero sem sacrifícios da afinação, um equilíbrio raro que chamaria atenção dos críticos do jornal Le Monde. "Voz quente, afinação exata, grande poder de comunicação, Miúcha cantou com os grandes nomes da MPB, mas também com o americano Stan Getz e com o cubano Pablo Milanês." Ela cantava e sorria, e seu canto vinha quase sempre com o sol dos bossa-novistas.

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Antes da cantora, era a mulher. Mesmo como um ídolo distante, um totem inatingível, o baiano João Gilberto já fazia parte das partículas de seu oxigênio no dia em que ganhou uma bolsa de estudos e se mudou para Paris. A vida dividia-se então entre estudar História da Arte na Sorbonne de dia e seguir para as ruas noturnas de St Germain em busca de jazz e música brasileira. Em uma dessas noites, conheceu João Gilberto, apresentados por Violeta Parra, e tudo se deu rápido.

Casados, seguiram para Nova York e tiveram a única menininha de uma união que duraria de 1965 a 1971: Bebel Gilberto. Em um raro dia, uma jornalista brasileira os visitou na residência da pequena Weehawken, em New Jersey, e, ali, a importância de Miúcha na vida de João Gilberto ficou escancarada.

A entrevista, por algum motivo que só os fantasmas de João podem explicar, era um tormento desde o início. Talvez pela soberba verbal da entrevistadora, Marilena Muller, talvez por uma já desenvolvida alergia aguda a entrevistas em geral, João se fechou e passou a olhar para o infinito diante das câmeras. Não se soltava nem diante de perguntas primárias. Quando parecia não conseguir mais dar sequência, chamou Heloísa, a própria Miúcha, para salvá-lo dos leões. Ela sentou-se a seu lado, sem muito mais do que ele a dizer a não ser abrir o sorriso e mostrar a pequena Bebel para as câmeras pela primeira vez. Deu certo, e Marilena Muller desistiu.

A primeira vez de Miúcha diante de um microfone foi um susto. Com o pai professor Sérgio Buarque de Holanda, que atendia a um convite para lecionar na Universidade de Roma, e mais os seis irmãos, dentre eles Chico Buarque, foi pequena para Roma viver uma época da qual se lembraria com carinho. As emissoras de rádio traziam para casa as novidades que apareciam no Festival de San Remo e o pai reservava momentos para interpretar em casa canções napolitanas cheias de exagero. Vinicius chegava às noites com histórias da vida de embaixador em Paris e o violão passava pelas mãos de quem sabia tocar.

Mas foi em uma daquelas noites que a família saiu para jantar no restaurante Osteria del’Orso que tudo aconteceu. Vinicius esperava os amigos no andar de cima da casa com um pianista que sabia tudo de seu repertório. Assim que a garotinha chegou a seu lado, ele ameaçou cantar algo, mas passou o microfone para a garota. E ela cantou, emocionada, e não se esqueceu mais daquela noite.

Seu primeiro álbum viria mais tarde, em 1976, já separada de João Gilberto (de quem nunca se afastaria) e morando no Brasil. The Best of Two Worlds era um projeto mais de Stan Getz e João Gilberto, unindo mais uma vez os mundos de um bossa-novista, João, e um jazzista, Getz. A ficha técnica menciona ainda a percussão de Airto Moreira, o piano de Albert Dailey e os arranjos e o violão de Oscar Castro-Neves.

A voz de Miúcha (creditada corretamente como Heloísa Buarque de Hollanda) entrava sobretudo nos temas cantados em inglês e trazia um brilho inquestionável, contrapondo ao suingue de volume linear de João e ao sax reverencial de Getz. Os críticos da publicação Allmusic saíram logo em elogios. "No geral, esse é um álbum tão bom quanto o de Getz, entre seus melhores trabalhos e sem dúvida iguala suas colaborações anteriores com Jobim e Gilberto." E isso, vale lembrar, já era 1976, muito tempo depois dos anos de glória da bossa nova, em meados dos anos 1960.

A mulher Miúcha vai fazer falta a João Gilberto. Era ela o fiel da balança sobretudo em tempos de turbulência familiar, a escudeira de todas as tempestades, a voz mais sensata, um farol que parecia guiar personagens de uma história nem sempre regida pelo bom senso. Era Miúcha também quem tinha o tom perfeito para matar no peito e com as palavras certas a ansiedade dos jornalistas e de quem quer que procurasse João ao mesmo tempo em que fazia de tudo para preservá-lo. Atendia aos telefonemas elegantemente, oferecia algum alpiste aos questionamentos e se despedia com lealdade sem fornecer mais informações que colocassem em risco a preservação psicológica do cantor do qual estava separada havia mais de três décadas.

A gravação que fica em sua voz, por todos os 14 discos que lançou, é Pela Luz dos Olhos Teus, composta por Vinicius de Moraes e gravada em parceria com Jobim no disco de 1977. Miúcha viu vozes chegarem em outros tons, passarem por ela como tratores, serem endeusadas, receberem honrarias, faturarem prêmios em festivais e se tornarem divas. Viu cantoras sendo carregadas em tronos, ganhando carros de gravadoras, sendo procuradas pelos melhores compositores. Muitas se aproximaram com intenções diversas do irmão Chico, do pai Sérgio e do amor de sempre João, que, até o fim, só confiava em sua palavra. Mas poucas deixaram, além de interpretações fortes, uma dignidade tão impactante quanto a que Miúcha deixa transparecer quando canta como se fosse qualquer um de nós: "Quando a luz dos olhos meus / E a luz dos olhos teus / Resolvem se encontrar / Ai, que bom que isso é, meu Deus / Que frio que me dá / O encontro desse olhar / Mas se a luz dos olhos teus / Resiste aos olhos meus / Só pra me provocar / Meu amor, juro por Deus / Me sinto incendiar".


Agência Estado

27 de dezembro de 2018

Dez livros essenciais recomendados pelo 'Aliás' em dezembro

Equipe do 'Aliás' compila a última lista de recomendações de 2018

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

Dez livros essenciais recomendados pelo 'Aliás' em dezembro
 
A equipe do Aliás seleciona, na última edição de cada mês, dez obras publicadas recentemente no Brasil e em outros países para incluir em sua Estante. Confira as indicações de novembro:
 
 
República Luminosa - Andrés Barba (Todavia)
 
Ensaísta, poeta e autor de livros infantis, escolhido há oito anos pela revista Granta como um dos melhores escritores jovens de língua espanhola, Andrés Barba foi premiado no ano passado com o Herralde por este República Luminosa, romance sobre crianças violentas que aparecem misteriosamente em San Cristóbal, uma cidade próxima da selva. Barba escolhe uma testemunha da ação perturbadora dessas crianças para revisitar o episódio que levou os cidadãos locais a reconsiderar suas posições sobre a ingenuidade infantil e a ideia de ordem. Elogiado por autores como Edmund White, Barba é também tradutor de autores ingleses e americanos.
Úrsula - Maria Firmina dos Reis (Companhia das Letras/Penguin)
Um dos primeiros romances brasileiros de autoria feminina, publicado em 1859, Úrsula, da maranhense Maria Firmina dos Reis (1822-1917), considerada a primeira romancista negra brasileira, conta a história de um casal apaixonado, Úrsula e Tancredo, cujo relacionamento sofre com a interferência externa de uma sociedade escravocrata e cruel. Esta nova edição do livro tem como diferencial o estabelecimento de texto e introdução de Maria Helena Pereira Toledo Machado, e cronologia de Flávio Gomes. O tema da escravidão aparece também em outro livro da pioneira Maria Firmina dos Reis, A Escrava (1887), que elege como heroína uma ativista da causa abolicionista.
A Máquina Parou - E.M. Forster (Iluminuras)
Autor dos clássicos Passagem para a Índia e Maurice, o inglês E.M.Forster escreveu um texto de ficção científica que não é muito conhecido do leitor brasileiro, A Máquina Parou, distopia sobre uma Terra arrasada por catástrofes ecológicas e pessoas vivendo no subterrâneo que são comandadas por uma máquina. O texto foi escrito em 1909, mas seu tema é atual, assim como outra novela de Forster, Paisagem com Risco Existencial, que ganha uma análise do crítico e ensaísta Teixeira Coelho. O autor inglês chegou a declarar que escrevera A Máquina Parou como contraponto das fantasias científicas de H.G. Wells, o autor de A Máquina do Tempo.
As Três Irmãs, de Tchékhov, por Stanislavski (Perspectiva)
 O diretor russo Constantin Stanislavski foi grande amigo e parceiro de Chekhov, montando suas peças no histórico Teatro de Arte de Moscou, entre as quais As Três Irmãs, encenada por ele. Neste livro, volume da coleção Stanislavaski, estão as traduções diretas do russo e as partituras cênicas do diretor. Tieza Tissi analisa o trabalho de Stanislavski, que sempre interferia nos originais para dar à montagem maior autenticidade, baseando-se na experiência pessoal de seus atores e nos ruídos externos que traziam o real para o interior do teatro. A autora, mestre em teatro russo, explica o método de Stanislavski e as liberdades com Chekhov.
Evolution of Desire - Cynthia Haven (Michigan University Press)
Em Evolution of Desire: A Life of René Girard, Cynthia Haven examina a vida de um dos grandes pensadores do século passado – sobretudo a vida intelectual, considerando que Girard nunca foi um homem de grande trânsito social, mas um intelectual reservado, cuja vida transcorreu sem grandes aventuras. A autora, que escreveu outras biografias (Brodsky, Milosz), conta a trajetória de Girard, de sua juventude como estudante de cultura medieval em Chartres, até sua mudança para os EUA, em 1947. Girard é conhecido por sua teoria mimética – a adoção de modelos pelos humanos – e toda a sua obra foi publicada no Brasil pela editora É Realizações.
A Transparência do Tempo - Leonardo Padura (Boitempo)
O detetive Mario Conde talvez não corresponda ao estereótipo do investigador durão de film noir e do cyberpunk, nem é exatamente o Sherlock Holmes de Havana. Conde é o protagonista de boa parte dos livros do escritor cubano Leonardo Padura, incluindo seu mais recente lançamento, A Transparência do Tempo, que chega ao Brasil agora pela Boitempo. Nesse romance, o personagem, agora com 60 anos e tendo um olhar cada vez mais pessimista sobre seu país, recebe uma oferta de trabalho: recuperar uma escultura que sumiu. O que, a princípio, parecia simples, se mostra uma viagem ao passado, entre a Cuba contemporânea e a Catalunha medieval.
Riminhas para Crianças Grandes - Wisława Szymborska (Ayiné)
Os grandes escritores nunca deixam morrer suas crianças interiores: James Joyce legou contos infantis em cartas para seu neto; J.R.R Tolkien escreveu diversas obras – incluindo O Hobbit – pensando em seus filhos; e Eugène Ionesco fez peças absurdas infantis para sua filha. Não poderia ser diferente com a poeta polonesa Wisława Szymborska, vencedora do prêmio Nobel de Literatura m 1996: Riminhas para Crianças Grandes não é exatamente destinado ao público infantil, mas contém diversos experimentos formais, jogos poéticos e brincadeiras literárias da escritora que sempre se trancava em seu apartamento para “brincar de ser artista”, segundo ela.
Nos Ombros dos Gigantes - Umberto Eco (Record)
“Se eu vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes”, afirmou o físico Isaac Newton, que revolucionou nossa compreensão do sistema solar. Essa citação inspira o título de um livro póstumo do semiólogo italiano Umberto Eco, que compila palestras proferidas por ele entre 2001 e 2015 no festival La Milanesiana, reunião de grandes nomes das artes, da filosofia e da ciência. Eco fala sobre o fim das utopias na virada do milênio e critica a tendência das pessoas a crer em teorias conspiratórias no texto mais recente. Como ele usava obras de arte para exemplificar seus conceitos e argumentos, o livro inclui mais de 100 imagens em meio aos 12 textos. 
Dez Argumentos para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais - Jaron Lanier (Intrínseca)
Jaron Lanier é um dos homens mais bem-sucedidos do Vale do Silício, criador de um projeto imersivo de realidade virtual, com direito a uma luva que permite ao usuário sentir até mesmo o toque e o peso de objetos inexistentes. Embora seja o titereiro de uma ilusão tecnológica, ele alerta ferozmente para os perigos das redes sociais – alguns dos quais os brasileiros puderam testemunhar em primeira mão em 2018. Em Dez Argumentos para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais, um título que sugere urgência, ele mostra como o atual modelo de negócios de empresas como o Facebook lucra com a disseminação do ódio e é corrosivo para as democracias e as relações sociais – essas sim, de verdade.
Pequenos Poemas em Prosa: O Spleen de Paris - Charles Baudelaire (Via Leitura)
Publicado originalmente em 1869, Pequenos Poemas em Prosa – O Spleen de Paris é uma reunião de versos como os que tornaram Charles Baudelaire um dos pilares do simbolismo francês. Em resposta ao paradigma da época, dominado pelo parnasianismo, Baudelaire se rebelou, em termos de forma e de conteúdo, contra essa estética essencialmente burguesa, marcando uma ruptura nos padrões literários ao abordar a realidade cotidiana sem idealismos e em versos livres. Baudelaire foi considerado imoral por recorrer a temas como a sexualidade, o uso de drogas e a crítica à religião, mas lançou as bases para outros poetas de vanguarda.

Cultura/Estadão