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Destaques da literatura em 2018

O conjunto chama atenção para o que vem sendo produzido de mais recente na literatura brasileira e latino-americana com força para continuar reverberando nos próximos anos


CARLOS ANDREI SIQUARA
Entre títulos de ficção, poesia e ensaio, a crítica literária, escritora e professora Maria Esther Maciel (livros nos boxes de contorno vermelho) e o escritor e jornalista Afonso Borges (livro no box de contorno azul) listam alguns dos principais lançamentos de 2018. O conjunto chama atenção para o que vem sendo produzido de mais recente na literatura brasileira e latino-americana com força para continuar reverberando nos próximos anos. 

“Com Armas Sonolentas”, de Carola Saavedra

FOTO: Companhia das Letras/divulgação
Nesse admirável romance, Carola Saavedra trata de três mulheres que, embora bastante distintas, se entrelaçam de maneira surpreendente. É, a meu ver, um livro intenso e perturbador sobre a maternidade, centrado nas relações paradoxais entre mães e filhas. Com muita desenvoltura no manejo da narrativa e da linguagem, a escritora (chilena radicada no Brasil desde criança) articula línguas, países e culturas diferentes, à luz dos versos da grande poeta mexicana Sóror Juana Inés de la Cruz. Experiências de abandono e exílio atravessam as personagens de forma intensa e dolorosa. Realidade, sonho e delírio se misturam, permeados também por elementos fantásticos. Foi uma leitura que me tocou profundamente, em vários aspectos.

Box com “Os Trabalhos e As Noites” e “Árvore de Diana”, de Alejandra Pizarnik

FOTO: Relicario/divulgação
Esses dois livros de poesia da escritora argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972) são uma preciosidade. Publicados de forma primorosa pela editora mineira Relicário, os dois volumes trazem para os leitores brasileiros uma amostra potente da poesia de uma das autoras mais singulares da literatura latino-americana e, até então, pouco conhecida no Brasil. Os poemas são breves, densos e intensos, voltados para as experiências íntimas da própria autora, em embate com os terríveis acontecimentos políticos que vivenciou em sua curta existência.

“Nenhum Mistério”, de Paulo Henriques Britto

FOTO: Companhia das Letras/divulgação
É um belíssimo volume de poemas sobre perda, ausência e desencanto, construído com o requinte poético de um exímio conhecedor da arte do verso. Melancólico em alguns momentos, irônico em outros, o livro tem 27 poemas em que o lirismo se manifesta de maneira intensa e contida ao mesmo tempo. Um dos versos que ainda latejam em mim depois da leitura é este: “nada que te pertence é teu”.

“Pesado Demais para A Ventania: Antologia Poética”, de Ricardo Aleixo

FOTO: Todavia/divulgação
Esta seleção de poemas de um dos mais instigantes poetas brasileiros contemporâneos foi, sem dúvida, um dos notáveis lançamentos de 2018. O volume concentra a diversidade inventiva da poesia do autor mineiro que, neste ano, completou 25 anos de trajetória poética. Em seus poemas, Aleixo experimenta linguagens, alia oralidade e visualidade, reinventa as culturas afro-brasileiras, dialoga com as expressões contemporâneas do pop e da cultura tecnológica, além de realizar uma incisiva denúncia do racismo, sempre atento às questões éticas e políticas do nosso tempo. Agora, o Brasil vai conhecer melhor a força de sua poesia.

“Ser Republicano no Brasil Colônia: A História de uma Tradição Esquecida”, de Heloisa M. Starling

FOTO: Companhia das Letras/divulgação
Para mim, a personalidade mineira da literatura é, sem dúvida alguma, a professora Heloisa M. Starling, da UFMG. Lançou “Ser Republicano no Brasil Colônia: A História de uma Tradição Esquecida” e conquistou vozes múltiplas ao construir uma aliança entre as conjurações baiana, mineira e carioca, tendo como eixo o surgimento da República no Brasil. Além de bem escrito, é interessante, novo, instigante. Como se não bastasse, o seu “Brasil: Uma Biografia”, escrito e coautoria com Lilia Schwarcz, foi publicado nos Estados Unidos e escolhido, pelo “Financial Times” com uma dos mais importantes publicações de 2018.

“Alguns Humanos”, de Gustavo Pacheco

FOTO: Tinta da China Edições/divulgação
Nesse seu livro de estreia, o antropólogo e diplomata carioca reúne 11 contos perturbadores, nos quais discute, por vias ficcionais, os liames e limites entre animais humanos e não humanos, misturando os saberes antropológicos com a imaginação literária. Enciclopédicas, envolventes e, por vezes, estranhas, as histórias advêm de uma ampla pesquisa sobre os temas abordados, diluindo as fronteiras entre ensaio, relato e narrativa. Considero uma das maiores revelações da literatura brasileira atual.

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