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NUMA BEIRA DE ESQUINA

Pe. Gleiber Dantas de Melo*
A imagem pode conter: Gleiber Dantas de Melo, sorrindo
Toda cidade tem zonas consideradas marginais, onde moram as pessoas tidas como perigosas. Nessa cartografia de preconceito, quem foi afastado não se aproxime. Pobres são sempre uma ameaça, não precisam ser vistos, precisam ser revistados quando chegarem. Eles nem chegam a ser contados, não valem quase nada, a não ser de dois em dois anos. É bom manter distância desse povo que mora longe.

Quem quiser ver o Filho de Deus deve cruzar essas fronteiras. Ele nasceu numa beira de esquina; numa ponta de rua, foi dado à luz o Salvador, deitado num cocho, que nem esterilizado foi. Seus pais haviam ido à Belém para se recensearem e talvez nem tenham entrado nos números oficiais do poder romano. Cristo vem para estabelecer uma nova matemática. Ele mesmo vai contar as ovelhas e, se faltar uma, ele vai procurar a que não chegou ainda. Ele recenseará no povo de Deus todos os pecadores. 

Faltam ainda muitas personagens para o presépio ser mais original. Coloquemos nele todos os que estão na noite nada feliz da vida. Assim como os pastores daquela região, que estavam tomando conta do seu rebanho quando o Menino Deus nasceu, ele vai procurar os que não podem ser vistos à luz do dia. Cristo, que não teve direito a nascer sequer numa pousada de quinta categoria, não se acanhará em pedir arrancho em qualquer coração de última classe. Se ele é a luz, nas trevas da desesperança e em todas as horas dolorosas da humanidade, se poderá encontrar a glória do Senhor, que envolveu em luz os pastores e lhes arrancou o medo que sentiram.

A ninguém é dado o direito ao medo. Quem quiser encontrar o Emanuel, o lugar é além do orgulho, no cocho está o sinal de Deus, em trapos de humanidade. Agora é tirá-lo da manjedoura e dar-lhe vida, saúde e educação, segurança e moradia em todos os que esperam sua chegada e querem guardar a presença de Deus e sua ternura. Com a luz de Cristo, acender as luzes que estão apagadas, começando pelas pontas da nossa vida, onde não chegou ainda toda a graça e há muita culpa com fome e sede de amor.

*Padre Gleiber Dantas de Melo, historiador, da Diocese de Caicó (RN)

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