30 de junho de 2019

Morre José Ilclemar Nunes Ferreira, ícone do teatro cearense

Com mais de 50 anos de carreira, o teatrólogo e artista plástico José Ilclemar Nunes Ferreira morreu neste sábado, 29 de junho. Ele é um dos mais importantes estudiosos da dramaturgia cearense e se tornou uma referência quando se fala de teatro no Brasil. Natural de São Luís do Curu, interior do Ceará, ele partiu cedo para o Rio de Janeiro - onde foi professor e realizou refinadas investigações dramatúrgicas. Desde 1990, entretanto, vinha se dedicando ao estudo de uma das personagens ícones do Ceará: a índia Iracema.
Nas redes sociais foram muitos os depoimentos de artistas, amigos e admiradores - todos falando sobre a importância de José Ilclemar Nunes Ferreira para a história do teatro cearense.
"Partiu um dos melhores amigos da família Serra! Foi encontrar Mestre Haroldo nos palcos celestiais! Ilclemar Nunes nunca perdia uma peça da Comédia Cearense! Levou todo seu carinho na homenagem à Mamãe na quinta-feira! Inacreditável! Tomara que esse mês de junho finalmente acabe!", comentou em publicação no Facebook o artista Hiroldo Serra, filho de Haroldo Serra - que morreu no último dia 16.
"Ele já foi muitos vivendo sua jornada nas artes cênicas, atuou, dirigiu, promoveu, escreveu, viveu plenamente sua paixão de contar histórias, agora adentra o plano etéreo onde a vida recomeça. Valeu demais ter-te conhecido Ilclemar Nunes, desejo que nesta noite dedicada a São Pedro, tu sejas recebido com festa pelo porteiro do céu. Segue em paz", escreveu o produtor cultural Kennedy Saldanha.
O corpo de José Ilclemar Nunes Ferreira foi velado em sua cidade natal, São Luís do Curu. O sepultamento ocorre na tarde deste domingo, 30, no Cemitério São Miguel. Ele também exerceu as funções de autor, ator e diretor teatral. A pesquisa sobre a índia Iracema - personagem do clássico romance do escritor José de Alencar - começou através de provocação da Secretaria da Cultura do Estado (Secult). Em 1990, ele escreveu a primeira versão do musical e, desde então, Ilclemar nunca parou de estudar a figura indígena. Uma versão do espetáculo, inclusive, inspirou o roteiro do desfile da escola de samba carioca Beija-flor de Nilópolis, que levou para a Sapucaí a história de Iracema, em 2017.
Fonte:O Povo

ISABEL COSTA



28 de junho de 2019

VAMOS ENFRAQUECER O MINISTÉRIO PÚBLICO

O Ministério Público (MP) é uma das instituições mais perigosas que pode haver em nossa História republicana, e somos nós, os legisladores, os culpados. De mero fiscal da lei, se agigantou e se tornou um monstro capaz de nos engolir.
O MP não pode mais protagonizar investigações que tem levado políticos e agentes públicos corruptos à prisão, por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, etc, reduzindo-os à condição de larápios da coisa pública.
O MP não pode ficar falando sobre os casos em que atuam, dando entrevistas, deturpando nossa imagem perante nossos familiares, amigos e eleitores.
O MP deve responder judicialmente sempre que ousar ingressar com investigação ou processo contra nós, políticos e agentes públicos, suspeitos de cometer atos de corrupção ou de improbidade.
O MP não pode ficar xeretando a vida dos políticos e dos agentes públicos sem que nada lhe aconteça. Por isso, deve pensar duas a dez vezes antes de agir, antes de nos investigar e nos processar. Deve ficar vulnerável e ciente de que pode sofrer sérias punições caso mexa com quem não deve.
Vamos aprovar aquele projeto de iniciativa popular das “Dez Medidas contra a Corrupção”. Não daquele jeito, claro, mas alterado a nosso gosto!
Vamos tornar crime eleitoral o Caixa 2 e tornar hediondo o crime de corrupção. Nada mais justo, afinal, quem vai ter coragem de nos investigar se sabe que vai responder a processo, podendo ser preso e vir a perder o cargo? E se forem provocados e não agirem, serão também punidos.
Um golpe de mestre.
Eis o resumo da ópera que envolve a aprovação do Projeto de Lei no 27/2017, pelo Senado Federal.
O PL 27/2017 tem um destinatário certo: os membros do MP e os magistrados da Lava Jato.
Mas o MP não é somente a Lava Jato.
Tampouco a magistratura.
O MP é muito mais.
É o MP que atua nas questões relacionadas aos indígenas, ao meio ambiente, à infância e à adolescência, aos portadores de necessidades especiais, ao direito do consumidor.
É o MP que ingressa com ações civis públicas relativas aos desvios de merenda escolar, contra a precariedade do transporte escolar, contra a indevida cobrança de taxas e impostos, para garantir o pagamento de salários dos funcionários cujo município atrasa, para garantir que o estado pague por medicamentos caros àqueles que não podem pagar.
O MP é a instituição a quem o cidadão recorre para fazer valer seu direito, porque acredita em sua atuação.
O MP não é a instituição a quem o malfeitor ou o corrupto simpatiza ou deseja ter em seu encalço.
Enfraquecendo o MP, enfraquecida ficará a sociedade.

GRECIANNY CORDEIRO
PROMOTORA DE JUSTIÇA

Rapper confirmado na Flip transita entre poesia e horror em trama sobre o genocídio na Ruanda


Publicado pela Editora Rádio Londres, “Meu pequeno país” é a estreia literária de Gaël Faye


Mais conhecido no cenário musical, Gaël Faye faz marcante estreia literária
Crédito: Nyirimihigo
A voz que ouvimos marcar o papel é de uma criança. Perdida, confessa: “Não sei bem ao certo como esta história começou”. Agarra-se, assim, ao pai para elucidar fatos que, à tenra idade, pouco há para compreender, acerca das diferenças entre as etnias hutu e tútsi. Da maneira mais singular, pueril e absoluta possível, ele responde: “Tudo depende do nariz e da altura das pessoas’. 
“Este talvez seja um dos motivos que tornam imperdível a leitura do livro”, explica Maria de Fátima Oliva do Coutto. Ela é tradutora de “Meu pequeno país”, estreia literária do romancista e rapper africano radicado na França Gaël Faye, 14ª presença confirmada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano. A obra surge como o lançamento de junho da Editora Rádio Londres, detentora de respeitado catálogo de contemporâneos e talentosos nomes da literatura mundial – caso do colombiano Andrés Caicedo, do holandês Arnon Grunberg, da francesa Maylis de Kerangal, entre outros.
Em breves linhas, a trama assinada por Faye tenta explicar as origens do genocídio ocorrido na Ruanda nos anos 1990 a partir do crescendo de violência instaurado no local. Para isso, utiliza-se do olhar do pequeno Gabriel, residente em um bairro nobre de Bujumbura, no Burundi, que vivencia o choque dos conflitos étnicos e políticos e a consequente perda da inocência. 
Ainda que ficcional, a narrativa espelha algo maior: é baseada nas próprias experiências da vida do escritor. Feito Gabriel, Gaël também sentiu o impacto da conflagração no país natal, responsável por liquidar mais de 800 mil pessoas – capítulo dos mais sangrentos da história daquela nação. Igualmente, passou a se descobrir como mestiço, tutsi e, posteriormente, francês.
“O autor nos apresenta um tema muito específico, mas com apelo universal, a partir da questão da perda da infância, do paraíso perdido. Essa primeira fase da vida deixa em todos marcas indeléveis, que Gaël nos faz reviver com a história do pequeno Gabriel, sua família, amigos e de seu pequeno país, por meio de uma escrita delicada e que prima em recriar sensações desaparecidas no tempo. Ele usa as palavras como um mágico”, sublinha Fátima, em entrevista ao Verso.
Expressões
Odores, luzes e sons traçam o rastro das origens do escritor no papel. Desta feita, a música, enquanto um desses elementos, está bastante presente na obra. Em determinado trecho da narrativa, por exemplo, ficamos sabendo que, no Burundi, era tradição tocarem música clássica na rádio quando havia um golpe de Estado. 
Daí, rememoramos diversos deles por meio da Sonata para piano nº 21, de Schubert; pela Sinfonia nº 7, de Beethoven, entre outras. Segundo a tradutora, “acabei contagiada pelo som – a rumba, o chá-chá-chá, o soukouss –, e fui apresentada a cantores como Papa Wemba e à orquestra Grand Kallé”.
Fátima ainda sublinha aspectos importantes referentes ao processo de transposição do livro do francês para o português. De maneira geral, ela elucida que, no ofício, é sempre necessário estar muito atento ao modo como o autor narra a história, à época em que se passa e à carga emocional embutida no material. Com “Meu Pequeno País” não foi diferente. 
“O livro é quase todo narrado por uma criança e, portanto, o linguajar é infantil, sobretudo durante a narrativa da infância despreocupada dos primeiros tempos. Neste ponto, é interessante observar que quase todas as frases seguem a mesma construção – forma direta: sujeito, verbo e predicado –, não há construções na voz passiva e o texto é recheado de comparações. Tudo sem jamais perder a enorme carga de dramaticidade e lirismo”.
Urgências
Talvez uma das habilidades mais preciosas de Gaël enquanto artesão do verbo escrito é possuir uma perspectiva poética e estilo suave para dizer coisas muito duras com palavras doces, o que confere nova atmosfera ao relato. Fala das brincadeiras da turma, mas também dos massacres e carnificina; enfoca em detalhes íntimos, sem deixar de dramatizar a terrível nostalgia de ter perdido não apenas a inocência na infância, como o próprio mundo para a guerra.
Conforme destaca Fátima, “faltam demarcações entre o bom e o mal, a sanidade e a insanidade, a pureza e a corrupção. Não há juízo de valor, ele vai capturando o impacto da desintegração social, a morte da inocência. Tem uma visão de mundo poética, embora política”.
Nesse movimento, enquanto se discute tanto sobre imigração hoje, a leitura do livro chega como convite para compreendermos melhor o sofrimento dos que são obrigados a deixar para trás as próprias raízes. E mostrar o quão difícil é a assimilação, os preconceitos enfrentados.
A obra, não à toa, também trata da aceitação do diferente, outra temática bastante discutida na contemporaneidade. Como o narrador diz, já adulto e na França: “Vivo numa cidade nova como uma vida sem passado”, enfatizando que, sempre ao conhecer uma possível parceira, surge a pergunta sobre sua origem, como uma passagem quase obrigatória para aprofundar a relação. “Sua pele ‘cor de caramelo’ é, com frequência, intimada a enunciar seu pedigree”, arremata a tradutora.
Ao vir para o Brasil, Gaël Faye deve, portanto, alimentar a curiosidade do público por obras que fujam do eixo convencional, além de demarcar uma realidade animadora para o setor editorial: o número de autores africanos traduzidos no País, estatística que tem crescido (apesar de ainda carecer de maiores olhares).
Delicado, intenso e vigoroso, “Meu pequeno país” reflete tal relevância: já transbordou, virou pátria maior. Ganhou cinco prêmios literários na França, tradução em mais de 30 idiomas e está em fase de adaptação cinematográfica. Uma pequena obra-prima.
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Meu pequeno país 
Gaël Faye 
Tradução: Maria de Fátima Oliva do Coutto 
Rádio Londres 
2019, 189 páginas 
R$ 59, 50

> Saiba Mais: Novidades no front da Rádio Londres
Nas redes sociais, a Editora Rádio Londres, à frente da publicação de “Meu pequeno país” no Brasil, já divulgou os próximos lançamentos para este ano. Em julho, sai “Canto da Planície”, do americano Kent Haruf; em agosto, “O Desvio”, do holandês Gerbrand Bakker; em setembro, “No final da tarde”, de Kent Haruf; nos dois últimos meses de 2019, “Em busca do Barão Corvo”, de A. J. A Symons, e “O Imitador de Homens”, de Walter Tevis, respectivamente.

Diário do Nordeste

Não às drogas

Por Gonzaga Mota - Professor aposentado da UFC

A produção e a venda de drogas, bem como a lavagem do dinheiro do tráfico, constituem, sem dúvida, um dos principais elementos de complicação dos entendimentos políticos, econômicos e sociais do século XXI no mundo. Vale ressaltar que a atividade criminosa vem sendo estimulada, em muitos pontos, pelo processo de globalização, baseado num relacionamento perverso do tipo centro-periferia, pelos problemas éticos e morais de determinadas autoridades públicas, bem como pela certeza de impunidade, principalmente no que diz respeito aos crimes do “colarinho branco”. Sem dúvida, é lamentável, o narcotráfico tornou-se em importante atividade econômica para alguns países. Passando dos aspectos macros, para aqueles relacionados intrinsecamente com as famílias e as pessoas, percebemos com mais nitidez o mal causado pelas drogas. A desarticulação familiar, filhos matando pais e vice-versa e irmão destruindo literalmente a vida de irmãos, leva-nos a prever dias de angústias, de desesperança e de mais violência. Estamos perplexos e com medo. Sem deixar de reconhecermos a importância da repressão, acreditamos na eficácia da prevenção, mediante investimentos na área social, criação de empregos, melhoria na distribuição de renda, redução da pobreza, enfim, no desenvolvimento integrado e sustentável. A droga deixou apenas de ser um negócio escuso para se tornar, contra a vontade da grande maioria das nações, num problema cultural. Devemos aproveitar a globalização para combater o narcotráfico e não, como já foi mencionado, para facilitar. Precisamos ter consciência de que o sentido da vida é ser útil e feliz. Não apenas por palavras, mas também mediante atitudes simbólicas, pode-se externar bom comportamento. Pensar e agir com lucidez constituem o caminho para a solução dos problemas. Nunca é tarde e impossível para ser feliz. Procurar a morte é covardia. Não às drogas.

Podcast: Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (28/06/19)



27 de junho de 2019

Festival no Campo Limpo aborda literatura e futebol feminino

Evento no Sesc, de 26 a 30 de junho, terá participação da Agência Mural

Quais os hábitos de leitura nas periferias e quais histórias inspiradoras de mulheres que jogam futebol nos bairros das bordas de São Paulo. 

Temas como estes farão parte do LiteraCampo, evento realizado no Sesc Campo Limpo entre quinta-feira (26) e domingo (30), que terá a participação da Agência Mural. O objetivo é promover um encontro entre públicos e diversas formas de literatura.
Na sexta-feira (28), às 18h15, haverá o LiteraCampo Histórias Inspiradoras do Futebol Feminino. Autora da HQ Minas das Várzea, a editora-adjunta da Agência Mural, Priscila Pacheco, participa da roda de conversa ao lado das jogadoras do FuteMinas e do clube Palmeirinha, de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, e da apresentadora Dani Ramos (TVila). 
A roda aborda como a “literatura chega através das histórias inspiradoras de jogadoras de futebol que superaram as dificuldades e obstáculos para colocar seu talento em campo ou na quadra”. 
Lançamento da HQ Minas da Várzea, de Priscila Pacheco, que participará do LiteraCampo (Charles Trigueiro)
Outro painel será sobre a circulação de fake news em bairros periféricos e terá a presença de vários veículos das periferias. A mesa, na quinta-feira (27), às 19h30, terá a participação de Anderson Meneses, co-diretor da Agência Mural, junto com Leonardo dos Santos, do Escola de Notícias, Ronaldo Matos, do Desenrola e Não Me Enrola, e do escritor Ferréz. 
A ideia é abordar “a circulação das Fake News na atualidade, os hábitos e contatos com as diversas formas de literatura na periferia e o papel das mídias tradicionais e de mídias engajadas no contexto de circulação de informações falsas e no acesso à informação de qualidade”, diz o evento. 
Entre outras atrações do LiteraCampo haverá rap em quadrinhos, leitura para crianças, apresentação de Drik Barbosa, a multiartista Dona Jacira e um sarau em homenagem a Tula Pilar, poeta que morreu no mês de abril. 
A programação completa você confere no portal do Sesc.
Fonte: Agência Mural

Projeto Hora do Conto de Guaramirim aproxima alunos da literatura

É pensando em incentivar a literatura que a prefeitura de Guaramirim em parceria com a Fundação Cultural, realizaram nesta quarta-feira (26), mais uma edição do Hora do Conto


Projeto Hora do Conto de Guaramirim aproxima alunos da literatura - Crédito: Divulgação / Prefeitura de Guaramirim
Livros e mais livros. Histórias de heróis, príncipes e princesas, reis e rainhas e um mundo para imaginar. É pensando em incentivar a literatura que a prefeitura de Guaramirim, através da secretaria de Educação em parceria com a Fundação Cultural, realizaram nesta quarta-feira (26), mais uma edição do Hora do Conto. O objetivo, é convidar as escolas a visitarem a Biblioteca Municipal.
Nesta edição, a professora Suzamara Saplack acomandou uma contação de histórias para os alunos do pré I e maternal II dos centros de educação infantil Maria Domênica, Santina Schork, Maurita Maria Rosa, Zilma Flores e Gustavo Tank.

Conforme a supervisora de ensino Janira da Silva, a ação aproxima os pequenos da literatura, seja de forma escrita ou oral. “As histórias são contadas de forma lúdica e descontraída, a fim de atrair as crianças para o universo da literatura e, desta maneira, ajudar na formação de novos leitores”, enfatiza. A próxima edição do projeto está programada para setembro.
Fonte: Diário da Jaguará

O brasileiro que coordenou a restauração da Pietà

Ele foi um dos homens mais influentes nos Museus Vaticanos

Em 21 de maio de 1972, Laszlò Tóth, um geólogo húngaro naturalizado australiano, realizou um dos maiores atos de vandalismo da história: com um martelo deu vários golpes na famosa imagem de Michelangelo, a Pietà.
László entrou na Basílica de São Pedro na manhã de 21 de maio e, por volta das 11h30, pulou a balaustrada que separava a multidão de visitantes e a escultura da Pietà.

O homem tirou sua jaqueta para estar mais livre em seus movimentos e bateu primeiro atrás da cabeça de Nossa Senhora com um martelo de geólogo e, depois, várias vezes, em seu rosto e braços, deixando, no entanto, intacta a figura de Cristo. Ao fazê-lo, gritou em italiano: “Cristo ressuscitou! Eu sou o Cristo!”
A Pietà sofreu danos muito graves. Os golpes de martelo fizeram cerca de cinquenta fragmentos, quebrando o braço esquerdo e esmagando o cotovelo. O nariz ficou quase destruído, assim como as pálpebras.
Reparar as lesões sofridas e restaurar aquele milagre ao seu esplendor original era apenas uma das opções. Alguns queriam que a Pietà não fosse restaurada totalmente, mas que ficasse com as marcas das marteladas que a tinha desfigurada, pois em tempos tão violentos, tornar-se-ia assim um símbolo da vítima inocente. Outros queriam uma restauração “crítica” que deixaria em evidência as falhas e adições.
Porém permaneceu a primeira hipóteseː a restauração integrativa e completa. O brasileiro Deoclecio Redig de Campos disse naquela época:
“ A Pietà tira a sua força expressiva em grande parte da pureza do mármore. É uma estátua tão bem acabada que um simples arranhão no rosto perturba mais do que a falta dos braços de Vénus de Milo. ”

Deoclecio Redig de Campos

Deoclecio Redig de Campos foi o coordenador da famosa restauração da imagem da Pietà. O trabalho artístico ficou a cargo de Vittorio Federici.
Filho de um oficial diplomático, Deoclecio mudou-se para a Europa, onde estudou primeiro na Alemanha, depois na Suíça e finalmente na Itália, onde se formou em Roma em história da arte. Em 1933 foi contratado pelos Museus do Vaticano.
Em 1935, assumiu a direção da Galeria de Imagens do Vaticano e, em 1971, foi nomeado diretor geral dos Museus Vaticanos, cargo que ocupou até 1978. Ele dirigiu a restauração dos afrescos de Michelangelo na Capela Paulina e das Histórias de Cristo e de Moisés na Capela Sistina, os da Sala do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, de três retábulos de Raphael na Galeria de Fotos e a Pietá de Michelangelo, mencionada acima.
Suas muitas publicações foram escritas em diferentes línguas por ele (inglês, alemão, espanhol, português e italiano). Entre eles é de se notar os grandes volumes sobre o Giudizio Universale di Michelangelo, Raffaello e Michelangelo, Affreschi di Michelangelo nella Cappella PaolinaRaffaello nelle Stanze e o que foi impresso diversas vezes, Itinerario pitórico dos Museus Vaticanos.

A restauração final

A estátua inteira foi lavada com água destilada. Pequenos espaços atrás da nuca foram deixados, para memória visível do dano sofrido. Dois pinos foram removidos, que uma vez suportavam um falso halo que já não existia. No dia 21 de dezembro de 1972, a restauração foi praticamente concluída e o Papa Paulo VI foi rezar diante da estátua e agradecer às pessoas que tinham tornado possível esse milagre. Na frente da escultura foi colocado um vidro protetor, à prova de balas, e as tábuas que bloquearam a entrada da Capela da Piedade foram finalmente desmontadas.
No domingo, 25 de março de 1973, Paulo VI anunciou que a escultura restaurada de Michelangelo havia sido devolvida às orações e à admiração dos fiéis.
Com informações de Vatican News 
Aleteia

26 de junho de 2019

Com delicadeza, livro infantil trata de assédio e violência contra criança

Em ‘Leila’, Tino Freitas e Thais Beltrame descem ao fundo do mar para falar de um assunto difícil, mas que precisa ser tratado

Bia Reis

Como falar de assédio e violência com as crianças, sejam elas vítimas ou não?

No recém-lançado Leila, os autores Tino Freitas e Thais Beltrame descem ao fundo do mar e apresentam Leila, uma baleia independente, de cabelos compridos, que adora vestir seu biquíni e nadar por aí. Em um de seus passeios, Leila encontra seu vizinho, o Barão. Ele a cumprimenta, a chama de “Pequena”, a elogia. Pede um beijo de bom dia. E a beija no rosto. O narrador entrega: foi como se tivesse roubado algo de uma criança.
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Barão cerca a baleia, diz que vai nadar ao seu lado. Leila não gosta, queria ficar sozinha. Mas, com medo, se cala. O vizinho continua a rodeando. Com uma voz sedutora, descreve o narrador, Barão sussurra: “Olha, pequena, se você for gentil comigo, te darei biquínis ainda mais bonitos. O seu está meio torto. Vou ajustá-lo pra você”.
Leila quer dizer “não”, mas se cala de novo. E Barão mexe na alça de seu biquíni. A baleia fica arrasada. Seu peito dói, pesa. E sua dor a faz submergir. Leila pensa em pedir socorro, mas o vizinho é mais rápido e, de repente, corta seus longos cabelos. A baleia fica petrificada. Barão fala, então, que agora os dois têm um segredo. E Leila desiste de nadar.
Nesta primeira parte do livro, Tino e Thais usam palavras e imagens para narrar a história. Os dois, que assinam o projeto gráfico com a produtora editoral Lílian Teixeira, utilizam as páginas duplas como se fossem uma só, dando amplitude ao mar. Até aqui, o leitor precisa “ler” as imagens para compreender que Leila é uma baleia, porque o texto verbal não diz. O texto também não diz que Barão é um polvo – novamente as imagens são indispensáveis.
Thais parece se afastar e se aproximar da cena, como uma lente fotográfica, e aposta em ângulos inusitados. Ora Leila nada no imenso mar, ora surge dentro do olho do Barão, pequena e frágil, ora o vizinho aparece imenso, ora vemos apenas um de seus tentáculos. É pelas imagens que descobrimos, entre outras coisas, o tamanho de Barão.
Em seguida, Tino e Thais dão sequência à narrativa usando apenas imagens. E obrigam o leitor a virar o livro. É esse movimento – de colocar o livro na vertical – que dá profundidade ao mar, que faz o leitor “sentir” a queda e a tristeza profunda de Leila. Em uma sequência de três páginas duplas, o corpo da baleia despenca até a escuridão do fundo do mar, sozinha, desamparada, e, amparada por amigos, consegue, aos poucos, reagir. O preto e cinza dá, lentamente, lugar ao cinza claro e ao branco, até chegar a um claro azul.
Na terceira parte, o leitor tem de voltar o livro para a horizontal, e os autores voltam a usar também as palavras. Um dia, Leila reencontra o Barão, o que desperta sentimentos e pensamentos confusos. E o narrador revela: ela não sabe se sente raiva, medo ou coragem – ou tudo isso junto. Leila se lembra do abandono, dos amigos que a resgataram. E reage.
Os autores usam imagens e palavras e trabalham com o tamanho das fontes para explicitar o que Leila diz, o que Leila sente ao verbalizar, o tamanho de seu alívio. As palavras saem da boca da baleia, aos gritos, de maneira enfática.
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Tino me contou um pouco sobre as relações que palavra e imagem estabelecem entre si em Leila, vejam que interessante:
“Sobre a relação de texto e imagem, todo o tempo o antagonista chama Leila de ‘Pequena’ e é mostrado, aqui e ali, como é percebido por ela: enorme. Quando o plano revela o real tamanho dele (do Barão), fica clara a importância da voz. O livro fala disso. É preciso nos conhecermos, ouvir nossa própria voz. Outro jogo que está na ilustração, e que foi conversado exaustivamente por nós, é a história da ostra, que é uma metáfora para Leila, desde a capa. A ostra aparece primeiro fechada. Mas quando Leila diz ‘meu nome não é Pequena’, a disposição gráfica faz parecer que a ostra é quem diz isso. As histórias se encontram. Quando Leila se sente livre, a ostra se abre e revela uma pérola. Ao final, pérola e Leila estão juntas. A pérola se forma a partir do incômodo da ostra com algum corpo invasor. É uma proteção. Aquele ‘agressor’ não sai dali, mas não fará mais o mesmo mal que antes. imaginamos que com quem sofre abusos seja parecido. Nunca se perde a sensação da violência, mas se fica alerta, protegido, para que aquilo não se repita.” 
Os autores usam uma série de estratégias que faz de Leila um livro que dá vontade de ler, reler, fechar e depois abrir de novo. A cada leitura, novas descobertas. Na capa, as letras parecem nadar e a pequena ostra, citada por Tino acima, chama a atenção. Ao longo das páginas, ela própria conta uma história à parte, mas conectada à de Leila, repare. A história começa antes mesmo da página que traz o nome do livro e dos autores. Há também críticas espalhadas, de forma sutil. Em uma página, uma tartaruga carrega consigo uma sacolinha plástica; em outra, pode-se ler “não é não” grafitado em um farol num canto. Há crítica e posicionamento político, como Tino gosta e traz em vários de seus livros.
A vontade de falar sobre assédio, conta Tino, nasceu em 2014, quando ao visitar uma escola teve a sensação de que uma das crianças era vítima de violência. O escritor comunicou o fato à professora e passou a pensar em como tratar do assunto. No ano seguinte, encontrou a delicadeza: a vítima seria uma baleia e um tubarão, o agressor. O projeto original seria feito com a ilustradora Elvira Vigna, com quem Tino fez o lindíssimo Primeira Palavra (falei sobre ele em 2012, clique aqui para ler). Mas Elvira morreu antes de o projeto se concretizar.
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Tino me contou sobre esse momento. Achei lindo o processo de luto e de retomada, compartilho com vocês:
“Precisei de um longo tempo de silêncio. Quando retomei o texto, reescrevi buscando abrir espaços para que outra parceira pudesse criar e transformar Leila em nossa história. Foi aí que encontrei a Thais. Conversamos muito durante o processo, desde o início, com total aval da editora, que nos deu liberdade e tempo para criarmos. Um exemplo da nossa troca foi quando Thais sugeriu que o antagonista não fosse um tubarão e sim um polvo. Ela justificou dizendo das possibilidades de metamorfose que a aparência desse animal pode adquirir, dependendo da situação. Adorei. E sugeri, em seguida, que ele tivesse cinco tentáculos em vez de oito, explicando que ele (o tentáculo)também seria uma mão. Aparentemente Leila é um livro a quatro mãos. Mas, bem da verdade, sutil e inteligente, Lurdinha (Mendes, editora na Abacatte, que assina a edição com José de Alencar Mayrink) deu enorme contribuição ao projeto. Leila é um livro a seis mãos. Thais e eu passamos mais de um ano desenvolvendo o projeto. Foi importante ter esse tempo.”
A delicadeza com que Tino e Thais falam sobre abuso e dor, a forma como palavras e imagens se interrelacionam para construir a narrativa e o fato de exigir do leitor uma postura ativa, como quando propõe a virada do livro para o sentido vertical, se fazendo valer da materialidade do objeto, fazem de Leila uma obra única, dessas capazes de mexer com leitores de todas as idades. 
O escritor Tino Freitas já esteve outras vezes nesta Estante de Letrinhas, com, por exemplo, com o livro Bichano
Serviço
Leila
Autores: Tino Freitas e Thais Beltrame
Editora: Abacatte
Preço: R$ 44
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Estadão Conteúdo

UeceVest promove curso para formação de Corretores de Redação

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O Curso Pré-Vestibular da Uece (UeceVest) está com inscrições abertas para o Curso de Formação de Corretores de Redação, voltado para graduandos em Letras, professores e demais interessados.
Com 60 horas/aula, o curso será ministrado aos sábados, das 8h às 11h, no Campus Itaperi. As aulas serão iniciadas em 18 de agosto.
Para efetuar inscrição basta se dirigir à secretaria do curso, munido de cópia do RG, currículo, histórico da graduação, declaração de matrícula (para estudantes) e taxa do curso.
Mais informações: 3101-9658 ou pelo Whats App: 98726-2127
UECE

Unibes Cultural recebe exposição com releituras da literatura de cordel

A exposição “Arraial da Cidade Cordel 2x10” pode ser vista gratuitamente até 21 de julho

POR BEATRIZ LOURENÇO COM STÉPHANIE DURANTE

A exposição “Arraial da Cidade Cordel 2x10” está em cartaz na Unibes Cultural, em São Paulo, até o dia 21 de julho. A mostra reúne 10 artistas consagrados reinterpretando imagens de clássicos da literatura de cordel. A entrada é gratuita.
As obras, com curadoria de Antonio Farinaci e Maria Fernanda Monteiro de Barros, são divididas em cinco grupos de contos do estilo. Os fantásticos, que tratam do mundo sobrenatural; os sobre bichos, que se passam no tempo mítico em que animais falavam; os de estilo crônica, que relatam acontecimentos, efemérides ou fazem crítica de costumes; os que contam casos, histórias que carregam um tom entre a fofoca e a anedota, com ironia, humor e sarcasmo; e os cordéis de amor, dedicados à temática amorosa em geral.
Segundo Maria Fernanda, o resultado é inusitado e inspirador. "Pedi para que os artistas fizessem o trabalho em um suporte plano, sem restrição de tamanho ou material. Assim, temos obras em papel, tela e até latão", conta.
Os nomes que compõem o evento são Claudio Tózzi, Flora Rebollo, Camile Sproesser, Gokula Stoffel, Rodrigo Bueno, Eveline Sin, Carla Caffé, Bruno Dunley, Antonio Sobral e Pedro Caetano. "A literatura de cordel é muito importante para o Brasil. É impressionante ver como os artistas, a partir de um pequeno livrinho, imprimiram seus signos nas releituras", afirma a curadora.
Capa original do conto "O homem que subiu em aeroplano até a lua" (Foto: Divulgação)

Serviço – Exposição de Cordel:
Quando: Até 21/07. De terça a domingo, das 10h às 19h.
Onde: Unibes Cultural - Rua Oscar Freire, 2.500 - Sumaré - São Paulo - SP.
Entrada gratuita

"Conto contos pelo potencial empático das histórias", afirma cearense difusora da poética sertaneja


O movimentar das águas do açude tem fluxo democrático. Desemboca no pescador à espreita do peixe e na lavadeira que aproveita a corrente. De tanto margear essa harmonia silenciosa, a terra não fica atrás: também se une a seus aliados. É o agricultor que revolve o chão, e a rendeira – cujos pés, fixos no solo, sustentam o corpo-apoio para as mãos trabalharem. A próprio modo, cada um desses personagens cria uma ambiência narrativa forte e inspira gente disposta a levá-los adiante para conhecimento geral. É preciso ecoar a voz do sertão.
Tâmara Bezerra, assim, considera-se reunião de tantos e tantas. Daqueles povos simples, muitas vezes anônimos, porém detentores de sabedorias e histórias muitas. Natural do município de Orós, no Centro-Sul cearense, ela cresceu envolta por narrativas à boca pequena e considera que foram esses relatos os responsáveis por ressignificar a vivência pessoal.
“Me descobri forjada na tradição como criança, escutadora da infância, a partir da dinâmica das atividades laborais de grupo da cidade. A partir daí, no meu repertório, procuro privilegiar os contos que recolho ou os tradicionais, que outros colegas recolheram”, explica.
Independentemente do recorte, há uma urgência implícita: difundir a poética da paisagem sertaneja cearense, donde faz morada uma pluralidade de tipos narrativos e riqueza de relações. Missão encarada pela educadora, contadora e escutadora de histórias com vistas a tornar tudo mais abrangente e especial: único. Em encontro com o Verso, Tâmara detalhou esses processos e fez questão de mencionar: o sertão pode ser, sim, onipresente.
“A poética da literatura desse ambiente não está só nos contos, mas também no cotidiano. A linguagem e metáfora estão presentes em várias coisas e em tudo que dizemos, especialmente nas comunidades tradicionais. É onde atestamos a plurissignificatividade que essa arte tem. E quando se convive com as pessoas desses locais, acabamos entrando em paisagens poéticas. Afinal, é disso que o sertão é feito”, avalia.
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Cearense tem livros publicados sobre o narrar e integra grupos de contadores de histórias
Foto: Isanelle Nascimento
Não sem motivo, age feito Guimarães Rosa (1908-1967), com o cenário dentro de si, justificando o querer levá-lo para onde for e caminhando na mesma esteira em que trilham outros profissionais e eventos na seara. Só neste ano, por exemplo, um dos maiores clássicos da literatura brasileira, “Grande Sertão: Veredas”, voltou às prateleiras em nova edição pela Companhia das Letras. Também a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) terá como grande homenageado o escritor Euclides da Cunha (1866-1909), autor de “Os Sertões”. Sintomático? “É um tema que está tão forte em mim que não consigo só carregá-lo. Tenho que narrá-lo. É algo que transborda”. 
Passagens
Há 25 anos, a profissional – graduada em Serviço Social e especializada em Arte-Educação, além de mestranda em Educação Intercultural pela Universidade de Lisboa – traça o caminhar literário agregando mais pessoas ao ofício. A conversa com nossa equipe de reportagem, por exemplo, aconteceu durante oficina na Caixa Cultural voltada para educadores e contadores de histórias, em que reverberou conhecimentos e olhares.
A forte experiência no ramo deixa entrever uma fala clara: “A potência do narrar está na capacidade de atravessar tempos, geografias e, inclusive, o que não se conhece. Isso tem um elemento de interculturalidade muito necessário, sobretudo para o contexto da atualidade, de tanta intolerância, em que o outro, por não ser igual a mim, merece que eu seja avesso a ele”. Assim sendo, lembra de quando, em Portugal – País onde hoje também reside, intercalando trabalhos no Ceará – realizou vivência com crianças contando histórias de onça.
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Os instrumentos que acompanham a profissional traduzem a camada afetiva das histórias que reverbera: o candeeiro para iluminar, flores e diversas costuras
Foto: Isanelle Nascimento
“Esse animal não existe por lá. E quando eu conto contos sobre ele, os meninos amam. Depois, oriento para que possam ir no YouTube e olhem o que é uma onça. Um dia, vinha atravessando a estação de metrô, quando uma criança gritou, naquele sotaque português, ‘eu vi a onça! Eu vi a onça!’. Aquilo foi uma reunião de tudo isso que estou te dizendo”, sintetiza.
“A literatura tem um mundo dentro dela que faz com que a gente veja que o universo é vasto, mas podemos atravessá-lo por conta das narrativas, dessa camada afetiva que os contos têm”.
Por isso mesmo, defende que, em território cearense, as políticas públicasvoltadas para o narrar precisam oferecer, convidar e ampliar espaços, principalmente para o narrador oral. “Temos uma rede de contadores de histórias no Ceará que recentemente começou a ser tecida. Acho isso fundamental, não só por uma questão da categoria laboral, mas por algo mesmo do trabalho de partilha de todas essas pessoas, de construção coletiva. Há que se pensar em tudo isso, principalmente no cenário em que estamos”.
Projetos
Até o momento, Tâmara tem publicado três livros de ficção e alguns teóricos, dentre eles “Costurando histórias”, inspirado no Grupo de Estudos, Pesquisas e Partilhas com narrativas orais intitulado Costureiras de Histórias. “O nome é em homenagem às tessituras todas da arte de narrar. As costureiras, quando se juntam, contam contos, contam da vida, e narram”, sintetiza. 
Também está em ritmo de finalização do documentário “Sete Histórias à Sombra do Cajueiro”, filme de caráter etnográfico em que partilha a direção com o cineasta Marcelo Paes de Carvalho e será lançado em breve. O trabalho é resultado de imersão de dois anos, junto a estudantes da Universidade Federal do Ceará, na comunidade quilombola de Ubaranas, próximo a Aracati. 
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Em oficina na Caixa Cultural Fortaleza, Tâmara repassou conhecimentos e vivências a outros narradores e narradoras de contos, sedimentando forte diálogo com a arte
Foto: Isanelle Nascimento
“A escuta desse povo gerou um livro, ‘Relicário de Ubaranas’. Durante a trajetória, resolvemos fazer o filme. A obra em audiovisual é sobre a recolha dos contos nessa comunidade, a escuta dos moradores e todas as camadas de matriz africana e contribuição indígena. É bem brasileiro, bem cearense. Bem Ubaranas”, garante.
Além desses projetos, recentemente esteve na Galícia (Espanha), integrando o corpo de participantes do Festival Sete Falares. O evento é um dos mais tradicionais do mundo, voltado para adultos. “Um lugar bem bonito, onde a ambiência dos contos é super interessante”, ressalta, rememorando o local em que dividiu a fala com nomes como Carolina Rueda (Colômbia), Ángela Arboleda (Equador) e Cándido Pazó (Galícia). Itinerância em ritmo de inspiração, força e criticidade. 
Visivelmente emocionada ao trazer à superfície tais passos, encaminha a conversa para o fim afirmando:
“Como artista, narradora, educadora, mulher, mãe, o amor de alguém e amiga de muitas pessoas, estou de luto, desde o início desse processo obscuro que o Brasil vem atravessando. Mas acho que é isso: uma travessia. Tem um conto tradicional em que o personagem todo o tempo diz, ‘Nós travessa, nós travessa’. Vamos passar”, reflete.
“Busco contar contos exatamente porque acredito no potencial empático das histórias. Será minha bandeira e, se precisar, minha arma. Então, sim, de qualquer forma, acho que a gente atravessa. E será pela arte. Por isso que ela é a primeira a ser massacrada. É pela arte. Se o narrador, o artista tem sua voz, precisa gritar, de alguma forma. Se não, nós ‘não travessa’”.
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Olhos e ouvidos atentos em Tâmara Bezerra durante partilha de conhecimentos
Foto: Isanelle Nascimento
>> Saberes plurais: quem inspira a força do narrar de Tâmara
Entre as principais influências de Tâmara Bezerra estão estudiosos e fomentadores da arte do narrar, como Geraldo Tartaruga, Regina Machado, Benita Prieto, Rosana Mont'alverne, entre outros nomes nacionais. No Ceará, dona Iracema e Birol - respectivamente uma lavadeira e um pescador de Orós - e Almir Mota são alguns de seus principais incentivadores. "Gosto sempre de contar, principalmente, a experiência com o Almir, um amigo muito querido, que foi quem me batizou nesse lugar da narração, de dizer 'suba que o palco lhe pertence'. Foi a voz dele que me disse isso", afirma a artista.

Diário do Nordeste