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Exposição em São Paulo reúne 160 artistas em busca de novos sentidos para o Nordeste

Enviado a São Paulo
Obra de Catarina dee Jah com panos de prato trazendo mensagens feministas
Obra de Catarina dee Jah com panos de prato trazendo mensagens feministas (Foto: Divulgação)
"Você conhece o Nordeste? Palmilhou seu chão sagrado?", questiona Teti no seu disco de 1974. Para Fagner, em música gravada 20 anos depois, o Nordeste é "terra poeirenta. Dias e dias, meses e meses sem chover. E o pobre lavrador com a ferramenta rude bate forte no solo duro". Esse retrato, tantas vezes repetido nos livros, quadros e filmes é um dos mais cristalizados em quem houve falar deste lado do mundo. Já Belchior questiona e, em Conheço o Meu lugar, ele afirma que o "Nordeste é uma ficção. O Nordeste nunca houve".
Vasculhando mais o cancioneiro, virão muitas outras referências ao Nordeste. "Mas a nordeste de que?", foi o que questionou o artista cearense Yuri Firmeza. Essa provocação gerou uma série de pequenas ondas de pensamento sobre que "nordestes" podem caber no mundo e o resultado está na exposição À Nordeste, em cartaz até 25 de agosto em São Paulo. São 275 trabalhos de 160 artistas (20 deles cearenses) que traduziram em pintura, vídeo, performance, escultura, fotografia e outros suportes o que é estar a nordeste. A propósito: essa crase do título da mostra é bem acentuado para ficar claro que o assunto vai muito além de uma posição geográfica.
"A gente tentou fugir ao máximo de um Nordeste caricato, muito sedimentado no imaginário brasileiro. Nas nossas viagens, a gente se deparou com um Nordeste extremante propositivo, artistas trabalhando em colaboração e tentando de desvincular da dependência governamental, espaços culturais ricos, como a Fundação Casa Grande (Nova Olinda) e o Acervo da Lage (Salvador)", alerta Bitu Cassundé, que divide a curadoria da mostra com Clarissa Diniz e Marcelo Campos. "A exposição se interessa mais em fazer uma abrangência dessa potência do que com a terra seca. Claro que isso existe, mas existe também uma potência", confirma.
E são muitos nordestes que cabem em À Nordeste, inclusive aqueles que se espalham pelo resto do Brasil. É o caso do desfile da Beija-Flor de Nilópolis, de 1989, cujo enredo Ratos e urubus, Larguem minha fantasia causou choque em quem estava no sambódromo carioca. Imagens do carnavalesco Joãosinho Trinta na avenida e, depois, deitado, vencido pelo cansaço, fazem parte das obras que estão expostas num corredor em formato de espiral. Mas esse corredor é cheio de entradas que fazem os espaços conversarem, se cruzarem, se misturarem. As obras estão divididas em oito núcleos: Futuro, Insurgência, (De)colonialidade, Trabalho, Natureza, Cidade, Desejo e Linguagem. "A ideia que foi muito acertada na expografia é que esses núcleos se interagissem de uma forma muito orgânica", aponta Bitu.
Caminhando por essas obras, é possível se deparar com os bonecos do Mestre Vitalino, um tesouro da tradição pernambucana, assim como o Marco Zero, de onde Alcione Alves narra uma coreografia feita exclusivamente para a mostra. Com direito a "teile, zaga, passinho da moto e tapinha na virilha", o vídeo de Alcione está ao lado das obras do Saquinho de Lixo, coletivo que compartilha memes para mais de 335 mil seguidores no Instagram. Em outro espaço de À Nordeste, a obra Jangada Rolando para o Mar (1941), de Raimundo Cela, olha para as fotografias de Chico Albuquerque, feitas 11 anos depois, criando um diálogo temporal e de sentido sobre os trabalhadores do mar.
E por que não falar em Romero Britto? O artista plástico pernambucano que faz fama entre astros de Hollywood, mas enfrenta resistência da crítica especializada, está representado nos muitos produtos que ajudou a dar cor - capa de celular, xícara, guarda-chuva, bule... - e numa video mapping que parece querer brincar com sua própria estética. Num espaço com acesso proibido para menores de idade, a violência sexual, o machismo e a homofobia são confrontados em obras impactantes como os vídeos Cuceta (de Tertuliana Lustosa e Sara Elton Panamby), Teta Lírica (Marie Carangi) e Mimoso (Juliana Notari). Na entrada desta área reservada, uma reprodução da capa do LP Todos Os Olhos, de Tom Zé, dá as boas vindas.
O processo de criação de À Nordeste começou há cerca de três anos, quando os curadores reuniram pesquisas que convergiam para o Nordeste. Daí eles realizaram uma série de viagens para a região a partir de junho do ano passado. "Foi um processo muito rico porque foi um momento em que a gente atravessou o Nordeste quando ele estava em transformação por conta das eleições. Ver o Nordeste quando o Brasil estava se transformando", comenta Bitu Cassundé que viu a curadoria tomar forma a partir desses percursos. "As questões foram se evidenciando a partir das viagens. Tínhamos alguns eixos, mas eles foram ganhando força nas viagens".
Mas por que falar de Nordeste a partir de São Paulo? "É o lugar no Brasil, nesse momento, que pode pagar essa estrutura. A gente atravessa um período em que não tem financiamento para a cultura e onde a gente conseguiu viabilizar isso foi em São Paulo. E é interessante por que São Paulo é um lugar que recebeu um fluxo muito grande de nordestinos. É interessante pensar o Nordeste a partir de São Paulo, e pensar São Paulo a partir do Nordeste. Mas a coisa se dá, basicamente, por conta de financiamento", afirma Cassundé de pronto, antes de acrescentar que o desafio agora é itinerar com essas obras. "Estamos atrás de parcerias para que a exposição consiga ir até o Nordeste. Não é um projeto barato, mas podemos pensar recortes da exposição. É um desejo da curadoria".
E voltando à pergunta feita por Teti em seu Chão Sagrado? Você conhece o Nordeste? De que forma À Nordeste quebra uma lógica preconceituosa, muitas vezes violenta, contra nordestinos? "Eu acho que as pessoas conhecem pouco o Nordeste, principalmente essas pessoas que tentam estruturar uma ideia a partir de uma abstração. A exposição possibilita ao público leigo ter acesso a uma produção importante e dados históricos que nos constituem. A exposição se posiciona diante do racismo, do preconceito, do preconceito em torno da sexualidade, se afasta totalmente desse binarismo. Foi uma exposição que teve toda a liberdade de pensamento", responde o curador.
O jornalista viajou a convite do Sesc

Exposição À Nordeste

Onde: Sesc 24 de maio (rua 24 de Maio, 109, República - São Paulo)
Quando: em cartaz até 25 de agosto
Entrada gratuita
MARCOS SAMPAIO

O Povo

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