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Machado de Assis, 180 anos: Seu pessimismo era fruto de uma reflexão correta sobre o atual

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O escritor Milton Hatoum analisa a obra e o papel de Machado de Assis nos 180 anos de seu nascimento


Milton Hatoum, O Estado de S. Paulo

O tempo é cruel também com a literatura. Muitos livros são esquecidos quando ainda estão engatinhando; alguns, incompreendidos ou mal lidos quando publicados, ressuscitam uns anos ou décadas depois. Outros, os clássicos, serão lidos por séculos.
Das várias definições de “clássico”, escolho a de Jorge Luis Borges: “Clássico não é um livro que necessariamente possui estes ou aqueles méritos; é um livro que as gerações humanas, premidas por razões diversas, leem com prévio fervor e misteriosa lealdade”.
A obra ficcional de Machado de Assis – principalmente os romances e contos publicados a partir de 1880 – é lida “com prévio fervor e misteriosa lealdade”. O prazer da leitura está implícito na definição do escritor argentino; de fato, dificilmente não se lê com enorme prazer Memórias Póstumas de Brás CubasDom CasmurroEsaú e Jacó... Ou os contos Pai Contra MãeA Causa SecretaO EspelhoO AlienistaUm Homem CélebreSingular Ocorrência e tantas outras obras-primas do Bruxo do Cosme Velho. Mas as ficções de qualidade não se esgotam no mero prazer da leitura. O leitor atento percebe que Machado não se rendeu à facilidade nem à improvisação. Foi, ao contrário, um dos escritores mais exigentes, e ainda dos mais cultos. A erudição, a imaginação, a capacidade inventiva, a leitura crítica do país e de seu tempo e, claro, sua própria experiência de vida foram decisivas em sua escrita de ficções sofisticadas sob todos os ângulos: estético, social, político, psicológico, histórico.
Quando seguimos a sinuosa trajetória de vida de Brás Cubas, como não pensar no Brasil de hoje? Brás, o ocioso ricaço “liberal” na sociedade escravagista do Segundo Reinado, não difere muito de certos liberais da “nova política” e da maioria dos partidos, sejam estes velhos, novos ou mesmo novíssimos. O narrador das Memórias parece estar vivo, usando a roupagem do nosso tempo, ou “a casca”, como ele diz. E vivos estão também o mandonismo, os privilégios e o clientelismo de uma sociedade patriarcal que insiste no atraso e é fiel à brutalidade e às iniquidades herdadas da escravidão, tanto tempo depois da Abolição e do advento da República.
Machado, ao dar forma estética a tudo isso, recorreu a narradores na primeira pessoa, geralmente situados no vértice do poder e da pirâmide social, quase todos dotados de um tom que alterna ironia, atrevimento e escárnio. Lidos na direção certa, os romances machadianos desmascaram o rosto monstruoso das relações sociais, políticas e econômicas e, nesse sentido, expressam a verdade das relações humanas, atributo indispensável à literatura.
Mas a obra do Bruxo também transcende questões e particularidades locais. A alucinação, o delírio e a loucura nem sempre se vinculam à classe social dos personagens: são sintomas do lado mais obscuro, irracional e bestial do ser humano. Um dos exemplos mais notáveis é a crueldade sádica ou “alguma coisa parecida com a pura sensação estética” do personagem Fortunato no conto A Causa Secreta.
E há ainda um olhar zombeteiro ao positivismo, ao determinismo e à ideia ufanista, quase fanática do progresso, palavra estampada na bandeira nacional.
Acima de tudo e de todos no Brasil de sua época, Machado era um pessimista. Também por isso foi muito criticado por vários de seus contemporâneos. Mas o pessimismo do escritor era fruto de uma leitura e reflexão correta e sem ilusões da realidade e do processo histórico, não apenas brasileiro.
Se o Ministério da Educação fosse bem menos obtuso, distribuiria aos estudantes e professores da escola pública um livro com uma seleção de contos de Machado. Mas seria pedir o impossível a quem acredita que o nosso planeta é plano, que o aquecimento global é uma ficção e que é um desperdício investir em ciências humanas e artes. Machado trataria com escárnio essa bestialidade em série. E nem assim os obtusos entenderiam...
Cultura/Estadão

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