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Como a imprensa retratou (e distorceu) a Guerra de Canudos

'No Calor da Hora', livro de Walnice Nogueira Galvão, analisa as notícias em jornais sobre o massacre da comunidade de Antônio Conselheiro

Diogo Guedes
A pesquisadora Walnice Nogueira Galvão / Divulgação
A pesquisadora Walnice Nogueira Galvão
Divulgação
Após o fim da Guerra de Canudos, a intelectualidade brasileira começou a entrar, aos poucos, em uma espécie de ressaca moral. O massacre, antes visto como um conflito justo contra extremistas religiosos que participavam de uma conspiração monarquista, finalmente começava a passar a ser analisado com um mínimo de olhar crítico, por exemplo, à virulência que chegou a degolar prisioneiros e exterminar quase todos que moravam no arraial criado por Antônio Conselheiro. Como já definiu a pesquisadora Walnice Nogueira Galvão, uma das principais especialistas em Os Sertões, marco da literatura nacional, a obra de Euclides da Cunha é poderosa não por sua linguagem ou pelo retrato de uma região com os problemas e limites da época em que foi feita: ela é forte porque traz em si a carga de autoexame de uma nação, como um mea culpa coletivo.
Se expurgar a própria injustiça era necessário, o relançamento do livro No Calor da Hora – A Guerra de Canudos nos Jornais (4ª Expedição) (550 páginas, R$ 80), de Walnice, agora em edição pela Cepe, mostra bem como as distorções, falsidades e enganos sobre Canudos foram construídos na imprensa brasileira. O volume vai ser lançado oficialmente na Festa Literária Internacional de Parati (Flip) no dia 12 de julho, na casa Paratodxs, em mesa com a cientista política Heloísa Starling, que assina a orelha da obra.
No Calor da Hora nasceu em 1972, quando se celebravam os 70 anos da publicação de Os Sertões, como uma tese de doutorado. Na pesquisa, Walnice mergulhou no que os jornais da época do conflito escreviam sobre Canudos, em notícias, reportagens, editoriais, versos e até mesmo propagandas. O resultado é um compêndio de como o assunto foi manipulado – através de notícias falsas, conspirações, reprodução direta do discurso oficial e até censura.

A obra é reveladora. É claro que o grande mal da guerra havia sido o massacre despropositado, mas Walnice adentra outra camada: a de como o desejo e a justificativa para a guerra foi sendo forjada no imaginário nacional, com a transformação de uma comunidade em um inimigo absoluto, contra quem era preciso usar os métodos mais cruéis. Assim, Canudos se torna, por exemplo, uma manobra diversionista dos revoltados do Rio Grande do Sul para abrirem outro fronte contra a recém-instalada república.


Entre alguns trechos inacreditáveis, como propagandas de sapatos usados pelos soldados, é possível ver o preconceito com os sertanejos nordestinos. Um texto elogia a inesperada inteligência de um deles, outro imita na escrita de forma caricata a fala popular (em um artigo falsamente atribuído a Conselheiro). Walnice também dedica um capítulo aos relatos mais ponderados, que ao menos duvidam de conspirações mirabolantes ou protestam contra degolas sumárias.
Rui Barbosa, por exemplo, atacava Canudos e negava a ligação do movimento com o monarquismo. “Canudos é apenas um acidente monstruoso das aluviões morais do sertão, truculência das lutas primitivas, a rudeza dos instintos agrestes, a crendice da discultura analfabeta, o banditismo predatório do crime (...)”, escreveu.

Contexto da ditadura e a atualidade

Quando lançou o livro na década de 1970, Walnice de certa forma aproveitou o contexto da Guerra de Canudos para fazer uma crítica à imprensa da sua época, durante a Ditadura Militar. Falar de censura, distorções e conspirações inventadas – também métodos usados pelo regime ditatorial de então – era também denunciar como o discurso oficial e a imprensa continuavam a forjar inimigos e, com isso, justificavam, por exemplo, torturas, execuções e prisões arbitrárias.
“Nos anos 1970, a distorção deliberada dos eventos e a cortina de fumaça montada pela mídia cúmplice seriam fartamente esclarecidas, como é sabido, quando a democracia se restabelecesse, as investigações começassem e os arquivos secretos fossem abertos. Dá o que pensar: se tudo isso estaria enterrado no cemitério da História ou, ao que parece, continuaria fermentando subterraneamente para mais tarde entrar em erupção”, escreve ela no prefácio de No Calor da Hora. A reedição do livro agora também ressalta a atualidade desse debate, nesses tempos de fake news e de rápida criação de inimigos públicos para turvar a leitura crítica da nossa sociedade.

Fonte: Jornal do Commercio

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