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Dia do Cinema Brasileiro: Em meio a um cenário que indica incertezas no setor, potência artística dos realizadores nacionais é apontada como motivo de celebração da data

Era 1898. Um ítalo-brasileiro chamado Afonso Segreto fez algumas imagens da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Considerado o primeiro cinegrafista e diretor brasileiro, ele estava a bordo do navio francês Brésil. Não há muita exatidão sobre o assunto, mas, para boa parte dos amantes de cinema nacional, o ato de Afonso naquele 19 de junho marca a primeira filmagem em território nacional e delimita o Dia do Cinema Brasileiro. De lá para cá, entretanto, muito mudou a forma como o audiovisual é feito por aqui. E, hoje, o Vida&Arte discute: há realmente motivos para comemorar a data em 2019?
A professora de cinema Bete Jaguaribe explica que, levando em consideração "a potência artística da produção contemporânea no Brasil", realmente há um ambiente de muito festejo e celebração. Produções nacionais estão arrebatando prêmios e menções honrosas, sendo exibidas em festivais internacionais, conquistando espaços antes não imaginados por nossos cineastas. "Mas o cinema não está fora do ambiente nacional, do ponto de vista maior a gente não tem o que comemorar - pois vivemos no País um contexto de precarização de tudo", explica Bete, que também é diretora do Porto Iracema das Artes.
Michelline Helena aponta que o mundo inteiro tem valorizado o cinema feito em território brasileiro - e especialmente as produções encabeçadas pelos realizadores nordestinos. "A responsabilidade com que vem se tratando os temas, retratando a vida e os conflitos não engessa, de modo algum, as narrativas nem empobrece a estética", explica a cineasta. E isso, ela complementa, pode ser percebido no reconhecimento nas premiações - pois cada vez mais filmes brasileiros ganham destaque em conceituados festivais. "Esse cinema tem várias caras, abrange gêneros e estilos diversos", argumenta a cearense.
A Agência Nacional do Cinema (Ancine), grande responsável pela viabilização de recursos para produções audiovisuais nas duas últimas décadas, passa por uma fase turbulenta. Respondendo acórdão do Tribunal de Contas da União, o TCU, a agência viu suas atividades serem paralisadas no último mês. Michelline explica que todas as produções que estavam previstas para o primeiro semestre foram adiadas. "Ficaram sem data prevista, muitos profissionais ficaram completamente parados e a incerteza fez muita gente buscar empregos provisórios em outros setores. Agora, a gente começa a rever as agendas e tentar remarcar algumas produções, mas isso bagunçou geral. Não foi muito diferente em outros estados, mas podemos dizer que há uma mobilização do setor para uma reorganização e entendimento de como as coisas vão continuar. Porque elas precisam continuar", argumenta.
Bete Jaguaribe reforça que uma das frentes mais importantes da realização de cinema, a formação, continua recebendo investimentos no Estado. "Há um investimento grande em formação no campo das artes", diz. Mas, argumenta Bete, o cenário geral do País é de paralisia. "Política pública na área de cinema tem que ser articulada entre estado, município e governo federal. Como essa articulação está estagnada, há uma paralisia completa", pontua.
"O que acontece quando o fomento deixa de existir é que é a população marginalizada quem perde esse espaço de disputa de narrativa sobre si. Não por cessar a produção, porque resistir é uma questão de sobrevivência e sempre se fez do jeito possível, mas se deixa de disputar um nicho do mercado que chega a mais pessoas, como as salas de cinema, a televisão e outras plataformas. Se falávamos em conquistas nas áreas de produção e distribuição, muito se faltava ainda por disputar além destas áreas na área da exibição. E aí, além de tudo, existe uma exigência estética que infelizmente depende de estruturas de produção que são caras, e isso deixa quem não tem privilégios e acesso a essa estrutura de fora", explica Lívia de Paiva, realizadora goiana radicada no Ceará.
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o povo


ISABEL COSTA

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