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Exposição retrata cenas da caatinga

Artista cearense Roberto Galvão revisita obras do trabalho de uma década dedicado à caatinga. Agora em versão "pedagógica", exposição Mato Branco está em cartaz no MAUC, da UFC

obra
obra (Foto: Roberto galvão)
Na costura de Roberto Galvão, 69, desde os 14 nas artes, o simples é grandioso, o imperceptível, a aura de um tempo - para ele - amigo. Sem pressa de devorar os dez anos que passou admirando a paisagem nas muitas idas e vindas a Sobral, Galvão gravou memória, um retrato do cotidiano que continua a dividir dentro de uma leitura de mundo. Viu encantamento na caatinga, que, mais tarde, deu vida a Mato Branco, série de pinturas, aquarelas, desenhos, gravuras e esculturas sobre o tema. A exposição, já apresentada em outras edições e até na Espanha, chega pela primeira vez ao Museu de Arte da UFC (Mauc), no Benfica, onde segue, até 26 de julho, com visitação aberta ao público.
Foi de lá, a convite do Vida&Arte, que o autor de Cipó Colorido (2019), uma das telas de boas-vindas, nos aguardava, sentado ao lado da esposa, Lúcia, para um passeio pela mostra. Para surpresa de uma iniciante em sua arte, foi mais do que um artista que enaltece seu trabalho. Entre uma pintura e outra, Roberto Galvão se fez professor, amigo e viajante do tempo, vivido, compartilhado e interpretado por ele nas obras - apenas uma parte delas. A exposição completa conta com centenas, mas ganhou este recorte, em uma configuração, segundo o curador, pedagógica, alinhando-se com o espírito da casa, que agora abriga sua visão.
Em poucas passadas pelo espaço do Mauc, já é possível notar: os anos olhando a paisagem semiárida, ao invés de secarem ou passarem despercebidos, se encheram de alma, regada de cor, como também de drama e beleza, em uma interferência só. Ao lado de Lúcia, que borda um dos estudos com a assinatura do artista no papel, construiu "retratos" incansáveis, multiplicáveis, cada um para um tipo de matéria-prima e técnica. "Não é o que estou vendo da seca. É a inspiração para fazer um trabalho expressivo por ele mesmo", explica Galvão. E é. Faz da caatinga mil e uma, como se fosse o céu, na terra, sem limite para criação.
Da mesma licença que o permite reproduzir os traços do bordado da mulher em um desenho com bico de pena, busca novas ferramentas de trabalho, na exposição apresentadas em duas grandes mesas com tampo de vidro. "Para fazer a gravura em metal, uso instrumento de dentista", revela o artista. Na seleção de impressos, lápis de cor, pigmentos. Na parte do "mãos à obra", ele também insere as três técnicas em gravura utilizadas: litogravura, que é a gravura em pedra, linóleo e madeira.
As cerâmicas de Zé Guedes surgem logo na sequência. Recebem a pintura de Galvão, que as batizou de Mato branco I e Mato branco II. Os itens, postos lado a lado, convidam a mais alguns passos, ao espaço seguinte. "Tudo é aproveitamento, isso daqui é de construção", esclarece sobre a escultura em ferro redondo, tronco e cipós, de 2017. Adiante, na parede, a coleção de gravuras. Uma delas chama atenção. "Talvez por ter ensinado cenografia de exposição por muito tempo, tenho uma preocupação de montagem, então, como vem tudo preto, tudo branco, 'pá', o vermelho. Aí é questão de quebrar o olhar", conceitua.
O cunho pedagógico também vai ao encontro do lúdico, em uma cena que desafia o olhar. As monotipias formam um grande recorte na parede, completadas por uma paisagem mais ampla do emaranhado de espinhos, com o Quinze, exatamente 15 gravuras que se unem, uma ao lado da outra. Uma espécie de extensão da visão do artista para quem se lançar frente a ela. "Isso foi feito em 2015 e é inspirado na caatinga, no mato branco que eu via toda semana, indo e voltando para Sobral", diz, desmistificando qualquer ligação com O Quinze (1930), de Rachel Queiroz. O contraste no P&B também é proposital, dentro da curadoria para o Mauc, para tornar a mensagem mais clara e didática.
Na continuidade de um mesmo sertão, nos deparamos com uma profusão de cores em maxi telas de sua autoria. "Essa é uma das primeiras pinturas, ainda de 2009. Não sei se dá para você perceber, mas tem uma coroa de espinhos...", sinaliza, para justificar a simbologia. Para ele, "nossa vegetação de espinhos". Da beleza para o drama e, vice-versa, um caminho, para nossa segunda surpresa, de zero desperdício, mais imaginação e vontades. "Uma coisa bem curiosa, que ninguém sabe, a não ser quem frequenta meu ateliê, é que o fundo era vermelho, aí apago porque achei que, se fosse cinza, ficaria melhor. É uma relação, é como que tecendo o trabalho", conta.
As múltiplas possibilidades dos materiais diferentes nos levam, por fim, a uma seleção de xilos, guache, nanquim, aquarela e giz de cera, que termina com o Meio dia, de 2017, usando técnica mista sem papel. É a abertura ao novo, sob a perspectiva de Galvão, durante o trajeto de Mato Branco. Para o desenhista, pintor, escultor, gravador, crítico de arte, curador e pesquisador, a função da arte é esta: desvelar. "Aqui eu estou exercitando ser artista, desvelar visões que eu tenho que materializar, expor, para que elas possam existir, ter uma razão de ser e, contribuir. Para mim, a razão da vida é fazer arte", convida a ver e sentir.
Clique na imagem para abrir a galeria

Mato Branco por Roberto Galvão

Onde: Museu de Arte da UFC (Mauc). Avenida da Universidade, 2854 - Benfica
Quando: Até o dia 26 de julho
Horário de visitação: De segunda à sexta-feira, das 8 às 12 horas e das 13 às 17 horas.
Aberto ao público
JULLY LOURENÇO
o povo

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