Karl Ove Knausgard detalha a batalha para ser escritor no quinto volume da série "Minha Luta"

Karl Ove Knausgard detalha a batalha para ser escritor no quinto volume da série "Minha Luta" Walter Craveiro/Flip,Divulgação
O escritor Karl Ove Knausgård lê durante sua participação na Festa Literária de Paraty do ano passadoFoto: Walter Craveiro / Flip,Divulgação
Uma das mais ousadas experiências narrativas recentes, a série Minha Luta, do escritor Karl Ove Knausgård, é uma verdadeira epopeia da banalidade, um romance que parte da matéria biográfica do próprio escritor e espalha sua narrativa por 3,5 mil páginas em que nada de muito maior acontece a não ser as fraquezas e incertezas de um homem comum e brutalmente honesto no striptease de seus defeitos. São características que continuam à toda em A Descoberta da Escrita (Tradução de Guilherme da Silva Braga. Companhia. das Letras, 624 páginas, R$ 69,90 impresso e R$ 39, 90 em e-book), quinto volume da série – de um total de seis, todos já publicados no Exterior – que está sendo editado este mês no Brasil.
A série começou a ser publicada na Noruega em 2009, quando Knausgård recém havia passado dos 40 anos e já tinha publicado um par de romances de boa recepção crítica, mas parco sucesso de vendas. O primeiro volume, A Morte do Pai, transformou o autor em best-seller internacional, em uma espécie de astro do rock literário do tipo que coleciona elogios superlativos: a série foi chamada pelo Guardian de "a empreitada literária mais significativa de nosso tempo", e pelo New York Times de "a primeira produção literária monumental do século 21". A escritora Zadie Smith se disse viciada como se fosse em crack.

Os livros também colecionaram sua cota de polêmicas. Algumas domésticas – parte da família o processou devido ao retrato agreste do próprio pai. Outras, de maior magnitude – o fato de a série chamar-se Minha Luta não demorou a ser associado ao infame livro de mesmo nome de Adolf Hitler.
– Quando chamei o conjunto de Minha Luta, o que queria marcar era o significado literal: a minha luta cotidiana como ser humano – disse ele durante sua passagem pela Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) no ano passado.
Uma das características mais marcantes da série como um todo é sua capacidade de, a partir de uma cena ou situação, pular para o passado ou o presente à medida que Knausgård autopsia suas fraquezas. Esse vagar incerto explica por que a série não se desenrola de modo linear, e sim retrata com maestria saltos cronológicos ao sabor da memória. No primeiro livro, Karl Ove vai da infância a um momento na idade adulta em que precisou lidar com a morte de seu pai. No segundo, já um escritor publicado esforçando-se por construir sua obra, ele conhece a mulher que viria a ser sua segunda esposa. No terceiro, retorna à infância, dando novo significado a passagens vistas no primeiro volume.
A Descoberta da Escrita, nesse sentido, forma, com o anterior Uma Temporada no Escuro, uma das sequências mais coerentes do conjunto. No quarto livro, um Knausgård de 19 anos passa quase 12 meses numa pequena cidade no norte da Noruega como professor de Ensino Médio, esforçando-se por escrever e por resolver suas inseguranças sexuais (virgem, ele sequer se masturbou na vida e oscila entre esconder a atração proibida por alunas adolescentes e fiascos com as mulheres viáveis que cruzam seu caminho). Apesar de ser em parte um longo flashback, o livro termina no ponto exato em que o quinto volume se inicia.
A Descoberta da Escrita retoma não apenas a mesma fase da vida do autor como também os mesmos desafios que ainda se apresentam à sua frente: evoluir na escrita e se realizar sexualmente. Matriculado em uma espécie de oficina de criação literária na cidade de Bergen, ele se apaixona, bebe demais, dá vexame, sente-se inferiorizado pelo talento dos colegas.
É uma novela de formação na qual Knausgård expõe, com honestidade, que uma vida como escritor também é algo que, por maiores que sejam as aspirações, não se consegue sem luta.
HISTÓRIAS DE VIDA
Os livros da série Minha Luta

Foto: Companhia das Letras / Divulgação
A MORTE DO PAI - VOL. 1
Karl Ove narra a relação com seu pai em dois momentos: na infância, à sombra da figura autoritária; e na idade adulta, lidando com a decadência do pai.

Foto: Companhia das Letras / Divulgação
UM OUTRO AMOR - VOL. 2
A série avança para enfocar a desagregação do primeiro casamento de Karl Ove, a relação com sua segunda esposa e como constituíram sua família.

Foto: Companhia das Letras / Divulgação
A ILHA DA INFÂNCIA - VOL.3
A narrativa volta à infância de Karl Ove, aprofundando sua relação com a figura onipresente do pai, professor dedicado na rua e um tirano doméstico no lar.

Foto: Companhia das Letras / Divulgação
UMA TEMPORADA NO ESCURO - VOL.4
Um jovem e inseguro Karl Ove passa um ano como professor em uma cidade próxima ao Círculo Polar Ártico, afetado pela escuridão do lugar.

Foto: Companhia das Letras / Divulgação
A DESCOBERTA DA ESCRITA - VOL.5
Karl Ove se muda para a cidade de Bergen, matricula-se numa prestigiada oficina de formação literária, cursa letras e continua a luta para ser um escritor.

Zero Hora

Comentários

Mais Visitadas

Por que há tão poucas chefs mulheres?

Convém pensar

Fernando Pessoa, instigador da vanguarda portuguesa

Com muito carnaval, Olinda comemora o Dia do Frevo nesta sexta-feira

Documentário sobre papa Francisco chega a cinemas dos EUA em maio