Memória da II Guerra no Ceará

por Iracema Sales - Repórter
Restos de construções no bairro do Pici, construído como bunker dos militares americanos na época da Segunda Guerra ( Foto: Thiago Gaspar (04/01/2010) )
O livro "Salto sobre o lago", do arquiteto Henrique de Almeida Braga - cujo lançamento acontece hoje (17), no Ideal Clube - tem o mérito de tentar recuperar um dos capítulos da história recente de Fortaleza, passado no período da II Guerra Mundial (1939-1945). Resultado de 12 anos de pesquisa, ao longo das mais de 400 páginas, enriquecida com fotografias, o autor retrata aspectos de infraestrutura física da então pacata cidade, bem como alterações nos costumes do fortalezense, em decorrência da decisão tomada pelo governo brasileiro de apoiar os EUA no conflito.
As ações só começariam a ser implementadas - as bases aéreas no bairro Pici e o aeroporto do Cocorote, que depois abrigaria o terminal de passageiros Pinto Martins - em 1941, conforme explica Henrique Braga, após o governo brasileiro desistir de apoiar a Alemanha.
No Ceará, cabia ao interventor Francisco Menezes Pimentel (1887-1973) obedecer às ordens do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954).
A pesquisa foi desenvolvida na Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel, em especial no setor da hemeroteca. O autor conseguiu ler os jornais da época, fato que ajudou na investigação acerca do dia a dia da Cidade. Foram realizadas entrevistas com pessoas que viveram ou conhecem o período, completando o estudo com leituras e consultas a sites.
"No decorrer do trabalho cheguei a desistir", confessa Braga. Mas o escritor estreante resolveu deixar a autocrítica de lado e colocar um ponto final no livro, que tem prefácio assinado pelo memorialista Miguel Ângelo Azevedo. No lançamento, a apresentação da obra caberá ao acadêmico Juarez Leitão.
Construções
A publicação passeia pela paisagem urbana da Capital, relatando algumas construções da época - como a Base Aérea de Fortaleza, obra do arquiteto húngaro radicado no Ceará, Emílio Hinko (1901-2002); o Hospital Militar, de 1943; o prédio da Escola Preparatória de Cadetes, transformada depois no Colégio Militar; o Quartel do 23º Batalhão de Caçadores; o Comando da 10ª Região Militar; a restauração da Escola de Aprendizes Marinheiros, fechada em 1930 e reaberta em 1940; e, finalmente, a base no Pici.
O autor admite que Fortaleza era ainda provinciana na segunda metade do século XX. As notícias que chegavam sobre guerra era via rádio ou jornais - ainda não existia televisão por aqui. "Era algo muito distante para nós. Quem trouxe a guerra para cá foram os americanos", assegura Braga. O torpedamento de navios brasileiros e estrangeiros em Sergipe e na Bahia, em agosto de 1942, gerou o movimento que ficou conhecido como "quebra-quebra", no Centro de Fortaleza, noticiado pelos jornais da época.
O fato gerou revolta nas pessoas, que realizaram protesto na Praça do Ferreira. A determinação era promover um "quebra-quebra" em estabelecimentos comerciais e até residências pertencentes a estrangeiros oriundos dos países do Eixo. Foram atacadas a Casa Veneza, a Pernambucana, a residência e o jardim japonês da família Fujita.
As mudanças atingiam também os costumes de uma população que tinha como base, até então, a cultura francesa, cujos reflexos do desenvolvimento da Cidade Luz resplandeciam na Europa e mundo afora. O Brasil e o Ceará foram influenciados diretamente, até começar uma aproximação com a cultura americana, ainda nos anos 1930, com a implantação da Política da Boa Vizinhança.
Os laços ficaram ainda mais fortes quando o governo brasileiro resolveu apoiar os EUA.
Dessa vez, o apoio não ficou restrito apenas ao terreno cultural. No Ceará, assim como em outras cidades do Nordeste, foram construídas bases aéreas para combates. Os cearenses não ficaram indiferentes diante das mudanças ocorridas, bem como acontecimentos que alteravam o dia a dia da população. "Submarinos e navios alemães e italianos eram torpedeados. Foram realizados exercícios de blackout para evitar que o inimigo visualizasse a silhueta da Cidade", lembra o autor.
O livro mostra que, aos poucos, os cearenses alteravam seus costumes. Trocavam os charmosos cafés, remanescentes da "Belle Époque", movimento cultural iniciado no fim do século XIX, na Europa, pelas lanchonetes; o refresco de "pega pinto" por refrigerantes e sanduíches.
"A música era o fox trote, houve uma invasão do cinema norte-americano", recorda-se Henrique de Almeida, fazendo alusão à vinda do cineasta e ator Orson Welles (1915- 1985), esteve no Ceará, em 1942 para as filmagens do documentário "It's alt true", sobre a vida de pescadores, no Mucuripe.
Os Estados Unidos investiram nessa política de aproximação com os países da América Latina, chegando a criar um departamento específico para tratar sobre o tema. "No início, Getúlio Vargas não tinha uma posição definida em apoiar os EUA", assinala o autor, cabendo a Osvaldo Aranha, então ministro das Relações Exteriores, a costura dessa aproximação.
O antigo prédio do Estoril, na Praia de Iracema, abrigou o United States Organization (USO) local destinado ao lazer dos soldados norte-americanos improvisados em diversos locais de conflitos. O autor fala sobre o equipamento, que serviu de palco para a realizações de shows artísticos e diversão. O livro aborda ainda bastidores da preparação do Ceará para a II Guerra Mundial, fatos e personagens.
Mais informações:
Lançamento do livro "Salto sobre o lago",de José Henrique de Almeida Braga. Hoje (17), às 19h, no Ideal Clube (Av. Monsenhor Tabosa, 1381, Meireles). Preço: R$ 80

Diário do Nordeste

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