Caixa reúne, em dois volumes, letras de música, textos para teatro, poesia e prosa de Vinicius de Moraes

por Dellano Rios - Editor de Área
Ainda que hoje se tenha certo pudor em declarar, o nome de Vinicius de Moraes (1913-1980) continua a inspirar alguma dúvida, para a crítica acadêmica e para o leitor mais dependente dela. O diminutivo em "poetinha", a alcunha mais evocada como sinônimo para o nome e o sobrenome do autor, guarda a ambiguidade de ser interpretada ora como um tratamento carinhoso; ora literalmente - um poeta menor.
Que Vinicius um dia tenha seu papel diminuído em nossa história literária é pouco provável. O poeta foi importante para ela, afinal, não apenas escrevendo como participando ativamente da vida de outros artistas. Ora, não foi ele quem trouxe ao Brasil uma versão em áudio de "Poema Sujo" (1976), um dos livros fundamentais de Ferreira Gullar (1930-2016)?
Contudo, é difícil prever quanto tempo os críticos, que veem uma alta qualidade literária em Vinicius, ainda terão que trabalhar para dispersar os detratores do poeta.
O nome do "poetinha" de Vinicius de Moraes é onipresente quando se fala em poesia nacional
O certo é que Vinicius continua interessando aos leitores - e, importante lembrar, num cenário cultural onde se repete sempre a máxima (nunca checada com um método mais complexo e rigoroso) de que "poesia não vende" e de que "não há leitores para a poesia".
Antologias
Dois lançamentos recentes dão testemunho da boa performance de Vinicius de Moraes junto ao público (em constante renovação). O também poeta Eucanaã Ferraz organizou para a Cia. Das Letras "Todo Amor", reunindo mais de 100 fragmentos - de cartas, crônicas, poemas e letras de música -, cujo ponto em comum é o tema. E justamente aquele que mais impregnou a fama do poeta.
Ferraz também é o organizador de outro projeto, desta vez publicado pela Editora Nova Fronteira. "Vinicius de Moraes: Música, poesia, prosa, teatro" é uma antologia bem mais abrangente e completa. O box contém dois volumes é uma versão melhorada de "Poesia Completa e Prosa", que teve quatro edições lançada pela Nova Aguilar entre 1968 e 2004. Eucanaã Ferraz foi o responsável pela última edição, sucedendo Alexei Bueno (que fez a terceira) e Afrânio Coutinho (que idealizou as duas primeiras).
O primeiro volume reúne a poesia, em verso sobretudo, mas com algumas ocorrências de prosa poética. Os livros são apresentados na íntegra, distribuídos em ordem cronológica. No segundo volume, cabem letras de canções, textos para o teatro e outras peças em prosa.
Esta parte é, claro, menos completa. Afinal, a prosa de Vinicius é vasta e a antologia não tem a pretensão de reuni-la na íntegra (partes dela renderam títulos específicos, como a coleção de escritos sobre o Jazz, que a Cia. Das Letras publicou há alguns anos).
A ideia parece ser a de deixar a voz do poeta soar, quase sem interferências. Além dos textos de Vinicius, Eucanaã Ferraz incluiu apenas uma breve "Nota editorial", assinada por ele; e uma "Introdução" de Laetitia Cruz de Moraes, irmã do poeta, que escreve um perfil em prosa precisa, com espaço para um imprecionismo afetuoso.
Navegações
Livros como "Vinicius de Moraes: Música, poesia, prosa, teatro" se prestam, facilmente, a uma leitura mais errante do que o habitual. Isso se dá porque a obra, neste caso, não é única mas uma pluralidade que se encerra entre duas capas. Daí que existe a opção de seguir o ordenamento do organizador, respeitando os dois volumes e o que cada um deles abrange; existem opções afetivas, daquele que relê e procura emoções já suscitadas pelos versos do poeta; e há mesmo uma, um tanto atrevida, que é a de trilhar o percurso daquela edição original, de 1968, criticada por Eucanaã Ferraz, que rompia com a cronologia e inventada eixos temáticos para a bibliografia de Vinicius de Moraes.
Em todos os casos, se o leitor se dedicar à travessia da primeira página do primeiro volume à ultima do segundo, vai ser fácil entender porque tantos usam poetinha quase como um elogio. Desgostar do que leu é factível e não chega a ser um tipo de heresia; enquanto tomá-lo por poeta menor chega perto disso.

Diário do Nordeste

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