Há 100 anos falecia em Viena o pintor austríaco Gustav Klimt

por Roberta Sousa - Repórter
Image-0-Artigo-2358567-1
arte
"O Beijo" original ilustra esta página; acima, releitura da obra de Klimt, da artista Angela Oskar
Em uma breve comparação, "O Beijo" está para Gustav Klimt como "Monalisa" está para Da Vinci. Ambas as obras, mundialmente famosas, já ganharam inúmeras releituras no decorrer dos séculos, e ajudam a imortalizar os artistas independente do tempo transcorrido de falecimento. O austríaco, por exemplo, completa nesta terça (6) seu centenário de morte. Mas isso tampouco significa o esquecimento de sua contribuição para as artes e para os que lhe sucederam neste caminho.
Klimt nasceu em Viena, em 14 de julho de 1862, e, associado ao Simbolismo, destacou-se dentro do movimento Art Nouveau austríaco, sendo um dos fundadores do movimento da Secessão de Viena, que recusava a tradição acadêmica nas artes, e do seu jornal, "Ver Sacrum". A irreverência e o talento do artista era algo que o acompanhava desde o início de sua trajetória profissional. Admitido aos 14 anos na Escola das Artes Decorativas, ligada ao Museu Austríaco Imperial e Real de Arte e Indústria de Viena, cedo começou a produzir retratos para vender.
Segundo dos sete filhos do ourives Ernest Klimt e da cantora Anna Flinster Klimt, ele nasceu no seio de uma família pobre e desde a juventude esteve próximo das artes. Com 18 anos, Klimt e o irmão abriram um ateliê de decoração, onde receberam diversas encomendas. Nesse período, seu trabalho começa a ganhar notoriedade por se diferenciar de outros da época.
Com um estilo peculiar e extremamente decorativo, ele foi convidado a realizar suas pinturas em prédios públicos, em espaços como murais, painéis e tetos. Alguns exemplos são a Universidade de Viena, o Teatro Municipal e o Museu Histórico da Arte. O reconhecimento não tardou. Klimt participou da Bienal de Viena em 1910 e recebeu o prêmio na Exposição Internacional de Roma em 1911. Em 1917, foi eleito membro honorário da Academia de Arte de Viena.
Características
A obra do austríaco é dividida em duas grandes fases: a Fase Histórico-Realista e a Fase Dourada. A primeira inclui obras de caráter mais histórico, a exemplo das alegorias "A Escultura" e "A Tragédia" (1896 e 1897). Já a segunda, reúne obras mais decorativas. É dessa época também a produção de retratos e o uso excessivo da cor dourada.
Na famosa obra "O Beijo" (1907/08), ou "Der Kuss" no original em alemão, está o auge do período dourado. Este trabalho tornou-se o emblema da Secessão e apresentou uma sexualidade latente, que Klimt viria a desenvolver nos últimos trabalhos.
Suas últimas obras eram bastante carregadas de sensualismo e erotismo, especialmente da figura feminina. Desse período, os exemplos são os desenhos das suas modelos em poses e atitudes mais íntimas: "Mulher sentada com as coxas abertas", "Adão e Eva", "A Noiva' e "Masturbação feminina". Por essa inclinação, o austríaco foi muitas vezes criticado pelos setores mais tradicionais da sociedade da época.
Releitura
Uma aproximação de Klimt com o Nordeste brasileiro não é tão improvável quanto se possa pensar. Prova disso é a releitura de "O Beijo" pela artista chilena Angela Oskar. Residente em São Paulo desde a infância, mas apaixonada pela cultura popular, por cordel, xilogravura e pela história de amor entre Lampião e Maria Bonita, ela resolveu recriar, em 2013, o quadro do austríaco, trazendo esses dois personagens do cangaço como protagonistas.
"Mais do que homenagear o Klimt, foi inspirada nos cangaceiros que fiz a releitura. Uns defendem Lampião e Maria Bonita, outros criticam como bandidos. Acho que o sentimento e o relacionamento dos dois é maior que tudo isso", observa Angela.
A respeito da obra do austríaco, ela pontua o que mais lhe chama atenção e influencia. "Tem todo um estudo da parte de arte decorativa, muitos detalhes, nuances. Meu trabalho tem influência desses detalhes, miudezas, cada vez que você olha, vê uma coisa nova. Fico feliz quando alguém observa isso, me impulsiona a fazer esse tipo de obra", destaca.
A releitura de Angela foi selecionada para participar do 2º Salão de Outono da América Latina, realizado em 2015, e, em setembro passado, ela também foi convidada a participar com seu trabalho de um tributo a Gustave Klimt, em Viena, junto a outros dez artistas. Para a terra natal do mestre, enviou uma releitura da releitura: "Intervenções sobre beijo ao luar - Cangaceiros".
Gustav Klimt faleceu em Viena, dia 6 de fevereiro de 1918 vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). Seu corpo foi sepultado no Cemitério de Hietzing (Viena). Mas, quando vemos trabalhos como o de Angela Oskar, não há dúvidas sobre a imortalidade.
Saiba mais
Emilie Flöge foi amante de Klimt durante anos e supostamente seria a figura retratada na obra "O Beijo".
Angela Oskar também reconhece a si e a seu companheiro na releitura que fez de "O Beijo" com Lampião e Maria Bonita.
Alguns apontam a posição da mulher na obra de Klimt de forma submissa. Em sua obra, Angela lembra a ideia de empoderamento feminino com os personagens mais proporcionais e a presença da peixeira de Maria Bonita.
Klimt usou ouro de verdade para a produção de algumas obras do período dourado.
Alguns estudiosos do artista afirmam que Klimt teve 14 filhos.
Grande parte de sua obra está reunida no Museu Belvedere em Viena, Áustria. O local recebe cerca de 2 mil visitantes por ano.

Diário do Nordeste

Comentários

Mais Visitadas

Garimpeiro do conhecimento

A linguagem do amor

Cannes: Filmes de qualidade, mas sem ousadia

O saber na periferia do conhecimento

História do transporte de passageiros é contada em Centro Cultural da Fetrans