Pantera Negra: força e tradição da música black na sétima arte

por Antonio Laudenir - Repórter
A bem sucedida trajetória de "Pantera Negra" nos cinemas do mundo reúne uma série de fatores decisivos. Além de se projetar como uma peça cinematográfica dotada de subtexto político, o filme guiado pelo norte-americano Ryan Coogler tem conquistado outro relevante espaço midiático. A trilha sonora que reveste a ascensão do príncipe T'Challa (Chadwick Boseman) ao trono de Wakanda assumiu a dianteira nas paradas de sucesso da indústria musical.
Todo o valor simbólico atribuído a "Pantera Negra" revela a força de um super-herói africano, ancorado por um elenco de maioria negra e com uma história que celebra a visão de um reino altamente avançado, autossuficiente e livre do colonialismo. "Black Panther: The Album - Music From And Inspired By" investe nesse mesmo espírito crítico e expande a relevância do longa-metragem na atual cultura pop.
Depois de quatro álbuns de estúdio e muitos outros lançamentos, Kendrick Lamar cruza sua elogiada carreira com o cinema e o resultado é triunfante. Com curadoria e produção da estrela do hip hop, o disco estreou no primeiro lugar do Billboard 200 e a banda sonora vendeu 154 mil unidades, o que representa a melhor estreia de uma trilha desde "Esquadrão Suicida" (2016).
As semelhanças entre estes filmes, todavia, se encerram aí. Enquanto o longa fracassado da DC/Warner reúne temas já conhecidos do público como "Fortunate Son" (Creedence Clearwater Revival) e "Bohemian Rhapsody" (do Queen, mas aqui em versão do Panic! at the Disco), o trabalho de Lamar segue outro rumo e como o próprio título do disco sugere, se inspira e inspira o universo de "Pantera Negra".
A produção que se insere de maneiras sem precedentes no Marvel Cinematic Universe (MCU) recebeu uma trilha sonora à altura. Uma semana antes de "Pantera Negra" estrear nos cinemas, "Black Panther: The Album - Music from and Inspired By" já causava alvoroço na imprensa e se destacava com boas apreciações do material. Tendo Lamar como produtor executivo e curador, funções que divide com Anthony Tiffith, fundador da gravadora Top Dawg Entertainment (TDE), a trilha reflete a união entre o rapper mais celebrado de sua geração e um filme que já caiu nas graças do público.
disco
Alinhamento
Nascido e criado no estado da Califórnia, assim como Lamar, o diretor Ryan Coogler foi quem escolheu o rapper para ajudar a criar a identidade musical do Pantera. "Me sinto honrado de trabalhar com um artista incrível, cujo trabalho é tão inspirador e cujos temas artísticos se alinham com os temas que nós exploramos no filme", declarou o diretor quando a parceria foi anunciada para a imprensa.
No filme mais ácido da Marvel Studios até então, Coogler revisitou o personagem criado por Stan Lee e Jack Kirby no distante ano de 1966. Imaginado meses antes da fundação do Partido dos Panteras Negras, tanto o herói como o movimento político expressam um cenário onde a comunidade afro-americana reivindica por direitos, diante de um contexto de opressão e leis segregacionistas.
Juntos, Lamar e Pantera eclodem em uma era onde ideias de supremacia branca voltam a ganhar força nos EUA. "Black Panther: The Album", enquanto obra paralela, ecoa estas tensões sociais. Dessa maneira, nada melhor que este grito seja retratado através do hip hop, gênero musical que nasce e se desenvolve em comunidades negras de baixa renda e, apesar de também explorar outros temas, está associado a críticas e crônicas sociais.
O disco também é alimentado pela trama do longa, uma jornada marcada por quedas e armadilhas que o poder gera, com a espiritualidade tendo um papel importante no meio disso tudo.
Composições
Creditado como performer em cinco das 14 canções do disco, Lamar atuou como compositor de todas elas, além de ser responsável por reunir os convidados do projeto. Por conta do caráter colaborativo, o álbum é repleto de momentos singulares. Muitos acertam em cheio, outros, mesmo sem o mesmo brilho, seguram a pegada imaginada pelos músicos.
Estas parcerias incluem nomes como The Weeknd, SZA, Vince Staples, Anderson .Paak, 2 Chainz, Future, James Blake. Ao todo, são 23 realizadores nos créditos do trabalho, artistas negros dos EUA, África do Sul, Etiópia, Canadá e Reino Unido. Uma característica que implica em alternâncias sonoras que vão do groove à instalação de temas atmosféricos.
A primeira faixa, "Black Panther", já entrega essa conexão entre as raízes africanas e a levada do rap. A radiofônica "All The Stars" eleva o apelo pop ao máximo no disco através da mediação de SZA. Lamar, ScHoolboy Q e 2 Chainz brilham em "X", música esperta e cheia de agilidade.
Autores menos conhecidos também se destacam nos microfones. É o caso de "Paramedic!", assinada pelo coletivo SOB x RBE, que versa sobre a disputa de poder em um gueto dominado por gangues. Aqui, o rival de T'Challa, Erik Killmonger (Michael B. Jorda) também é fonte de inspiração para as composições.
Por sinal, a vida do antagonista é vivenciada por Lamar ao discutir os efeitos da violência urbana e pobreza na vida de um jovem afro-americano da periferia. Um tema que se relaciona diretamente com as motivações de Killmonger e sua busca por assumir o trono de Wakanda no lugar de T'Challa.
A cantora britânica Jorja Smith está radiante em "I Am", esta uma das boas sacadas da trilha. Espécie de trip hop banhado em R&B contemporâneo, a faixa destoa pela aplicação de guitarras ao fundo e um clima bem mais soturno. "Seasons", parceria dos rappers americanos Mozzy e Reason com o cantor sul-africano Sjava, trata de forma melancólica sobre os desafios de viver cercado por violência e falta de oportunidades. "Redemption", dobradinha entre Zacari e Babes Wodurno amplia essa experiência de multilinguanges sonoras.
"Black Panther: The Album - Music From And Inspired By" denota a liberdade criativa que a Marvel Studios (subsidiária da familiar e tradicional Disney) foi capaz de permitir em relação ao processo de produção do álbum. A obra que reúne a estética de Kendrick Lamar a um time de estrelas do hip hop consegue evidenciar o produto cinematográfico e manter uma relevância própria. Assim como outras trilhas sonoras do passado estabeleceram a comunhão de gênios como Marvin Gaye, Isaac Hayes, Quincy Jones, entre outros, com o cinema feito por e para negros, o disco sobre o Pantera Negra explica e representa o momento cultural onde está inserido.

Diário do Nordeste

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