Depois de 20 anos, Tim Maia mantém seu legado na MPB

Com mais de 30 álbuns na carreira, entre ao vivo e em estúdio, Tim Maia marcou a música brasileira. Morto aos 55 anos após passar mal na gravação de um show e ser internado em Niterói, Tim deixa como legado canções populares como Primavera, O Descobridor dos Sete Mares, Chocolate, Réu Confesso e Gostava Tanto de Você. O artista começou na música nos anos 1950, numa banda com Roberto Carlos, e já no final daquela década se mudou para os Estados Unidos, onde se aproximou de influências da música negra. “Ele teve influência da soul e da black music e absorveu isso muito bem. Quando veio para o Brasil, foi com a intenção de fazer aquela música aqui”, contextualiza o jornalista e radialista cearense Nelson Augusto.
O primeiro disco de Tim foi lançado em 1970, década importante em sua carreira. “No início, ele estava ligado na soul music, mas foi arregimentando outros ritmos. Teve a fase ‘Racional’, mas mesmo assim contando com balanço e levada”, avança Nelson, se referindo ao período em que o cantor se aproximou da doutrina Cultura Racional. “Depois ainda fez discos só de músicas dançantes, outro só de românticas”, destaca o jornalista. “O grande lance é a interpretação. Tudo que ele cantava virava ouro porque era uma interpretação personalíssima, que emociona as pessoas até hoje. Na matriz da música negra, Tim Maia é um dos grandes, se não o maior cantor”, afirma.
“Nomes como Hyldon, Cassiano e Gérson King Combo foram influenciados por Tim Maia. Aqui em Fortaleza, Nigroover é o maior representante disso. O Zéis também tem esse tempero, com presença de metais que dão a levada da black music”, elenca Nelson. Para o cantor e compositor Nigroover, Tim era uma figura “folclórica e engraçada”, um “tirador de onda”. A relação musical veio após a morte de Tim, em 1998, quando cantou músicas do artista em um projeto. No entanto, sem conseguir “espaço e abertura no mercado para a black music”, como conta, só estabeleceu o projeto pelo qual até hoje é conhecido em 2006. A inspiração do artista é na “descontração, ritmo envolvente, simpatia, romantismo, uma dose de subversão” e outros atributos de Tim Maia.
Mais nomes influenciados pelo carioca são o do cantor Andersoul e o da banda Selvagens à Procura de Lei (SAPDL). O primeiro teve contato mais sério com a obra de Tim a partir do primeiro volume de Tim Maia Racional, que o inspirou a montar a banda Racional Soul. “Começei minha carreira cantando Tim Maia e devo muito ao mestre. Muita coisa mudou nesses 20 anos. A textura do som é outra, mas a influência continua também em Curumim, Mundo Livre S.A, Fino Coletivo”, opina. Gabriel Aragão, da SAPDL, lembra que o “amor” ao som de Tim já existia entre os membros, até chegar na musicalidade da banda no segundo disco, com a canção Despedida, na qual o baterista Nicholas Magalhães faz os vocais do refrão num timbre que remete ao de Tim. “A gente estava escutando muito Tim Maia, várias melódicas como Me Dê Motivo, Ela Partiu e Lamento, mas especialmente o disco Tim Maia Racional, que mexeu com a banda. Ouvíamos muito juntos e foi numa dessas audições que nos deu um clique: o Nicholas tem uma voz grave e experimentamos soltar ela em Despedida”, contextualiza. Fã dos trabalhos dos anos 1970 de Tim, como Tim Maia (1971) e Tim Maia Disco Club (1978), Gabriel avalia a permanência do artista. “Ele é um personagem pronto, né? Você se identifica com várias facetas: superação, controvérsia, malandragem, sinceridade, fúria. Ele não se escondia e dizia tudo, para o bem e para mal. Acho que, por isso mesmo, essa grande identificação com ele segue até hoje”.

Estante de discos
TIM MAIA (1970)
Disco de estreia do cantor, que já apresentou clássicos como Azul da Cor do Mar e Primavera (Vai Chuva).

TIM MAIA RACIONAL, VOL. 1 (1975)
Quando se aproximou da seita da Cultura Racional, Tim Maia se inspirou e lançou dois volumes.

O DESCOBRIDOR DOS SETE MARES (1983)
Lançado numa das décadas mais célebres de sua carreira, o disco conta com Me Dê Motivo.
AMIGOS DO REI (1997)
Em dos seus últimos discos, Tim realizou o sonho de gravar com o quarteto Os Cariocas.
JOÃO GABRIEL TRÉZ
O Povo

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