Iniciativas culturais celebram o Dia da Mulher na Capital

por Iracema Sales - Repórter
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As reminiscências históricas da música cearense são anteriores aos registros em partituras ou fonográficos, como demonstra a pesquisa, iniciada em 2002, materializada no livro "Pérolas - o feminino no cancioneiro cearense 1900-2017 histórias e relatos de vida", do cantor e compositor, Pingo de Fortaleza. A obra, acompanhada por 3 CD's, integra o projeto "Solo Feminino", cujo lançamento acontecerá neste sábado (3), às 19h, no Cineteatro São Luiz, durante show com mais de 20 cantoras, que escreveram diferentes capítulos dessa história em aberto.
Ayla Maria, Téti, Mona Gadelha, Izaíra Silvino e Nayra Costa figuram entre as 20 cantoras que relatam sobre suas vidas no livro. As trajetórias representam alguns momentos da participação feminina na música cearense, desde as primeiras décadas do século XX, ou antes, resgatando as heranças indígena e negra. Sem deixar de lado a época de ouro do Rádio, que, no Ceará, começa no fim da década de 1920, passando pelos festivais, nos anos 1960, e os movimentos Pessoal do Ceará e Massafeira, em 1970, até chegar à cena contemporânea. Este é o quarto livro do autor, que justifica "contribuir para a construção da memória da música cearense, realizando de maneira coletiva".
"As primeiras mulheres musicistas do Ceará com certeza caminhavam com seus povos pelos litorais, sertões e serras destas terras e entoavam seus cânticos em festas e rituais, uma herança presente atualmente nas rodas de torém do povo Tremembé, que entoa em sua língua a canção 'Erequatiá' e também em outras nações cearenses e tipificadas na obra musical da Cacique Pequena, do povo Jenipapo-Kanindé", escreve Pingo de Fortaleza, no primeiro capítulo da obra, dividida em nove. O livro atenta para as heranças culturais que entraram na formação da música cearense, tomando como ponto de partida a presença da mulher.
O autor explica: "da mesma forma que também as primeiras musicistas mulheres negras do Ceará foram trazidas como escravas, que embalavam seus filhos com cantigas de ninar e entoavam cantos de louvor e de brincar em suas rodas, em seus terreiros e em suas festas múltiplas durante séculos. Conjunto de obras ainda presente nos terreiros de umbanda, nas roças de candomblé, nas rodas de capoeira, nos cortejos de maracatus e nas sínteses musicais que brotam de todos esses cantares pelas paragens cearenses e que permanecem em cada um de nós, como os cantares e loas de Inês Mapurunga".
O livro remete, ainda, para o aspecto da colonização. "Também tivemos inúmeras mulheres musicistas de outros povos, principalmente europeus que chegaram no bojo da invasão (colonização) das terras que hoje representam o estado do Ceará, e que traziam seus cânticos e aqui criavam e recriavam todos os seus cantares, mas que igualmente aos nossos ancestrais negros e indígenas quase não tiveram suas canções registradas e que muito resistiram através a cultura oral, assim como também muito se perdeu e muito se transformou nessa eterna mutação", discorre.
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O autor arrisca dizer que, a primeira narrativa a abordar a produção musical cearense em sua coletividade, talvez seja "Traços ligeiros sobre a evolução da música no Brasil em especial no Ceará", de Zacarias Gondin, músico sobralense, publicado em 1903, atendendo a convite de Barão de Studart. O texto, argumenta, traduz uma lacuna existente, até hoje, sobre os registros dos cânticos dos nossos ancestrais indígenas e negros presentes nessas paragens, mesmo diante de um universo populacional de um Ceará já miscigenado no final do século XIX.
Os escritos de Gondin não fazem referência à participação da mulher na música produzida no Estado, no período. A pesquisa comprova outra falha, identificando a publicação, em 1927, de uma partitura da pianista e compositora Branca Bilhar (1886-1928), do Crato.
Outras compositoras, em especial pianistas, se destacaram no cenário musical cearense, no início do século XX. "Essa prática era costumeiramente realizada por mulheres, que também, na grande maioria dos caos, eram as responsáveis pelo ensino de piano em suas residências ou em outros espaços", relembra, demonstrando o período da influência francesa na cultura cearense. Branca Rangel (1892-1963), nascida no Ipu, foi outro nome se destacou entre as musicistas cearenses. Em Fortaleza, junta-se a outras professoras, a exemplo de Ester Salgado Studart da Fonseca e Nadir Morais Parente, fundando em 1919, o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Assinou a modinha "Minha terra", com Juvenal Galeno (1838- 1931).
Ao imergir na memória da música cearense, Pingo descobriu várias particularidades, citando Hilda Marçal Matos como uma das precursoras em registros musicais do Estado do Ceará. Ainda sem biografia evidenciada por estudiosos, escreve, "a compositora viveu no bairro Parangaba, e teve suas obras evidenciadas nas primeiras décadas do século XX."
Hilda Matos teve duas composições gravadas pelo cantor Francisco Alves, em 1927. Outro marco, o registro em disco da primeira cantora cearense, Lourdes Alcântara, ao lado de Pedro Alcântara, no ano de 1937. Eles formavam a dupla Tapuia e Xerém.
Processo
"Na realidade, esse projeto foi feito por etapas", explica Pingo de Fortaleza, completando que começou em 2002, com o lançamento do CD Solo Feminino, com músicas, compostas pelo autor, gravadas por 16 cantoras convidadas. "Compus as canções pensando no timbre de voz e no estilo de cada uma", observa, citando as cantoras Mona Gadelha e Lily Alcalay.
Dois anos depois, é a vez do lançamento do segundo disco, com mais 16 intérpretes, com arranjos para piano, com o músico Tony Maranhão, e violão, Pingo de Fortaleza. Ao começar a pesquisa para o terceiro CD, o autor resolveu ampliar o projeto e fazer um mapeamento das vozes femininas cearenses, ao longo da história. O terceiro disco possui arranjos para piano, voz e percussão, contemplando 17 cantoras.
Os trabalhos foram retomados em 2016, após aprovação da pesquisa pela Secretaria da Cultura do Estado (Secult) mediante a Lei do Mecenato. Pelo novo formato, os CD's passaram a ter 18 músicas e contam com a participação de três cantoras paulistas: Cida Moreira, Ná Ozetti e Izalu. São mais de 70 cantoras cearenses que participam do projeto, composto pelo livro e uma caixa de 3 CD's.
Ayla Maria, Téti, Izaíra Silvino, Mona Gadelha, Goretti, Mel Mattos, Lorena Nunes, Lídia Maria, Jord Guedes, Eliahne Brasileiro, Nayra Costa, Auri D'yruá, Masôr Costa, Ivanilde Rodrigues, Aparecida Silvino, Juliana Roza e os grupos Cinco em Ponto (Adelane Delmondes, Annalies Borges, Angela Linhares, Celiane Teixeira, Marielly Morais e Simone Sousa) e Coletivo Nós Voz Elas participam da publicação. No show de sábado, as cantoras convidadas serão acompanhadas no show por Pingo de Fortaleza (violão), Tony Maranhão (teclado e violão) e Leandro Marechal (percussão).

Mais informações:
Show de lançamento do projeto "Solo Feminino", com participação de 25 cantoras. Neste sábado (3), às 19h, no Cineteatro São Luiz (R. Major Facundo, 500, Centro). O livro "Pérolas - o feminino no cancioneiro cearense Histórias e Relatos de Vida" e a caixa com 3 CDs será vendido por R$ 50. Entrada gratuita. Contato: (85) 3226.1189

Diário do Nordeste

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