Músico fabrica instrumentos com material achado no lixo e ajuda crianças no Crato

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“A história começou assim: minha mãe era cantora e atriz, meu pai era violeiro repentista. Meus avós também eram violeiros. Aí, desde criança, ela ensinava a gente a construir coisa de barro, a fazer instrumento de palha de coqueiro, era coisa de criança brincar”.
Foi desse jeito que Aécio Ramos, de 62 anos, começou a contar o caso de sintonia entre música e artesanato que toca a vida dele na cidade do Crato, no Ceará. Aos 8 anos, motivado pelas brincadeiras, pediu autorização a mãe para catar lixo na beira do Rio Granjeiro. De lá vinha a água que a família bebia, mas também o material usado para fabricar brinquedos e instrumentos. Tudo feito com as mãos.
“Ia limpar o rio, porque a gente bebia a água de lá, e do lixo começava a fabricar carrinho de lata, instrumento de percussão, também fazia coisa de barro. Aí fui desenvolvendo. Nessa época, fabriquei meu primeiro violão de palha de coqueiro. Minha mãe que me ensinou”, disse o músico.
Seu Valdomiro Apolinário e dona Josefa Rodrigues da Conceição viram o terceiro dos dez filhos crescer moldado pela música. Sem escolas especializadas na época, o menino Aécio foi desenvolvendo as próprias melodias. Aos 12, comprou um violão velho e aprendeu a tocar.
Do sertão cearense, foi servir o exército, passou em concurso… Aécio se arriscou até no campo, como jogador de futebol. Jogou no Icasa e no Guarani, passou por times amadores de São Paulo. Vestia a 10, mas chegou a atuar até como goleiro. Isso foi pelos anos de 1978.
Mas logo desistiu da bola. Preferiu trabalhar como pedreiro e aproveitar o tempo para estudar música. Quem tem melodia no sangue não desiste do compasso.
Apesar da carreira nos campos não ter dado certo, Aécio aproveitou para fazer cursos de marcenaria, carpintaria, pintura, mecânica, bombeiro hidráulico, eletricista, arquitetura e desenho, lustrador e uma qualificação em conhecimento de madeiras na empresa de Fundição que trabalhava. Depois, decidiu voltar para o Crato e continuar com a música. Com a junção desses cursos, recebeu o título de Luthier, pela Universidade Federal do Cariri (UFCA).
“Juntei esses cursos que eu tinha, comecei a fazer instrumento de palha e de madeira. Fiz cavaquinho, violão, violino, banjo, rabeca, harpa, lira… Já fabriquei mais de 1.000 instrumentos. Fui me aperfeiçoando, me qualificando”, relembrou Aécio, que trabalha há 15 anos na fabricação de instrumentos com material recolhido no lixo.
Professor de música, é formado em violão, mas no cardápio também tem a batida da percussão. Ele, que chegou a se apresentar na noite de São Paulo, trabalhou com Luiz Melodia, também compõe. Já são mais de 400 músicas feitas. Mas Aécio se entregou a fabricação dos instrumentos, do popular ao erudito, e a fazer do seu trabalho um modo de transformar a realidade das crianças e dos idosos.
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Diversos instrumentos são fabricados no próprio quintal da casa de Aécio. (FOTO: Arquivo Pessoal)
Foi aí que nasceu o Projeto Cultural Edit Mariano, que já tem quase 25 anos. Tem maracatu, tambôs de axé e quadrilha, além da fabricação de instrumentos. E funciona no quintal da casa de Aécio e Teresa Neusa, esposa do músico, que também atua nas artes.
“As crianças de 1 a 5 anos começam com papelão. Elas aprendem a riscar, a lixar e a fazer medidas. As de 5 a 10 vão aprender a colar madeiras e os nomes delas. De 10 a 16 a cortar e a fazer o instrumento. Isso tudo procurando que os pais estejam sempre juntos. Cerca de 25 crianças por semana fazem as oficinas”, explicou o músico que, com o trabalho realizado, foi contemplado com a primeira exposição do Brasil com instrumentos feitos de lixo.
A brincadeira que começou na infância, fazendo instrumento com tronco de palha, hoje orquestra a vida do caririense. O processo de fabricação tem início com a coleta do lixo na beira do rio. A música não rege só o coração de Aécio, é também o meio que ele usa para alertar sobre a situação do Granjeiro.
“O que nós não precisamos, como garrafa pet, a gente doa. Não temos ajuda financeira nem de estrutura. A gente fabrica instrumento e vende. Reunimos um grupo de 5 a 10 voluntários e vamos fazendo uma limpeza, selecionamos o que precisamos e levamos. Nas margens do rio Granjeiro e nas ruas. Se você visse, a situação do rio daqui é de cortar o coração”, contou o músico.
Entre acordes, Aécio compõe o futuro transformando a sociedade agora. Cada nota amplia a possibilidade de toda criança, idoso, pessoa que decide participar do Projeto Cultural Edit Mariano. Por mês, são fabricados entre 20 e 30 instrumentos. Flautas e violões, por exemplo, custam R$50 ou R$100. Os preços variam.Todo o material é vendido para manutenção do próprio espaço do projeto.
Contato:
Facebook: Aécio Rodrigues

Tribuna do Ceará

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