69° Salão de Abril inicia hoje, na Casa do Barão de Camocim

por Antonio Laudenir - Repórter
Obras da 69ª edição Salão de Abril, que abre nesta-quinta feira. Após problemas no ano passado, Secultfor trouxe a mostra ao seu mês de referência ( Foto: Thiago Matine )
Após acirramentos nos bastidores, uma edição pontualmente organizada pelos próprios artistas e indefinições, o Salão de Abril chega finalmente à 69ª edição. Hoje, a partir das 18h, nas salas e corredores da Casa do Barão de Camocim, o tradicional evento das artes plásticas do Ceará ganha um novo capítulo nessa história que completa 75 anos de estrada.
A seleção das obras retrata o serviço curatorial do jornalista, fotógrafo e crítico Paulo Klein. Outros três nomes também participaram do processo: o curador e pesquisador Carlos Macêdo, a pesquisadora Paloma Santa Rosa e o educador e produtor Paulo Amoreira.
Segundo balanço da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), chegou ao crivo desta equipe o contingente de 482 obras, assinadas por um total de 304 artistas. Os trabalhos ficam expostos até 26 de junho.
Os nomes dos quatro vencedores serão conhecidos pelo público somente no dia 17 de maio. Em 2018, os valores destinados à premiação correspondem a R$ 190 mil, o equivalente a R$ 15 mil para os quatro primeiros colocados e R$ 5 mil para os demais participantes. Neste ano, a abertura conta com 42 artistas.
Destes selecionados, 30 nomes contam com o suporte financeiro anunciado pela gestão municipal e outros 12 realizadores entram como convidados. Além de permitir o acesso do público à atual produção cearense, o evento conta com programação formativa e homenagem ao centenário de Zenon Barreto (1918-2002).

Transbordar
Para Paulo Klein, a trajetória de resistências que se confundiram com a existência do Salão de Abril ao longo das décadas, permite outras observações e direcionamentos para o futuro desta iniciativa. Do ponto de vista curatorial, repensar modelos e estratégias tornou-se uma necessidade, seja para a sobrevivência do Salão, bem como para a adequação às atuais modulações que o conceito de arte vem absorvendo.
Diante desse desafio, o curador paulista argumenta do quão é necessária a construção de um Salão de Abril menos estático. Assim, como um organismo repleto de multiplicidades, interessa estar vivo e capaz de modificar-se e alinhar-se de acordo com as demandas que lhe chegam. É preciso, antes de mais nada, ser um salão capaz de transbordar limites em torno da produção artística. A Casa do Barão de Camocim, ergue-se como um receptáculo de ideias e desconstruções.
A proposta da curadoria foi mediada por uma ação colaborativa. Além de Klein, chamado para conduzir a coordenação desta edição, surgiu a necessidade de agregar profissionais que já tinham alguma ligação histórica com a própria organização da mostra. Para detalhar toda essa construção em conjunto, o curador divide alguns conceitos escolhidos.
"Minha proposta, logo de cara, foi de que a exposição se abrigasse na Casa do Barão, mas que transbordasse na rua e da rua voltasse para o espaço da Casa. Esse conceito de transbordamento é o que orienta e o que foi definido nos aspectos filosóficos, poéticos e curatorial para essa edição", aponta Klein.
As fronteiras do Salão de Abril seriam, nesse sentido, esgarçadas. Interessa lançar luz sobre o que estes artistas provocam e produzem também fora da casa. As obras precisam se adequar com os fatores externos e repercutirem dentro do espaço do Salão. Leituras e a ações que começam na rua e sinalizam com a contaminação e resquícios dessas obras dentro da casa. "A ideia de 'transbordagem', mescla o transbordamento com abordagem. Isso envolve questões filosóficas no âmbito da curadoria onde se busca criar um terreno para a circulação dessas ideias", explica Klein.

Panorama
Para exemplificar bem mais diretamente tais conceituações, Klein cita a participação de alguns trabalhos, como por exemplo a "Intervenção Contra Intervenção", imaginada pelo Coletivo Aparecidos Políticos. Em comum a estes projetos, vale salientar, reside a característica de serem mutantes e se modificarem durante o tempo de permanência da mostra.
Com proposta diferenciada, esclarece o entrevistado, a atividade deste coletivo se lança com caráter situacionista e traça propostas de questionamentos no âmbito da política. Outras ações comentadas são "Leve Uma, Talvez Você Precise", de Júnior Pimenta, onde, no decorrer do Salão, o artista terá a Praça do Ferreira também como espaço de alimentação de ideias.
Em "Cartas aos 31", de Sheryda Lopes Borges, a artista desenvolve um intervenção/performance por meio de cartas fixadas pela cidade que acabam dialogando e construindo dentro do espaço da casa. "A agenda foi desafiadora, a Mostra abre hoje e queremos que não pare de se transformar, de transbordar para a rua e voltar para a própria casa", estima Klein.
Outros trabalhos apontados durante a conversa, seja pelo teor político, como pelo cunho de se integrar com outras linguagens foram "Projeto Para um Sudário", de Cristina Vasconcelos Lima (registro investigativo sobre as pegadas do grupo político Baader-Meinhof em Fortaleza); as videoartes "Quando o Mar" e "Desculpe a Paz Que Lhe Roubei", respectivamente de Lua Alencar e Darwin Marinho.
Essa seleção, garante Klein, atravessa também linguagens já estabelecidas da área. "Não esquecemos de prestigiar e valorizar técnicas tradicionais. Dentro do que foi possível incorporamos pinturas, infografias, gravuras e desenho. Não deixamos de prestigiar as técnicas que antigamente eram chamadas de Artes Plásticas. Porém, ele é hoje um Salão de artes visuais contemporâneo e com grande potência de surpreender e envolver instalações e performances.
Klein divide que este momento é crucial para nova gerações fortes e diversificadas no campo das artes visuais. É uma "satisfação" participar de uma curadoria logo após a realização do Salão Sequestrado em 2017. Ele (o Salão) nasce dos estudantes e sempre foi uma representação da sociedade civil. Participaram Leonilson, Ademir Martins, Sérvulo Esmeraldo, nomes das artes relevantes para o País", finaliza.

Formação
Além da exposição e de todas as reverberações que uma mostra desse porte é capaz, o Salão de Abril abre espaço para o debate e para a troca de saberes. Para concluir essa proposta, o evento apresenta uma agenda de conversas, palestras, workshops e oficinas. Esta programação paralela traz ao Salão nomes tanto já envolvidos na curadoria, como realizadores e pensadores convocados para a ocasião.
A julgar pelas ações propostas, essa teia formativa pode ser de interesse tanto para artistas, como curadores, pesquisadores e o público interessado nas discussões sobre os rumos das artes plásticas no cenário contemporâneo.

Homenageado
Zenon Barreto nasceu na cidade de Sobral em 1918 e viveu a maior parte de seus 84 anos na Capital. Dedicou toda uma vida às Artes Plásticas, atuando como pintor, gravador, escultor, ilustrador e cenógrafo. Atravessou estéticas, trabalhou com materiais variados e, com isso, atingiu uma produção diversificada no meio artístico.
Foi membro da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), instituição na qual ingressou como aluno do Curso Livre de Desenho e Pintura, para posteriormente atuar como professor até chegar à presidência da entidade. Recebeu prêmios importantes no Salão de Abril, no Panorama da Arte Atual Brasileira e na Bienal Internacional de São Paulo.

Mais informações:
69° Salão de Abril, de hoje até 26/6, na Casa do Barão de Camocim (Rua General Sampaio, 1632, Centro). Gratuito. Contato: (85) 3105.1386

Diário do Nordeste

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