O GORILA

por Carlos Ribeiro
O GORILA
Foto: Arquivo pessoal
 proprietário mostrava as suas terras.
 
     - Como podem ver, são cinquenta hectares de solo fértil, cultivado com as mais modernas técnicas agrícolas, enfim, um terreno apto para quantas culturas se queira introduzir. Um negócio da China! - acrescentou, forçando um sorriso para os japoneses que o olhavam impassíveis. Ficou embaraçado com o silêncio daqueles homens - "os donos da grana!". - Então eles pensavam que lhes iria entregar assim, sem mais nem menos, a terra que tanto lhe custara domesticar? "Minha bisavó foi pega nos dentes de cachorro, camaradinhas, mas não pensem que poderão me esnobar somente porque têm hightec e coisas tais".
 
Os japoneses (ele não sabia) estavam impressionados: agradava-lhes sobretudo a ideia de conseguir um produto assim: limpo, bonito, bem cuidado, um presentinho embrulhado com papel de seda e amarrado com lencinho azul. Mesmo que lhes custasse um pouco mais era certo que valia a pena, e dinheiro... bem, dinheiro era o que não lhes faltava! Até aonde os seus olhinhos miúdos podiam ver, tudo lhes parecia estar a contento, perfeitamente calculado e previsível: as terras férteis, o chalé suspenso sobre o lago com suas águas-furtadas, os caminhos de pedra entre as laranjeiras, a grama tratadíssima se estendendo como um tapete até a piscina de água azul-turquesa, os cavalos puro-sangue no estábulo, o movimento discreto dos empregados e a vista - ah! uma vista verdadeiramente bela dos campos além das quadras de tênis e de futebol. Tudo perfeitamente previsível, pensaram com satisfação quase incontida diante do proprietário que perscrutava inutilmente as suas faces.
 
Estavam assim, parados uns diante dos outros, sem saber o que dizer, quando um movimento de início discreto, nos olhos dos japoneses, alertou o proprietário para a possibilidade de que algo inédito acontecia. Os japoneses apontaram para um ponto indefinido na paisagem.
 
O proprietário voltou-se, apreensivo. O que poderia, na paisagem pacífica e silenciosa, causar-lhes tal inquietação? Tudo ali era quietude e beleza, não essa beleza dolorosa e incômoda de cujas profundezas possa surgir, a qualquer momento, uma fera ou um aparentemente inofensivo mosquito cuja ferroada manda o cristão pro inferno ou para um abismo de sofrimento. Ali, todas as cobras, insetos e demais bichos desprezíveis foram exterminados; ali, tudo era devidamente dosado, previsto e controlado de forma a evitar surpresas desagradáveis. "Surpresa é uma palavra que não existe no meu dicionário", costumava repetir o proprietário com orgulho. O que poderia então provocar reações inesperadas em homens de ordinário tão circunspectos e senhores de si?
 
Os japoneses davam pulinhos de excitação.
 
     - Ali! Ali! - apontavam.
 
O proprietário aguçou a vista ao máximo e, finalmente, percebeu que algo se movia no bosque, além das cercas. Era um corpo esquisito que aparecia e desaparecia confundindo-se com as sombras e as folhas, em meio à vegetação, deslocando-se numa velocidade espantosa. Movia-se com gestos bruscos... dir-se-ia até... violentos... curvado sobre si como um corcunda... mas não era um corcunda... ele tinha braços extraordinariamente longos e... pelos!
 
     - Meu Deus! - exclamou o proprietário. - É um gorila!
 
Os japoneses, assustados, olhavam ora para o proprietário ora para o símio grotesco que se aproximava, sem decidirem o que fazer. Mas o que eles, cidadãos honrados do Primeiro Mundo, poderiam fazer diante daquela aberração? No Japão não existem gorilas!
 
Correram, sem discutir, deixando atrás de si um rastro de óculos, sapatos e maletas executivas. O proprietário abriu a porta da casa com um pontapé, diante dos olhos surpresos dos seus filhos, Diego, de 11 anos, e Thyago, de 9, que brincavam com um video-game na sala de estar.
 
     - Fechem tudo! - berrou com ar desvairado. - Ele vem atrás de nós!
 
Num piscar de olhos fechou portas e janelas, empurrou os filhos para o quarto do fundo (onde não havia janelas), selou a porta com o guarda-roupa e uma estante da qual despencaram os últimos lançamentos de Falconi. Um dos japoneses, o mais velho, com ar venerável, ensaiou algumas indagações - O quê? Por quê? - calando-se, no entanto, diante do gesto enérgico do homem que, a essa altura dos acontecimentos, parecia disposto a tudo para se ver livre do gorila.
 
Seguiu-se um silêncio pesado, carregado de expectativas. Mas, oh Deus!, ele não poderia com um simples golpe dos seus braços peludos dividir a porta em duas? Esse baque surdo, esses passos macios, esses grunhidos... Podia-se ouvir os grunhidos do monstro, ele rondava a casa, a morte em forma de macaco com seus dentes sujos de carne fresca, com suas unhas imundas com vestígios de peles das suas últimas vítimas, com seus olhos sanguíneos, com sua baba nojenta, com sua boca violenta e aquele corpanzil, ele, a besta-fera solta no mundo, o Terror!
 
"E agora?", pensou o proprietário, "que poderei argumentar se tudo me foge ao controle como um raio que corta o céu sem nuvens para atingir o coração de um pobre homem que ainda acredita na lógica do mundo, na Lei? Mas como acreditar na Lei, se de repente um demônio surge do nada quebrando sem mais nem menos o sentido das coisas? E o que dirão, meu Deus do céu, aqueles homenzinhos quando saírem porta a fora (se é que alguém sairá porta a fora), o que dirão de mim a boca miúda nos clubes, nos escritórios dos meus concorrentes, com os copos de whisky nas mãos, depois, é claro, que se virem longe deste... paraíso? Eh! Eh! Eh! Era mesmo o que me faltava! Paraíso dos gorilas! Ilha do Dr. Moreau! Casa do Terror! Quem dá mais por este belo sítio? Venham, senhores, participar deste safári! Tragam suas famílias! Venham dar pipocas ao macaco! Visitem a montanha do gorila! Extra! Extra! Ah sim, eles se rirão às escangalhas! E o meu nome será sinônimo de macacada: Alberico, o Rei dos Macacos! O Filho das Selvas! O... ".
 
O japonês mais novo interrompeu as divagações de Alberico.
 
     - Senhor - disse ele fazendo uma leve reverência, inclinando-se para a frente. - O que é... aquilo?
 
     - O senhor se refere a...
  
    - É...
 
     - Oh! - exclamou o proprietário, tentando esboçar um sorriso. Como explicar que se tratava simplesmente de um gorila, talvez um pouco mais impetuoso do que os gorilas costumam ser, mas...
 
     - Deve ter fugido do zoológico, ou de um circo - limitou-se a dizer acrescentando que, no Brasil, não existem gorilas!
 
Uma batida na porta interrompeu o diálogo.
 
     - Querido! - disse uma voz feminina. - Abra! Ele já foi!
 
Era sua mulher. Ele a esquecera lá fora!
 
     - Querida - disse ele, enrubescendo. - Tem certeza?
 
     - Claro, querido!
 
Empurrou os móveis, girou a maçaneta, abriu devagar, enquanto observava atentamente a sala.
 
     - Você está bem, querida?
 
     - Ora, querido! Era apenas o Jonas!
 
     - Jonas?
 
     - É! Jonas! O gorila de estimação do James, o nosso novo vizinho.
 
     - Vizinho?
 
-      Sim! Ele habituou-se a vir comer o lanche das três que coloco para ele na varanda ...
 
     - O James?
 
     - Não, o Jonas! Oh, querido! Você anda tão ausente... Mas não há motivos para... bem... para essas reações tão loucas, tão intempestivas, você não acha?
 
     - Sim! Claro! Era apenas um gorila!
 
O proprietário saiu para a varanda onde ficou parado, meditando profundamente sobre as vantagens de ter um americano e um gorila como vizinhos, enquanto os japoneses, sorridentes, aceitavam o chá que sua mulher muito gentilmente lhes oferecera.
 
     - Acho que podemos continuar o jogo, não é? - disse Diego.
 
     - É - disse Thyago.


Fonte: Bahia Notícias

Comentários

Mais Visitadas

Trinta Anos de Ordenação Sacerdotal do Pe. Geovane Saraiva

Deus, alimento e remédio

Filme luso-brasileiro com índios Krahô vence Festival de Cinema de Lima

Parabéns, Padre Geovane!

Ser estudante