Biografia de Antonio Fagundes revisa trajetória do ator

 por Maria Luísa Barsanelli - Folhapress
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"Sinto uma carência do público", diz Fagundes sobre o teatro no Brasil Foto: Jairo Goldflus
Antonio Fagundes era mascote do Teatro de Arena quando entrou para a companhia de José Renato, Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, em 1966. Tinha 16 para 17 anos, saído de um grupo amador que formara nos círculos de seu colégio Rio Branco, em São Paulo.
No Arena, teve como madrinha a atriz Myrian Muniz e convivia com nomes como Paulo José e Célia Helena. "Eles brincavam que eu era 'relativamente capaz'. Não tinha nem carteira de identidade na época", lembra o ator.
É dessas rememorações que é feito "Antonio Fagundes no Palco da História: Um Ator", livro de Rosangela Patriota que repassa os mais de 50 anos de carreira do artista, em especial sua trajetória no teatro.
A edição é costurada por textos críticos, fotos de arquivo e pesquisas históricas, mas, principalmente, por entrevistas de Fagundes à autora.
Ele dá especial atenção a períodos como o do Arena, seus anos de formação, tanto artística quanto intelectual. Era um espaço onde se conseguia unir arte e política de forma efetiva, algo que não existe mais hoje, na opinião do ator.
"E, quando existe, são algumas ações, não é um movimento. A ditadura, especialmente depois do AI-5, sufocou a discussão inteligente. A gente vê uma tentativa de retomada, mas retomada a partir da onde? Não conhecemos nem a nossa história", lamenta.
O livro ainda reserva um bom espaço à Companhia Estável de Repertório, grupo que o ator manteve durante a década de 1980 e com o qual montou trabalhos como "Cyrano de Bergerac", com direção de Flávio Rangel.
Recursos
A experiência no coletivo, quando Fagundes produzia as montagens, grandiosas e de elencos numerosos, é lembrada por ele ao falar dos mecanismos de produção hoje.
Crítico da dependência de leis de incentivo, ele atualmente financia suas produções com recursos próprios. Dessa forma, diz, consegue fazer temporadas longas e ter retorno de bilheteria - para ele, se uma produção só vive de patrocínio e não depende de ingressos, não há por que ficar longos períodos em cartaz.
"Baixa Terapia", seu espetáculo mais recente, foi apresentado em São Paulo no ano passado todo, passou pelos Estados Unidos, está rodando pelo Brasil e, neste semestre, irá a Portugal. Em janeiro, volta ao Tuca, na capital paulista, onde pretende ficar mais um ano.
"Tenho uma teoria da conspiração: que essas leis incentivo fiscal que o governo propicia para a cultura (como a Rouanet) são para sufocar o teatro", comenta Fagundes.
"Sinto-me sufocado quando tenho que submeter um texto meu à aprovação de pareceristas. Para mim, essa já é uma primeira censura. Depois você parte para uma censura mais grave, que é a busca do patrocínio, por gerentes de marketing. São ótimas pessoas, mas não entendem nada de teatro, eles querem é vender produtos", pondera.
Para manter as produções, contudo, o ator não apenas investe em temporadas longas. Por vezes faz ensaios abertos, cobrando ingressos, e oferece entradas mais caras para quem quiser visitar o camarim após a sessão - em "Baixa Terapia", chegavam a R$ 180.
Também promove conversas com espectadores ao fim do espetáculo. "Sinto uma carência do público com relação ao que a gente faz. O brasileiro não tem ideia de como é o processo de criação teatral. Como é que o público pode gostar de alguma coisa que não tem ideia de como é feito?".
TV e cinema
Fagundes enche plateias, mas muito se critica que seu processo de produção só funciona por ter um nome famoso. "Sempre que eu ouço isso, falo, espera aí, eu não comecei com esse nome, a minha primeira produção eu fiz aos 25 anos, então qualquer um pode fazer sim", afirma. "É que dá um trabalho infernal".
No livro de Patriota, o ator conta como a ida para a televisão foi também uma decisão financeira. "Precisava defender a minha ideologia e pagar as minhas contas".
Mas não foi por falta de dinheiro, e sim por falta de opções no mercado cinematográfico que participou de pornochanchadas nos anos 1970, como "Elas São do Baralho", de Sílvio de Abreu, e "A Noite das Fêmeas", de Fauzi Mansur. "Eu não escondo isso. O passado não me condena".
Fique por dentro

Quando o ator se arrisca como produtor

Ele gosta de política, mas diz não suportar os políticos. Acha que o Brasil às vezes o faz se sentir um idiota. Pintado como bastião moral no filme "Contra a Parede", o âncora de telejornal interpretado por Antonio Fagundes personifica também as ruminações do brasileiro comum, que tem desejos de acabar com "tudo que está aí". Com lançamento neste sábado (11) na sessão Supercine, da Globo, e no Globo Play, o longa de Paulo Pons marca também a estreia de Fagundes como produtor de cinema. A exemplo do que já faz no teatro, ele não contou com recursos públicos. "Porque você perde independência se submete seu projeto a algum escrutínio", diz Fagundes, que não revela o total investido. Na trama, ele vive um jornalista veterano às vésperas da eleição presidencial. Ao descobrir um segredo que pode alterar o pleito, o personagem se bate em questões éticas. "As pessoas estão tendo ideias radicais demais. Queríamos lançar o filme nessa época porque precisamos voltar ao debate público", diz Fagundes. Ele, que durante anos votou no PT, se diz decepcionado, mas ainda não definiu que número apertará nas urnas. "Eu e a torcida do Flamengo".
Livro
Antonio Fagundes no Palco da História: Um Ator
Rosangela Patriota
Perspectiva
2018, 488 páginas
R$ 84,90
Diário do Nordeste

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