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A literatura nos tempos dos seres em redes

"Como trabalhar a autonomia do leitor na ressignificação de personagens, espaço e tempo?"

Por: Diario de Pernambuco

Por Yuri Pires
Escritor e professor de Língua Portuguesa

Muito se tem dito sobre o impacto da atual revolução comunicacional. Seus aspectos mais evidentes são a interatividade das redes sociais, seu impacto nas mídias tradicionais e a hegemonia do hipertexto. Se jornais impressos, rádios e canais de televisão, resistiram no início, agora já se adequaram ou estão em processo de. Mais do que imitar a forma de circulação de ideias, as mídias tradicionais têm buscado refazer seus caminhos na construção da argumentação no entorno dos conteúdos apresentados. Entretanto, quando falamos de arte, este impacto parece restringir-se à distribuição e rentabilidade dos artistas, editores e distribuidores, nada alterando quanto ao conteúdo. Assim parece para quem lê ou escuta artistas e produtores abordando a questão.

Segundo Raimundo Carrero, em seu penúltimo artigo para este jornal (que me motivou a escrever este artigo): “Quando o escritor ou aspirante a escritor pretende, de verdade, construir uma obra, uma verdadeira obra literária, começa por estudar.”. Carrero refere-se, em seu artigo, ao estudo da técnica. Peço licença para complementar: começa por estudar: a técnica, as pessoas e o mundo ao seu redor. Pergunto: para quem escrevem escritores e escritoras da contemporaneidade?
Em artigo publicado em 1953, denominado Esboço de panorama, João Cabral de Melo Neto anota, como tendência da prosa daquele momento: “deixou-se de exigir de uma obra comunicação para exigir-se expressão (...) passou-se a desprezar o que um livro vai ser capaz de realizar, uma vez publicado, e a valorizar-se o que um livro foi capaz de realizar, ao ser escrito.”. Essa tendência segue fortíssima.

O que muda para a geração de leitores acostumada com a interatividade das redes sociais e hipertextos desde a infância? Como trabalhar a autonomia do leitor na ressignificação de personagens, espaço e tempo, num mundo onde a notícia multiplica os atores, começa expondo dados sobre as tempestades de areia do Saara e, após três ou quatro cliques em hiperlinks, leva o leitor a uma análise panorâmica da guerra na Síria? Essas perguntas só têm razão de ser se pretendo formar um público leitor, se escrevo pensando na relação autor-obra-público, se busco contato, ou melhor, conexão com as pessoas do mundo.

Marcel Proust, certa vez, escreveu que “cada leitor é, quando está lendo, o leitor de si próprio.”. Vê e percebe a sua própria vida através das novas perspectivas que a literatura propõe, porque a literatura se propõe mergulho profundo ante a rasidade do senso comum. Como convidar homens e mulheres ao mergulho profundo e à reflexão numa era de textos cada vez mais curtos e fragmentados? 

Para mim, essas perguntas são o centro do debate sobre criação literária na atualidade, mas não as tenho visto à mesa, nos espaços por onde circulam autores e autoras, nem em suas palavras escritas, nem nas faladas.

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