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O testemunho de um homem bom

Trabalha há 25 anos nas missões, em Moçambique. Natural de Amarante, aprendeu construção civil quando emigrou para França e exerceu a atividade quando regressou a Portugal. Sentindo-se chamado à vocação, deixou tudo e partiu para a missão como leigo


Extrovertido e conversador, Tito Abraão é um exemplo de simpatia e boa disposição, um modelo de entrega à causa missionária. É um homem bom, um cristão de fé granítica, um empreiteiro que constrói com competência e mestria, generoso e muito trabalhador. Não será pois de estranhar que a remodelação dos edifícios onde funciona a nova Escola Secundária da Consolata, em Nampaco, no norte de Moçambique, tenha sido conseguida com muito do seu esforço e dedicação. Tem ainda um gosto especial pela arte da barbearia e é de pente e tesoura na mão que gosta de desfiar algumas das histórias que o levaram a optar por ser missionário leigo, enquanto desbasta o cabelo do seu interlocutor. 

A sua primeira motivação era ser padre missionário, mas por vários motivos acabou por desistir do seminário. Regressou a casa e começou a trabalhar na construção. Mas o primeiro convite para partir para terra de missão não tardou a chegar. Foi desafiado pelo bispo de Lichinga, Luís Gonzaga Ferreira da Silva, a ir um ano para o Niassa, a fim de construir uma casa para as religiosas. O bispo quis até pagar o trabalho feito, mas Tito Abrãao nunca teve facilidade em aceitar pagamento pelo seu trabalho e recusou. 

Durante esse tempo, viveu na residência episcopal. Terminado o primeiro ano, mesmo sem qualquer contrato, decidiu continuar mais um ano, e depois outro e mais outro, até que lhes perdeu a conta. Trabalhou sempre com o bispo de Lichinga, até à sua resignação. Chegou a trabalhar nove anos sem ir de férias. Construiu casas, escolas, igrejas, centros de saúde e de tudo um pouco. Com o passar do tempo, a vocação de leigo missionário fortaleceu-se e foi encontrando no dia a dia a confirmação e as razões para ficar: «Fui ficando porque gostei daquilo e a verdade é que tinha vocação, sentia-me bem». 

Ao todo, esteve 15 anos a trabalhar no Niassa. Recebeu até um convite para entrar de novo no seminário, mas o seu percurso convenceu-o de que havia feito a escolha certa e optou por entrar para Leigo Missionário da Consolata. Depois do Niassa, foi destinado à missão do Guiúa onde trabalhou cerca de ano e meio. Após esta breve passagem, regressou ao Niassa, trabalhando na missão de Mecanhelas durante quatro anos. Em 2011, seguiu para Nampula para a obra de construção da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Paz, inaugurada em 2013. Ao mesmo tempo, foi realizando trabalhos para as irmãs, de várias congregações. A última empreitada foi a transformação do antigo Seminário da Consolata em escola secundária.

Graças à sua mestria, os Missionários da Consolata contam agora com um estabelecimento de ensino com oito salas de aula, biblioteca, laboratório, sala de professores, secretaria, salas de direção e de conselho pedagógico e casas de banho. O trabalho deste leigo empenhado foi fundamental para mais um esforço de missão. Depois de tantos anos, de momentos bons e de outros de provação, Tito aceita tudo com a convicção de que «nada existe sem o conhecimento e sem a permissão de Deus». As dificuldades deram-lhe estrutura, contribuíram para o seu esforço de aperfeiçoamento, reforçaram-lhe a perseverança. Quando se lhe pergunta o que perspetiva para o futuro, se pensa ficar ou regressar a Portugal? A resposta sai breve e sem hesitação: «Vou continuar! Vou continuar, enquanto puder».


Fátima Missionária

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