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Petralhas, coxinhas e veados


Por Marco Lacerda*

Em bate-boca ideológico numa tabacaria, a vítima é o sempre indefeso meio-ambiente.Não faz muito tempo, o ator petralha José de Abreu foi insultado num restaurante do Rio por um casal de coxinhas e respondeu às agressões verbais com uma copiosa cusparada na cara de seus ofensores. Mais recentemente, o senador Lindberg Farias, igualmente petralha, foi agredido fisicamente noutro restaurante do Rio. Em ambos os casos, as agressões foram motivadas pelas posições políticas, de conhecimento público, dos agredidos.

Nesta semana, numa conceituada tabacaria de Belo Horizonte, um jornalista supostamente coxinha foi chamado de viado, em alto e bom som, por um desconhecido atento à conversa que o referido jornalista mantinha com um grupo de amigos. De novo, a questão era ideologia.

O que surpreende, no último caso, é que o episódio ocorreu num estabelecimento onde são oferecidos os mais caros charutos cubanos e, portanto, frequentado pela fina flor dos coxinhas, em geral recheados com catupiry. Deixando de lado o preocupante acirramento de ânimos, o mais inusitado foi o fato de o referido agressor lançar mão da palavra veado como forma de ofensa e de homofobia.

Sabemos que o Brasil é um país ignorante, mas às vezes nos brinda com coisas intrigantes ligadas à cultura. Por exemplo, só aqui existe o adjetivo ‘balzaquiana’ (sempre no feminino) para qualificar as mulheres que passam dos 30 anos. A expressão baseia-se no título de um dos piores romances de Balzac, ‘A Mulher de Trinta Anos’, porém, o simples fato de qualquer brasileiro utilizar uma expressão literária para designar a idade de certas mulheres, denota uma intimidade com as letras que a maioria de nós não tem.

Voltando ao insulto em questão, veado – ou viado, como proclamou o agressor – é um mamífero herbívoro, pertencentes à família Cervidae, encontrado em todo o mundo. No idioma português-brasileiro, a palavra viado é uma gíria geralmente depreciativa usada para referir-se a homens homossexuais. O termo originou-se no tempo do Império em praças do Rio de Janeiro onde se reuniam grupos de rapazes para, entre outros objetivos, se prostituírem com clientes ricos. Reza a história que ao serem reprimidos pela polícia, os viados fugiam aos saltos, daí a origem da alcunha.

O certo é que na fritada dos ovos o maior agredido da noite foi um representante da fauna e de um meio ambiente tão violentado através dos tempos. Da mesma forma que as tolices políticas do ator José de Abreu e as sandices do senador Lindberg Farias declamadas nos plenários da Câmara e do Senado merecem reprimendas exemplares, a virulência do agressor da tabacaria mineira não fica atrás. Justificaria um protesto da família Cervidae numa Assembleia Geral da ONU. Se em sua agressão o tal cara tivesse chamado o jornalista de vicha, voneca ou até mesmo voiola, tudo bem. Mas, viado, é de doer. 

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do DomTotal.

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