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Bailarino de Mogi vence preconceito da família e se forma no Bolshoi

Maiara Barbosa
Do G1 Mogi das Cruzes e Suzano

Gabriel começou a etudar ballet aos oitos e, aos 18, se formou no Ballet Bolshoi (Foto: Gabriel Lopes/ arquivo pessoal)Gabriel começou a estudar ballet aos 8 e, aos 18, se formou no Bolshoi (Foto: Gabriel Lopes/Arquivo Pessoal)
A família de Gabriel Lopes, de 18 anos, de Mogi das Cruzes, considerou que o ballet era "fogo de palha", quando ele ainda era uma criança. Hoje, a visão de todos é outra. O rapaz se formou na Escola Bolshoi, em Joinville (SC) nesta semana e diz que a dança é “uma paixão de outra vidas”. Apesar do preconceito do pai e da família, com tradição militar, no início da carreira. A unidade de Santa Catarina é a única do Bolshoi fora da Rússia. A escola é considerada a melhor do mundo.
A história de Gabriel começou quando ele ainda tinha apenas 8 anos. O enredo do filme Billy Elliot se repetiu na vida real com Gabriel: apesar da paixão, o garoto do filme também teve problemas com a família, que era contra suas aulas de ballet.
Na vida real, Gabriel recebeu o apoio da mãe e conquistou uma bolsa em uma escola de dança de Mogi. Com o tempo, seu pai e o avô materno (as figuras mais resistentes da família) também perceberam o talento do menino e, desde então, não perderam uma apresentação sequer do bailarino. “Eu fazia natação e meu pai achava que eu fosse alavancar no esporte. Para ele, foi fogo de palha e ele não deixou de primeira. Depois de um ano, minha mãe foi pesquisando escolas na região e eu consegui uma bolsa. Meus pais estranharam porque eu acho que eles nunca imaginaram que eu fosse gostar de ballet. Mas eles foram comigo até a escola e hoje em dia não perdem uma apresentação.”
Apesar do preconceito no início da carreira do filho, Robson nunca perdeu uma apresentação de Gabriel (Foto: Gabriel Lopes/ arquivo pessoal)
Apesar do preconceito no início da carreira do filho,
Robson nunca perdeu uma apresentação de
Gabriel (Foto: Gabriel Lopes/Arquivo Pessoal)
Hoje o pai de Gabriel, o caminhoneiro Robson Bezerra dos Santos, explica que a preocupação foi por conta dos gastos da família. "A minha esposa me chamou para conversar e me contou que ele estava se interessando por ballet clássico. Eu fiquei em silêncio e foi como se tivesse baixado uma neblina na minha frente, fiquei pensando no tamanho da mudança. A preocupação maior não foi por conta do preconceito de que bailarino é afeminado, mas por conta dos desafios que ele ia enfrentar por conta dos custos, com figurinos, inscrições. Ia ser um custo a mais e, infelizmente no Brasil, nós vemos muitos músicos e dançarinos que dependem de patrocínio."
Ainda criança, Gabriel já fazia desenhos que falavam de ballet (Foto: Gabriel Lopes/ arquivo pessoal)
Ainda criança, Gabriel já fazia desenhos que fala-
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Robson contou ainda que o filho único provou no palco a sua habilidade e, a partir de então, ele e o avô se tornaram os maiores fãs de Gabriel. O pai até hoje guarda atividades que o Gabriel fazia quando criança, que já dava sinais que queria ser bailarino.
Catálogos das apresentações de dança, passagens das viagens e outras lembranças também são exibidas como troféus pelo pai. "Eu fui resistente, não queria participar. Eu aprendi que preconceito é a falta de conhecimento. Quando vi a postura dele no palco, pela primeira vez, e ouvi as pessoas que entendem já traçando o destino dele eu fiquei muito orgulhoso. Eu não tenho ensino superior, mas gosto de ler e um dia ouvi uma frase de Rubem Alves que me faz lembrar do meu filho. Ele diz que ostra feliz não faz pérola. Isso quer dizer que, sem sofrimento, como é para a ostra aquele grãozinho de areia que fica lá dentro incomodando, não vai ter nenhuma pedra rara", conta.
O avô, Armando Simão Lopes, que prestou serviço para o Exército, também relutou em aceitar. Apesar de ser o encarregado em levá-lo para as aulas, por conta dos horários de trabalho dos pais de Gabriel, ele não entrava na escola e ficava esperando pelo menino até o término das aulas na calçada da escola de dança. Anos depois, ele fez questão de subir no palco durante a formatura no Bolshoi para garantir uma foto ao lado do neto.
Avô era o responsável por levar Gabriel para as aulas de ballet (Foto: Gabriel Lopes/ arquivo pessoal)Avô era o responsável por levar Gabriel para as aulas de ballet (Foto: Gabriel Lopes/Arquivo Pessoal)
Aos oito anos, Gabriel ganhou uma bolsa de ballet e começou a estudar na escola de Marcela Campos (Foto: Gabriel Lopes/ arquivo pessoal)
Aos 8 anos, Gabriel ganhou uma bolsa de ballet e
começou a estudar na escola de Marcela
Campos (Foto: Gabriel Lopes/Arquivo Pessoal)
Começo
Antes de ingressar na escola, Gabriel estudou em Nova Iorque e também fez cursos de ballet na Rússia. A professora da escola de ballet que concedeu a bolsa de estudos para Gabriel, em Mogi, lembra que, logo no começo, ele se destava entre os demais alunos.

"Ele era pequenininho, mas tinha muito desejo e vontade. Ele dizia que ia se formar em ballet e ia estudar fora e, no ballet clássico, nós já víamos o talento dele. Era uma pedra bruta que estávamos lapidando: ele ficava ensaiando sozinho, pegava as coreografias mais complexas muito rápido. Eu passei a sonhar junto com ele. É um orgulho muito grande, principalmente por ver que ele não abriu mão do sonho, mesmo diante das dificuldades que passou", conta Marcela Campos.
Bolshoi
O Ballet Bolshoi está há 16 anos no Brasil, em Joinville, no Norte de Santa Catarina. Nesse período, desde a fundação, no ano 2000, quase 270 alunos já passaram pelos corredores da escola. Os treinos acontecem seis vezes por semana e o maior sonho dos bailarinos é entrar para uma grande companhia internacional.

Preconceito é a falta de conhecimento"
Robson Bezerra, pai de Gabriel
Na medida em que ia ficando experiente com a dança, a admiração de Gabriel pelo Ballet Bolshoi foi só aumentando, mas ele não se sentia à vontade para prestar as audições. Com 15 anos, ele pesava 72 quilos e tinha 1,84 de altura. Mesmo assim, ele se achava “gordinho” e o fato de ter que tirar a camisa para os testes lhe assustava.
Mais uma vez, foi a sua mãe quem lhe incentivou a participar de um projeto de dança que se chama Gala Clássica, em São Paulo. “O festival da bailarina Priscila Yokoi não visa a competitividade. Foi uma semana de aula com professores renomados e, no último dia, teria uma audição com um professor do Bolshoi. Eu não ia participar porque tinha medo de verem a minhas gorduras, eu era muito paranóico com isso. Me chamaram para a última parte que era a avaliação física com mais de 200 bailarinos. A bailarina que dançou comigo passou, mas eu não comemorei antes. Na final, quando eu fui aprovado, eu não acreditei. Eu lembro que peguei o certificado e comecei a tremer, não conseguia falar", lembra Gabriel.
Com a aprovação Gabriel tinha sido escolhido para integrar o grupo de 12 bailarinos do Bolshoi. Aos 16 anos ele se mudou para Joinville. “Era uma ideia tão longe para mim ser aprovado no Bolshoi... mudar de casa, ficar longe da família”, comenta.
Além de estudos de dança, baiarinos do Bolshoi precisam fazer apresentações (Foto: Gabriel Lopes/ arquivo pessoal)Além de estudos de dança, baiarinos do Bolshoi paticipam de apresentações (Foto: Gabriel Lopes/Arquivo Pessoal)


Dedicação
O curso do Bolshoi tem duração de oito anos. Mas os candidatos podem fazer algumas provas para serem reencaixados em séries de acordo com a técnica que já possuem. Dessa maneira, Gabriel pulou logo para o sexto ano. Além do ensino regular, ele tinha aulas de dança clássica, dueto, repertório, dança contemporânea, literatura musical e história da dança, por exemplo.

A alimentação, o ensino e uniforme são gastos custeados pela escola de ballet. Já a estadia, por exemplo, fica a cargo das famílias dos bailarinos. Gabriel foi morar em uma casa social com outros bailarinos onde uma mãe social tomava conta dos afazeres das casas para o meninos.
Gabriel foi um dos 19 formandos no Ballet Bolshoi de Joinville (Foto: Gabriel Lopes/ arquivo pessoal)
Gabriel foi um dos 19 formandos no Ballet Bolshoi
de Joinville (Foto: Gabriel Lopes/Arquivo Pessoal)
Enquanto isso, ele seguia uma rotina puxada de ensaios e treinos, que fez com que ele pensasse em desistir algumas vezes. “Eu ficava na escola regular das 7h30 até 11h30. Ia para o Bolshoi, almoçava e fazia aula das 14h às 18h. Depois disso, das 18h até às 19h45 era o nosso tempo de ensaios. Eu não esqueço do primeiro dia de aula, quando vi os outros alunos e o professor perguntou meu nome. Eu era meio atrapalhado, mas naquele momento eu pensei: ou eu me esforço, ou eu me esforço. Eu não posso mentir que esse ano pensei em desistir, parecia que eu não ia conseguir ficar, mas a minha mãe me orientou pelo telefone. Desistir é passageiro.”
Antes da celebração da formatura, o bailarino precisou enfrentar a plateia mais difícil para qual já se apresentou: os professores que fariam a avaliação. Agora, depois de formado e com o diploma de profissional de dança clássica em mãos, ele pretende buscar uma companhia para continuar dançando.
Apesar de sonhar alto, em integrar companhias de dança nos Estado Unidos e Europa, ele também quer ajudar na formação de novos bailarinos na cidade onde nasceu. “Eu quero ter uma escola em Mogi nos padrões do ballet russo, com alojamento, escola e centro de estudos. O meu sonho é seguir com a carreira de bailarino e ajudar mais pessoas que tenham o mesmo sonho que eu.”
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Sonho do Gabriel é fundar uma academia de dança nos moldes do ballet russo, em Mogi (Foto: Gabriel Lopes/ arquivo pessoal)Sonho do Gabriel é fundar uma academia de dança nos moldes do ballet russo, em Mogi (Foto: Gabriel Lopes/ Arquivo Pessoal)

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