Falecido em 2014, poeta Manoel de Barros completaria um século de vida hoje

cChamavam-no, os mais íntimos, de "caramujo-flor", um bicho pequeno que se esconde ao notar que alguém se aproxima. É que Manoel de Barros (1916-2014) era tímido, de personalidade comedida. Falava mais no papel, quando sua persona poeta se solidificava em meio a muitos "eu", "sou", "vou".
Tal trabalho com as palavras - em um constante exercício de lapidação de sua própria expertise - o faz ser reconhecido até hoje como um dos mais respeitados literatos contemporâneos que o Brasil já teve, algo que Carlos Drummond de Andrade já sublinhava na altura de 1986, quando afirmou: "Manoel de Barros é o maior poeta brasileiro vivo".
Vida aquela que talvez não faria sentido, de tão triste que seria, sem "as marcas dos pés", por exemplo. Vida que soava, às vezes, como "fresca e incompreensível/ um mistério suave alisando sempre o coração". Vida que resiste, apesar da voz imprevisível do óbito chegando ruidosamente na ágora, no canteiro central onde reside a alma.
Ainda que esse momento de partida tenha chegado - Barros faleceu em 2014 em Curitiba, vítima de falência múltipla de órgãos - o artesão das letras mato-grossense permanece insone no imaginário nacional. Artista das minúcias, é como é lembrado por muitos. E hoje - quando, se vivo, completaria um século de existência - esses detalhes sobre quem foi e quem continua sendo o homem-poeta soerguem de maneira forte. Talvez para, porventura, lembrar que ele ainda vive.
Trabalhos
Vinculado cronologicamente à Geração de 45 - que teve como seus maiores representantes autores como Clarice Lispector (1920-1977), João Cabral de Melo Neto (1920- 1999) e Mário Quintana (1906-1994) e como metodologia central de trabalho um rigor formal menos relacionado ao padrão estético instaurado pelos escritores de 22 - Manoel de Barros é formalmente ligado ao Modernismo brasileiro.
O autor é apontado como um dos poucos que conseguiu criar um universo próprio, uma forma de se expressar com as palavras que se destacava pelo corrente uso de neologismos e sinestesias, como nos versos "Ele me coisa/ Ele me rã/ Ele me árvore", linhas do poema "Mundo Pequeno", presente no livro "O Livro das Ignorãnças". Chegou a ser comparado a Guimarães Rosa (1908-1967) por isso.
Algo caro também à sua produção escrita é o retrato quase onírico que atribuía aos seus textos, sem, contudo, fugir de um substrato real de recorte do meio. Era uma filosofia desenvolvida por meio de percepções advindas da natureza, dos lugares que percorria, das pessoas que conhecia, variantes de uma equação certeira.
Já no seu primeiro livro, publicado em 1937 - intitulado "Poemas concebidos sem pecado" - percebia-se um talento inequívoco de inclinação do jovem Manoel para o corriqueiro, o ordinário, algo que aproximava a técnica escrita da modalidade falada. Tal feito, inclusive, perdurou-se até sua última obra, "Portas de Pedro Viana", publicada em 2013 no Brasil e no exterior - assim como seus outros 33 títulos antecedentes.
O teor prolífico de sua produção rendeu-lhe a cadeira número 1 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, além de dois prêmios Jabuti de Literatura - em 1989 com o livro "O Guardador de Águas" e, em 2002, com "O fazedor de amanhecer" -, bem como honrarias como o Prêmio Nacional de Poesias, o Jacaré de Prata da Secretaria de Cultura do Mato Grosso do Sul e o Nacional de Literatura do Ministério da Cultura, entre outros.
Lançamentos
Em novembro de 2013, a editora Leya lançou o box "A biblioteca de Manoel de Barros", com todos os poemas do autor. Ao todo, 18 volumes compõem a versão. Um texto inédito - "A Turma", escrito no mesmo ano, o último criado por ele - e mais cinco livros infantis de sua autoria também fazem parte da edição especial.
Já no segundo semestre do ano passado, o selo Alfaguara, da editora Objetiva - que adquiriu os direitos da obra do poeta três semanas antes de sua morte - lançou "Meu Quintal é Maior do que o Mundo", título tirado de um poema, "O Apanhador de Desperdícios".
A obra tem prefácio escrito pelo escritor e crítico literário José Castello e traz ainda um fac-símile de uma carta de 1992 escrita pelo filólogo carioca Antonio Houaiss (1915-1999) para Barros. Outros 21 livros do autor também foram publicados pelo selo logo depois.
Por fim, há de se esclarecer que - para além do registro documental da trajetória do literato - este é um texto de vida. Sobre aquele "mistério suave" que o poeta falava. Sobre os instantes certeiros em que se fez realidade a poesia que ele trazia impresso no olhar e nas relações que empreendia. Sobre um Manoel de Barros que merece vivas. Vivas sob o codinome caramujo-flor.
Diário do Nordeste

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