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Box de fotolivros visa descortinar as sutilezas do cotidiano fortalezense no CDMAC

Imagens que integram o box "Séries sobre o sutil": detalhes da urbe, em diferentes perspectivas, ganham destaque ( Fotos: Beto Skeff/Alice Cadena/Divulg. )
Perceba o que diz o teórico Walter Benjamin (1892-1940) no livro "Rua de mão única" (Brasiliense, 1995), uma de suas principais obras: "Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém que se perde numa floresta, requer instrução. Nesse caso, o nome das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar do graveto seco ao ser pisado, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrões de meus cadernos foram os primeiros vestígios".
Os escritos são as percepções que o estudioso compilou a respeito de seu andar pela urbe, exercício corriqueiro, porém carregado de subjetividade. Nesse processo de documentação do real, é curioso notar, então, que Benjamin como que inaugura um olhar aperfeiçoado sobre o cotidiano, trabalhando com um conceito que emerge da necessidade de se perceber a cidade como lugar a descobrir.
Semelhante tarefa tiveram os sete fotógrafos que integram o box de fotolivros "Séries sobre o sutil", projeto que chega às mãos do público nesta terça-feira (14), às 19h, no Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC): perderam-se na amplitude territorial de Fortaleza para encontrar vestígios de uma metrópole em construção, cujos detalhes só costumam aparecer a partir da saída, do egresso.
O trabalho - contemplado pelo Edital de Concessão a apoio financeiro à produção e publicação em artes de 2016, do Instituto Bela Vista em parceria com a Secultfor - chega com dois intentos principais: comemorar quatro anos de atuação do coletivo de fotografia Descoletivo na cidade e convidar os fortalezenses, de maneira especial, a parar e refletir sobre os detalhes que compõem o epicentro urbano onde vivem e residem.
Não à toa, a publicação será distribuída gratuitamente e deverá chegar - mediante convite de interessados - a instituições públicas, ONGs e escolas.
Proposta
Permeando o conjunto da ação está a ideia de mapeamento do que geralmente é marginalizado em Fortaleza, algo que, inclusive, pode ser naturalmente projetado em outras cidades. Tudo, no entanto, com interessante particularidade do grupo à frente do projeto.
"Desde o início do Descoletivo, temos a necessidade de recortar afetivamente e com carinho o ambiente em que vivemos. Esse trabalho dialoga muito com isso, com esse andar atento e amoroso, embora não menos crítico, do cotidiano", conta Régis Amora, um dos integrantes.
Assim sendo, diferentes temáticas e segmentos - que vão da poda das árvores aos pormenores da violência na Capital - sustentam um discurso maior, cuja ênfase reside no destaque ao que é considerado menor. São arestas captadas através das lentes de Alice Cadena, Beto Skeff, Filipe Acácio, Jean dos Anjos e Thadeu Dias - todos cearenses e selecionados por meio de convocatória -, além de Marília Oliveira e do próprio Régis Amora.
Colaboração
"Há aproximadamente cinco meses a gente vem se reunindo para discutir o que queríamos enfocar no trabalho. Foi um processo inteiramente colaborativo, onde primeiro colocamos nossas percepções individuais para depois lançarmos essas ideias ao grupo em geral, composto pelos outros selecionados. Algo muito rico", afirma Jean dos Anjos, um dos convocados pela seletiva.
O artista participou, junto ao Descoletivo e com os outros selecionados, de uma espécie de residência fotográfica, modulando debates, criações e diálogos.
Especificamente sobre os registros que fez para a ação, ele sublinha que a temática que idealizou versa sobre as encruzilhadas da urbe, dos encontros e possibilidades, das esquinas, do povo da rua e da representação religiosa da Umbanda. "São pessoas geralmente condenadas à invisibilidade. E a forma como a gente mostra isso é sutil, levando bastante em conta os percursos que fazemos, o modo como olhamos para aquela realidade".
Uma vivência que, para Jean, foi propulsora de um desejo maior de parar e ver aquilo que está além da janela dos ônibus e dos automóveis durante o trânsito pelo espaço urbano. O profissional, residente no bairro Cidade 2000, frequentemente ia ao Bom Jardim para fazer as fotos que integram o trabalho. Um caminho que foi traçado visando notar o redor com altivez e sensibilidade.
Olhar sociológico
Assinando o texto de apresentação do box está Glória Diógenes, professora titular do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Nele, a acadêmica se debruça sobre ideias que dialogam tanto com a materialidade da fotografia quanto com seu aspecto íntimo e pessoal.
"Ao aproximar o olhar dessas imagens em Séries, experimente, há o alento de um corpo poroso, que se deixa visitar pelo que vê. Cede-se, assim, ao compasso de visões que estreitam e conectam poetas do vazio, elas e eles, dispositivos sutis de passagens entre fortalezas", escreve.
Fortalezas, assim, no plural: perspectiva a ser explorada tanto pela representação da cidade nos desenhos fotográficos de Thadeu Dias; nas intervenções presentes de forma específica no Poço da Draga, lugar onde Alice Cadena reside e atua; e nas fotos encontradas no lixo que se cruzaram com outros trabalhos desenvolvidos pelo Descoletivo, formando uma narrativa única. Apenas alguns exemplos do que poderá ser conferido no box.
"Com o trabalho, a gente se afirma enquanto coletivo, mostrando um pouco de nossas ações", conclui Régis. "E, claro, através de sua distribuição gratuita, motivamos o fomento à discussão em torno do fazer fotográfico no espaço cearense, nosso maior objetivo". O convite para a imersão, então, está aberto.
Mais informações:
Lançamento do box "Séries sobre o sutil", do coletivo de fotografia Descoletivo. Nesta terça-feira (14), às 19h, no Auditório do Dragão do Mar (R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Gratuito. Contato: (85) 3488.8600
Diário do Nordeste

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