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Filho de trabalhador rural e professora, campeão de matemática é aceito no MIT

Quando pegou gosto pela matemática, João César Campos Vargas morava em Passa Tempo (MG) e estudava em uma escola estadual onde a mãe é professora. A paixão pelos números o levou para escolas em Belo Horizonte e, depois, em São Paulo. Agora, aos 18 anos, se prepara para ficar ainda mais distante da cidadezinha mineira de 8 mil habitantes: João César é um dos quatro brasileiros aceitos em 2017 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Os nomes dos novos aprovados foram divulgados na noite de terça-feira (14), o Dia do Pi. O MIT fica em Cambridge, nos Estados Unidos, e é uma das universidades mais importantes do mundo, reconhecida no campo da tecnologia e das ciências exatas, mas com destaque também nas áreas de humanidades como economia e negócios.

Colégio federal e bolsa particular

João César gosta de Minas Gerais, pensa em voltar em morar em Belo Horizonte, mas acredita que se tivesse ficado por lá, onde se mudou para estudar em um colégio técnico ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), teria mais dificuldade em ‘aplicar’ – termo usado para disputar vagas em instituições nos Estados Unidos.
No ano passado, Vargas se mudou para a cidade de São Paulo para cursar o terceiro ano do ensino médio no Colégio Etapa. Na escola, teve o talento reconhecido com uma bolsa integral e teve ainda hospedagem bancada para poder se concentrar somente nos estudos.
Já consciente de que seu exemplo pode servir como exaltação irrefletida ao ensino público, ele reconhece a importância das oportunidades que teve e ressalta que é preciso esforço e estrutura para alcançar um objetivo como a aceitação no MIT.
"Esforço sem as oportunidades certas podem não resultar no que você quer. Mas só as oportunidades sem esforço, não dá. Eu acho que me esforcei bastante e tive as oportunidades certas.”
O processo de seleção das universidades americanas (o nome em inglês é application), inclui provas, testes de proficiência em inglês, redações, cartas de recomendação, entrevistas e análise das atividades extracurriculares.

Olimpíadas x oportunidades = MIT

João César diz que o pai, Leonel Vargas, trabalhador rural aposentado, tem uma “ideia vaga” sobre o que é o MIT. Mas o avô, por exemplo, não faz nenhuma noção. A mãe, Helena Maria, professora de história, conhece a importância do instituto. Mesmo especialista em humanidades, a educadora conhece a importância do MIT para estudantes de todo o país que participam das olimpíadas de matemática.
Foi justamente nesse tipo de competição que João César se destacou e viu seus horizontes se abrirem. O mineiro conquistou sua primeira medalha na Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas enquanto cursava o 6º ano do ensino básico.
"Agora olho pra trás e penso que tudo isso pode ter começado com uma simples prova da OBMEP que minha mãe me trouxe na minha terceira série", comenta.
"Agora olho para trás e penso que tudo isso pode ter começado com uma simples prova da OBMEP que minha mãe me trouxe na minha terceira série"
Atualmente, a coleção tem cerca de 20 medalhas, incluindo uma prata na competição internacional do ano passado, em Hong Kong. Vargas viajou para países como Moçambique, Uruguai, Tailândia, Romênia e Chile para competir representando o Brasil.
“No começo eu só via a Obmep [Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas], depois conheci outras olimpíadas, almejei as internacionais, fui agarrando as novas oportunidades que surgiam. Soube que podia disputar vaga nos Estados Unidos e essa ideia me atraía muito, em especial o MIT porque é muito forte em matemática.”
Essa é a área que João César quer estudar, pensa em virar pesquisador e dar aulas em uma universidade. Fora ou dentro do Brasil. Para ele, as olimpíadas foram fundamentais para ver um lado menos conhecido da matemática.
“Comecei a gostar de matemática bem cedo, entrei para um programa de iniciação científica e também estudava por conta própria. Cada vez que eu fazia os problemas e descobria coisas novas, eu me sentia mais interessado”, diz.

Espera por resultados

João César ainda aguarda o resultado de outras universidades que também aplicou – entre elas, Princeton, Harvard, Stanford e Yale. Também precisa das respostas dos pedidos de bolsa de estudo, que são concedidas a partir da situação socioeconômica da família. Um curso em uma universidade americana de ponta custa, em média, R$ 700 mil reais pelos quatro anos de estudos, incluindo despesas com hospedagem e alimentação.
Para conseguir um ‘sim’ de universidades tão prestigiadas como o MIT, que são buscadas por alunos excelentes de todo o mundo, João César diz que as instituições valorizam o interesse específico do candidato.
“Mas como existem muitos alunos com esse perfil, é necessário ter um diferencial. Algo que as universidades olhem e acreditem que você é especial. Em geral, é o conjunto de fatores que vai fazer você ser quem você é. No meu caso, a matemática foi um diferencial, mas acho que meu background, o fato de eu ter vindo de escola pública ajudou.”
João César Vargas tem 18 anos e nasceu em Passa Tempo (Foto: Leonardo Pessanha/Divulgação)
Do G1

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