Austrália, Canadá e EUA inspiraram base curricular do Brasil

Uma das referências para a elaboração da base nacional curricular divulgada nesta semana pelo MEC (Ministério da Educação), os Estados Unidos derraparam ao implementar nacionalmente a proposta nas escolas.
O chamado "núcleo comum" daquele país lançado em 2010 foi negado por estados como o Texas, o maior dos EUA depois do Alasca.
O documento que dá referências do que deve ser ensinado nas escolas norte-americanas levou mais ou menos três anos para ficar pronto.
Um tempo semelhante ao da elaboração da base curricular do Brasil: aqui, a discussão começou em 2014. A primeira versão da base foi lançada em setembro de 2015.
Agora, o documento de 396 páginas que dá referências do que deve ser ensinado na educação infantil e fundamental do país foi entregue na quinta (6) pelo MEC para apreciação do CNE (Conselho Nacional de Educação).
Se aprovado neste ano, deve começar a valer em 2019.
Outras inspirações internacionais para a elaboração do documento brasileiro, no entanto, levaram bem mais tempo até as salas de aula.
Na Austrália, por exemplo, a base curricular lançada em 2009 chegou a ser discutida por cerca de 20 anos. No meio do caminho, houve debate entre os Estados e treinamento de professores -o que, no Brasil, ficará para a etapa da implementação.
Juntos, EUA, Austrália e Canadá são as principais inspirações para o documento curricular brasileiro.
De acordo com o secretário de educação básica do MEC, Rossieli Soares da Silva, o governo brasileiro olhou também as bases da França, Chile, Portugal e Reino Unido "entre outros países".
O tempo de preparo e de implementação da base curricular varia. Está relacionado com o que cada país considera importante no debate.
"Não existe um tempo médio ideal. Depende do cenário local", diz David Plank, brasilianista e especialista de política de educação da Universidade Stanford (EUA).
"Em muitos países asiáticos, o debate entre especialistas é o único que importa. Então a adoção de novas normas move-se rapidamente."
A Coreia do Sul é um desses países. Conta com uma base nacional curricular desde 1954. Hoje, o país já está no sétimo currículo nacional, lançado em 2009 (algo comum entre os países que já têm base: o currículo muda com o tempo).
MILHÕES DE IDEIAS
No Brasil, o processo de construção de um documento de referência curricular tem incluído uma série de consultas públicas -até pela internet, de onde vieram, diz o MEC, mais 12 milhões de sugestões após a divulgação da primeira versão da base.
Esse modelo que mistura governo, acadêmicos, professores e pais ainda continua.
A expectativa do CNE, de acordo com o presidente do conselho, Eduardo Deschamps, é fazer mais cinco audiências públicas.
Isso significa, na prática, que o texto pode mudar.
A base curricular entregue ao CNE dá referências do que deve ser ensinado em quatro áreas: matemática, ciências da natureza, ciências humanas e linguagens.
É um modelo diferente dos EUA. Lá, o currículo ficou restrito ao ensino de linguagens e de matemática. Passou a bola para que os sistemas de ensino decidam sobre áreas do conhecimento mais polêmicas e sensíveis, como história.
Já no Canadá, há indicações do que deve ser ensinado por ano letivo em 11 áreas do conhecimento como inglês e estudos sociais.
No 2º ano, em educação para carreira, espera-se que os estudantes consigam "compartilhar ideias, informação, sentimentos e conhecimento com os colegas".
Em saúde, no 9º ano, a expectativa é que os alunos "analisem estratégias para reagir à discriminação, estereótipos e bullying".
Também no Canadá, tecnologia e programação aparecem como conteúdo obrigatório -algo que ficou de fora do documento brasileiro.
"Vai completamente contra o que o mundo está fazendo", diz Paulo Blikstein, considerado um dos maiores especialistas do mundo em tecnologia e educação. "Como esperamos ter mais cientistas e engenheiros no futuro?"
MILHÕES DE DOCENTES
Passando pelo CNE, a expectativa do MEC é começar o treinamento de professores em 2018. A implementação teria início no ano seguinte.
"O governo esquece que temos cerca de 2 milhões de professores [na educação básica do país]. Como vamos treiná-los em um ano?", diz João Palma Filho, especialista da Unesp em políticas curriculares para educação.
Palma Filho destaca ainda a falta de infraestrutura nas escolas como um risco de que a implementação derrape.
Há pouco risco de que os Estados resistam ou rejeitem a base nacional, diz Plank, de Stanford, "O federalismo dos EUA é muito diferente."
A base vai definir até 60% dos currículos. O restante fica a cargo dos sistemas de ensino municipais e estaduais e das escolas privadas.
Folha de São Paulo

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