Livro "Dois" convida o leitor a imergir num mundo de poesia e ilustrações

Da forma como chegam às mãos do público, os livros-objetos também podem ser denominados "livros de artista". Isso porque essas publicações elegem o conceito de "Arte Total" - bastante difundido entre artistas modernos no início do século XX - como maneira de estetizar objetos cotidianos, fazendo do que seria uma simples obra impressa algo a mais: uma pequena e exclusiva obra de arte.
Dentre os exemplares mais conhecidos que contemplam esse tipo de técnica editorial e criativa, estão "Destrua este diário" (Intrínseca, 2012), da canadense Keri Smith, e "Tree of Codes" (Visual Reference Pub, 2010, sem tradução para o português), do norte-americano Jonatan Safran Foer, além de alguns outros.
Em comum entre eles, o fato de subverter a lógica da narrativa textual, colocando-a em segundo plano, e dando lugar, por sua vez, a uma narrativa plástica.
Diálogo com leitor
São referências que também se pode encontrar no livro "Dois", dos publicitários Marcel Barros e Pevê Azevedo, especialmente nas últimas páginas desta que é a primeira obra lançada pela dupla.
É nesse espaço que os leitores são convidados a também compôr um poema, fazer uma ilustração, dois componentes, a propósito, que integram o exemplar.
A obra será lançada hoje (12), a partir das 18h, no Floresta Bar, quando deverá vir à tona tais diferenciações. "Pensamos que seria interessante fazer com que o livro fosse exclusivo para a pessoa que o comprou. Que ela construísse, com a gente, o conteúdo que desenvolvemos", explica Marcel Barros.
Disponível no valor de R$ 35, a publicação pretende, assim, promover a fruição artística mediante a interação de ambas as partes: do duo idealizador e de quem se dispuser a imergir nos versos escritos e ilustrados, um enlace que se pretende efetivo, frontal.
Um de cada
Há muito escrevendo poemas - ora engavetados, ora que puderam ganhar novas texturas com o tempo -, Marcel Barros conta que a ideia para desenvolver o livro bebe do formato "um de cada", em que, para cada criação sua, há uma ilustração complementar feita por Pevê Azevedo.
"De alguma forma, os temas que trago com os poemas fazem um bom diálogo com os desenhos do Pevê", avalia o publicitário. "São sobre o amor, sobre política e com forte crítica social", completa ele. Assuntos intrigantes, porém que chegam de uma maneira delicada - caso, por exemplo, do poema "Rua".
Nele, Marcel descreve, em primeira pessoa, o cotidiano de um eu lírico que mora nas alamedas de uma cidade em pleno dia de chuva.
Em versos rápidos, o poeta evoca não apenas a condição do indivíduo retratado, como também impressões sobre a urbe, a dimensão que o espaço social exerce sobre alguém que tem o céu como telhado. Sobre a solidão.
"Olha aí o vento frio voltando a soprar/ E não tem ninguém para nos abraçar/ Continuamos aqui a sós/ Cobertos em maus lençóis", é como se sobressai a sensibilidade de Marcel.
E o traço ilustrativo de Pevê vai junto: coberta por um manto preto, uma pessoa em desenho tem a cidade em seu interior, o que a faz tomar para si as dores e perspectivas de um ambiente em permanente construção.
Identificação
Dois dos maiores intentos da dupla com a publicação é fazer refletir sobre os assuntos abordados - gerando identificação e empatia por parte do leitor - e permitir que as pessoas se surpreendam com sua própria capacidade de criar histórias e desenhos.
"Essa questão de os leitores poderem interagir conosco enquanto idealizadores é bacana porque o livro cumpre com nosso desejo de ser apenas da pessoa, traduzindo sua imaginação, seus dotes artísticos", comemora Marcel.
Por isso as últimas páginas casam ilustrações e poemas. Nessa seção, inclusive, eles vêm sozinhos.
Num certo momento, frente a um desenho, espera-se que se crie um poema; no outro, dado um poema, espera-se que se esbocem linhas ilustrativas. É um exercício de correspondência.
"Dois", assim, é leitura, escrita e desenho. Ou vice-versa. Independentemente da ordem, vale o esforço dos autores em pôr mais um trabalho no mercado que não se limite ao recorte tipográfico.
De forma inteligente, o trabalho compreende que o livro é signo, linguagem espaço-temporal que, quando desconhece padrões de forma, pode chegar junto e chegar bem.
Mais informações:
Lançamento do livro "Dois". Hoje (12), às 18h, no Floresta Bar (Av. Santos Dumont, 1768, Loja 01, Aldeota). Valor: R$ 35. Disponível no site da Editora Premius
Image-0-Artigo-2227096-1
Livro 
Dois
Marcel Barros e Pevê Azevedo
Editora Premius
2017, 96 páginas
R$ 35
Diário do Nordeste

Comentários

Mais Visitadas

As dores da humanidade

Tudo começa com o caderno de caligrafia

14 etnias não têm seu idioma original preservado no Estado do Ceará

Adjetivando a vida

Intolerância: arma dos preconceituosos