Professora paraibana consolida trinta e cinco anos de incentivo à formação musical de cantores cearenses

Já se vão mais de três décadas desde que Maninha Motta deu início a uma trajetória profissional que contribuiria para a formação musical de inúmeros cantores cearenses. Com a Escola de Canto que leva seu nome e tem como lema "descobrir e revelar talentos", ela já acompanhou o desenvolvimento de Gustavo Serpa, Paulo José, Joyce Malkomes, Majorie Gutierres, Helder Savir, Gabriela Santana, Giovana Bezerra, Débora Cidrack e Naira Costa, apenas para citar alguns exemplos. As duas últimas, aliás, conquistaram um público massivo ao participar do programa The Voice Brasil.

O investimento que Maninha fez na própria carreira é uma das coisas que influencia quem se agrega ao projeto que ela coordena em Fortaleza. Afinal, o som desta paraibana passou as cidades de Recife, Bahia, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, e mesmo outros países, como Espanha, Roma, Alemanha e EUA. Por cada lugar desses em que passou, esteve aprimorando suas técnicas musicais. Hoje, a professora divide com quem compartilha do mesmo apreço pela música, tudo que aprendeu ao longo dos anos.

"Meu dom é esse; descobri na Alemanha. Eu era mais feliz em transmitir aquilo que eu passei a vida inteira estudando do que em subir no palco e receber aqueles aplausos. É importante o aplauso? Sim, muito importante. Mas, para mim, é ainda mais ver uma pessoa começando e acompanhar esse processo, que é de disciplina", observa Maninha Motta.

Formada em Canto Lírico pela Universidade Federal da Paraíba, ela se dedicou à flauta transversa como instrumento complementar em sua formação. Os professores Francisca Berlamino Porto (Paraíba), Carmerla Matozzo (Recife), Grayson Hist (Bahia), Martha Herr (Unesp), Odete Enest e Francisco Frias (Brasília), Neyde Thomas (Curitiba), Alfred Kraus (Madrid) e Lena Smith Carter (Boston) foram, para Maninha, o que ela é atualmente para as crianças e jovens que vão diariamente à Escola de Canto.

A lição, a princípio, pode intimidar. "Trabalhamos com o instrumento mais difícil do mundo", define a professora. Para ela, é necessário entender processos internos a fim de melhor cantar. "Se eu sei que sou meu instrumento, meu corpo inteiro é o instrumento, não posso pensar que é uma forma vocal, é meu pensamento. Se eu não entendo meu processo interno, eu não vou saber externar. Quando essa questão não é bem resolvida, é um problema", explica.

Emoção

Em plena atividade, a Escola de Canto que Maninha coordena atende - além dos que procuram por uma profissionalização na área -, cerca de 65 crianças do Papicu. Os pequenos, com idade entre 6 e 14 anos, vão todos os sábados ter uma experiência musical no projeto social Vivência, que existe há três anos. "Quero que essas crianças tenham um momento diferente. Elas vêm para aprender a cantar, e também para ter a oportunidade, a emoção de subir no palco", conta a professora, que já levou o grupo para apresentações nos teatros Via Sul e José de Alencar.

O emocional é, aliás, um dos pontos que Maninha mais valoriza nesse processo de formação. "O aluno recebe a formação técnica, ele aplica na música, mas eu preciso treinar o emocional dele. Como é que treina? No palco", afirma. E por isso mesmo, há dois anos também tem realizado o projeto Cantarte. Ele surgiu como um laboratório, com apresentações no Dragão do Mar, mas esse ano foi transferido para o Theatro José de Alencar. Toda última quinta-feira do mês, seus alunos se apresentam no palco principal.

A parceria com o TJA também se estende ao dia 17 de cada mês, quando o grupo abraça a rua. "Noventa por cento das pessoas que trabalham próximo ao teatro nunca entraram nele, então decidimos levar a arte pra fora, ir para a calçada, aproximar mesmo: todo artista tem que ir aonde o povo está, como canta Milton Nascimento", reflete.

A base

Com passagens da música erudita ao repertório popular, Maninha prefere não estabelecer grandes divisões nesse universo. "A base é erudita para todos: respiração e apoio. É a base do canto. Se você não sabe respirar, não sabe cantar. O que vai diferenciar um estilo do outro é a colocação da voz. Eu não posso cantar ópera com uma colocação de música popular, nem vice-versa".

A partir dessa premissa, ela dirigiu inúmeros espetáculos, escreveu o livro "Superando o sonho", com lições de técnica vocal. No próximo semestre, lança um novo - "A consciência do instrumento vocal". Maninha se apresentou em óperas, como "La Boheme", "Gianni Schicchi" e "Turandot", de Puccini; "Carmen", de Bizet, "Don Giovanni" e "Le Nozze di Figaro", de Mozart. Como artista, integrou o elenco da ópera "Ainda", do italiano Giuseppe Verdi, na montagem apresentada no Castelão em 1995, um marco histórico da música erudita de nosso estado.

Projetos

Sobre as novidades neste ano de comemoração, ela adianta o relançamento do livro publicado em 1997, agora com um novo título e alguns acréscimos. A tiragem de 1 mil exemplares ficará disponível nas principais livrarias. Além disso, um espetáculo em homenagem ao cinema, destacando cenas de diferentes filmes da história, deverá ser apresentado em novembro pela turma de alunos. A ópera "Gianni Schicchi", de Puccini, também deve sair do papel em breve.

Mas há uma outra grande surpresa reservada para antes disso, ainda em agosto. A professora subirá ao palco do TJA como solista. Segundo ela, esse desejo tem sido despertado na comemoração dos 35 anos de trajetória no Ceará. "Eu nunca canto. Sempre fico atrás, nos bastidores, como uma mãezona, mas agora estou querendo curtir também. Vou cantar tudo que me dá prazer, desde a ópera até a música popular, amo a bossa nova. É um momento meu. Já ajudei muita gente, agora vou curtir. Eu mereço, né?", brinca. Merece, sim, Maninha.

Mais informações:

Escola de Canto Maninha Motta (Rua Professor Heráclito, 868 - Papicu). Contato: (85) 2181.4977

Diário do Nordeste

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