Antologia reúne contos pouco conhecidos e histórias clássicas de um dos gênios do romantismo alemão

De Ernst Theodor Amadeus Hoffmann, costuma-se destacar uma capacidade de antecipar cenários futuros. Não à maneira da ficção científica, que concebia tecnologias que só seriam viáveis muitos mais tarde. Em suas histórias, pensadores de diversas disciplinas encontraram personagens e comportamentos que, em sua individualidade literária, ilustram padrões sociais estabelecidos mais adiante.
Exemplo famoso é o do conto "A Janela de Esquina do Meu Primo" (de 1822, editado aqui, no começo da década, num volume autônomo, pela Cosac Naify). Hoffmann transforma a observação de uma praça pública em uma trama, na qual emerge uma figura que, àquela época, ainda não havia se feito presente na literatura. Sua ideia de "multidão" ecoaria na obra de escritores como o francês Charles Baudelaire e do norte-americano Edgar Allan Poe - e, destes, irradiaria para muitos outros, sobretudo até a primeira metade do século XX.
Uma nova antologia brasileira do trabalho de Hoffmann acaba de ser lançada no Brasil. A leitura das histórias reunidas em "O reflexo perdido e outros contos insensatos" ajuda a entender os mecanismos da literatura do alemão, além de lembrar (ou informar, ao leitor de primeira viagem) que as habilidades do escritor vão bem além desta "futurologia".
Figura proeminente do romantismo alemão, Hoffmann foi um autor de primeira grandeza, do tipo que supera a própria escola em que sua obra é classificada. Há traços marcantes e recorrentes em sua escrita - uma assinatura de estilo e de obsessão literária por temas que lhes são próprios. Sem se encerrar em um território inequívoco, as histórias de Hoffmann costumam adentrar os domínios do fantástico e, em alguns casos, aquilo que mais tarde se chamaria de terror. Estão lá a sua paixão pela música - o "A" de seu nome vem de Amadeus, pré-nome de Mozart, adotado em prova de sua devoção à arte do mestre; o homem cotidiano que vê o tédio ser afastado pelo insólito; figuras que se opõem ao humano e o questionam (o autômato, o duplo).
Escolhas
O conto que dá título ao livro foi publicado, em 1814, na primeira coleção de histórias curtas de Hoffmann, "Quadros fantásticos à maneira de Callot". Seguem-se narrativas de outras duas coletâneas, "Contos noturnos" (1817) e "Os irmãos Serapião" (1819). À primeira vista, a escolha da organizadora, Maria Aparecida Barbosa, pode parecer demasiado dedicada a um momento apenas da obra do autor. Contudo, vale lembrar que, apesar de prolífico em sua obra, Hoffmann viveu pouco. Tinha apenas 46 anos, quando morreu em 1822.
A escolha de Maria Aparecida Barbosa pode ser vista como uma forma de chamar atenção para uma narrativa de Hoffmann que, para o leitor brasileiro, ainda é pouco conhecida. O alemão, no entanto, não é o tipo de autor que está sempre em catálogo pelos lados de cá, de forma que um volume que reúna suas principais histórias não é desimportante, frente a um que privilegia "novidades". A coletânea da editora Estação Liberdade tenta fazer as duas coisas. Daí a inclusão daquelas que são, certamente, as histórias de Hoffmann mais conhecidas entre nós: "O homem de areia" e "O quebra-nozes e o rei dos camundongos".
Irrealidades
"O reflexo perdido" é uma trama que investe em um tema clássico, sem repetir os clássicos que o precederam. O narrador é homem que, após ter perdido a razão, perambula nas ruas. Sua queda é então rememorada: uma história cheia de reviravoltas, iniciada após uma noite de bebedeira. O narrador, que havia encontrado uma antigo amor e a cortejado sem sucesso, encontra um estranho numa taverna, que trava com ele uma discussão cheia de tópicos estranhos. Sem estragar as surpresas para o leitor, é uma trama sobre a venda da alma ao Diabo, sem a grandiosidade cósmica da lenda de Fausto.
A narrativa faz um mergulho em si mesma. Pode-se tomar a trama como uma espécie de suporte para reflexões - sobre desejo humano, por exemplo. Impressiona, como acontece em Hoffmann com frequência, o experimento formal, a narrativa escapando da antecipação do leitor; o escritor se negando a entregar o óbvio.
"O quebra-nozes e o rei dos camundongos" tem pontos de contato com "O reflexo perdido", com a presença do sobrenatural e a trama que, aparentemente óbvia, torna-se mais e mais complexa. "O homem de areia" também surpreende, por se apresentar como uma espécie de história de fantasmas e tomar um rumo que nada tem de místico. E nisso Hoffmann antecipa os horrores de autores que vieram bem depois dele; aqueles para quem o pavor está não no irreal, mas no real.
Fique por dentro
Murr, o gato narrador - e inovador
Maria Aparecida Barbosa já havia trabalhado com a obra de E.T.A. Hoffmann, em outro livro do catálogo da Estação Liberdade. "Reflexões do gato Murr" é um romance que, lido em contraste com as histórias de "O reflexo perdido e outros contos insensatos", deixa clara a versatilidade de Hoffmann, mesmo trabalhando com a fantasia. O romance, como o título entrega, traz uma série de apontamentos, de caráter pessoa, escritos por um gato. Hoffmann faz Murr um autor moderno, do tipo que faria inveja aos experimentalismos das vanguardas do começo do século XX. Afinal, sua pedante autobiografia - "alerta" Hoffmann - foi impressa por acidente com outro livro, de forma que a trama faz uma espécie de jogo de gato e rato. Cabe ao leitor seguir até o fim sem se desorientar.
Livro
O reflexo perdido e outros contos insensatos
E. T. A. Hoffmann
Tradução e organização: Maria Aparecida Barbosa
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Estação Liberdade
2017, 264 páginas
R$ 42
Diário do Nordeste

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