Belchior: uma obra a ser (re) lida

Por Josely Teixeira Carlos
Professora de Linguística, pesquisadora com doutorado sobre Belchior defendido na USP

Foto: Maurício Vieira / Agencia RBS
As mais necessárias personalidades, em tempos de crise, talvez sejam os artistas. São eles os responsáveis por oxigenar as ideias e renovar a reflexão para que se afirme justamente o novo, o novo que sempre vem. Crises em geral, de ordem econômica, política, social, não raras vezes estão acompanhadas de crises da produção e recepção da arte, geradas pela censura, pela ausência de educação do gosto, pela impossibilidade de um caminho comunicacional. O excêntrico passa a ser essencial. O que está fora do centro passa a lançar luz ao centro.
Fará falta Belchior (1946 – 2017), apesar de já ser conhecida a incomunicabilidade gerada por contingências ainda não explicadas em sua biografia, mas aparentemente originadas por uma recusa voluntária aos palcos, e ainda não muito bem formulada ao seu público, órfão há cerca de uma década de produções originais do artista.
Quase coincidindo com o Dia do Trabalhador, o Brasil em crise perdeu mais do que apenas um artista da canção popular. Perdeu talvez o mais rebelde dos compositores brasileiros, num tempo marcado pelo empobrecimento do debate político, pela fragilidade democrática e pela homogeneização massiva das mídias. Perdeu, o país, o autor de uma obra que fala e falará às gerações vindouras justamente sobre a liberdade, a utopia, a renovação, como resumem de forma emblemática Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, imortalizadas na voz de Elis.
Do conjunto da sua produção, constam mais de 300 canções, distribuídas em 11 discos autorais, de A Palo Seco (1974) a Baihuno (1993), somando-se a trabalhos fonográficos especiais, álbuns coletivos e participações em discos de outros compositores. Trata-se, portanto, de um denso cancioneiro que necessita ser conhecido, haja vista que o grande público recorda frequentemente uma dezena de grandes sucessos, em geral registrados nas inúmeras coletâneas de Belchior, deixando de entrever uma serie de "lados B". Estes podem representar muito melhor toda a profundidade da obra do compositor cearense, na comparação com os clássicos já consagrados pela crítica e pela audiência, via difusão em rádio e TV e, também, nos tantos espetáculos apresentados ao vivo.
É inegável a importância de canções como Apenas um Rapaz Latino-americano, Medo de Avião, Mucuripe, A Palo Seco e Na Hora do Almoço. Três canções igualmente fundamentais e menos conhecidas, por exemplo, são Pequeno Perfil de um Cidadão Comum (de Era uma Vez um Homem e o seu Tempo, 1979), Monólogo das Grandezas do Brasil (de Paraíso, 1982) e Baihuno (do disco homônimo, 1993), que trazem o triste relato da vida de milhões de brasileiros nas metrópoles, um retrato do migrante que sangra na cidade grande e sonha em voltar para o sertão de onde saiu.
Mas Belchior é muito além de "apenas um rapaz latino-americano vindo do interior".
No universo de possibilidades cancionais desbravado por Belchior, emergem Lennon e a revolução dos Beatles, a calça jeans, os migrantes, tema este mais atual do que nunca, justamente nas semanas em que a França decide entre Macron e Le Pen. Emerge um trovador do sonho latino-americanista, um cronista country-blues que toca diretamente o estilo do mais recente Nobel de Literatura, Bob Dylan, um "marginal bem-sucedido", como expressa a canção da ópera Baihuno.
Emerge uma carismática figura que alude ao George Brassens do XV arrondissement da Paris dos anos 1960, de bigode e charuto, imagem até então inédita no Brasil. Mostrando que Belchior dialoga com terras europeias, na Balada de Madame Frigidaire (de Elogio da Loucura, 1988), o consumismo é abordado de forma particular, reatualizando a Ballade des Dames du Temps Jadis, musicada pelo chansonnier francês, que compartilha com o ex-seminarista e dissidente do Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará a ideologia anarquista. "Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria e Família, se alguém já tem frigidaire?", ironiza a letra. O autor de Rock-romance de um Robô Goliardo (de Cenas do Próximo Capítulo, 1984) compôs o que pode ser considerado um hino da anarquia na música brasileira: "E não me chamem irresponsável. Para que, levar a vida, assim tão a sério? Afinal, a vida é mesmo uma aventura da qual não sairemos vivos?".
Em Belchior, é possível também redimensionar o Tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil e muitos outros "ismos" da música brasileira, como as produções prestigiadas da Bossa Nova e de artistas como Roberto Carlos e Chico Buarque. Nenhum outro compositor foi tão insistente ao questionar o lugar ocupado por nossos ídolos, que ainda são os mesmos. Com "Fosse Eu um Chico, um Gil, um Caetano, e Cantaria, Todo Ufano: `Os Anais da Guerra Civil'", de 1993, Belchior confronta de uma só vez três dos maiores artistas do país, retomando a crítica já feita aos baianos em Apenas um Rapaz Latino-americano, de 1976, que intitula Caetano de "um antigo compositor".
Digo, sem medo de errar, que Belchior, um leitor voraz e criterioso da literatura brasileira e universal, é o compositor brasileiro que mais dialoga (no interior de suas canções) com a tradição literária do Brasil e do mundo. Ninguém antes dele ousou tanto, de José de Alencar a João Cabral de Melo Neto, passando por Castro Alves e Drummond; de William Blake e Byron a Rimbaud, chegando em Baudelaire e Edgar Alan Poe.
Tudo somado, emergem as matérias líricas dos campos literário e musical, nacional e internacional, em forma de centenas de alusões e sínteses encontradas nas músicas de Belchior. Além das menos conhecidas faces de artista plástico profícuo, como se viu em As Várias Caras de Drummond (de 2003, na qual Belchior musicou 31 poemas do poeta de Itabira, ilustrando o álbum com desenhos do escritor) e de intérprete vigoroso, como evidencia Vício Elegante (de 1996, na qual Belchior interpreta importantes compositores da música brasileira do quilate de Chico, Caetano e Roberto Carlos).
Há de se recordar que, nesta semana, começaram a vir a lume relatos referentes ao período do autoexílio do músico, o que poderá revelar outras produções do cancionista, podendo ou não ser aferidas continuidades e rupturas em sua obra. O fato é que a produção de Belchior distingue-se por dezenas de aspectos singulares que manifestam uma paisagem complexa de abordar e que certamente irão adensar a importância do eterno rapaz latino-americano para a história da música popular brasileira.
Zero Hora

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