Causos do cotidiano ganham fôlego em livro do premiado autor Wilhelm Genazino, inédito no Brasil

O escritor Wilhelm Genazino: fluxos de pensamento fluidos para tornar o cotidiano reflexão
Farta em números, a carreira do escritor alemão Wilhelm Genazino é prolífica e consagrada. Iniciada em 1965 com o romance "Laslinstrasse" (sem tradução para o português), já inclui mais de 30 livros publicados pelo autor em seu país de origem - alguns também conseguiram atingir notoriedade no restante da Europa e nos Estados Unidos - e um total de 21 prêmios literários, entre eles o Büchner, o mais importante da Alemanha.
Editorialmente falando, um dos frutos dessa trajetória de prestígio só chegou ao Brasil 50 anos após a estreia do europeu. Foi quando a editora Apicuri, através do selo Ficção, publicou, em 2015, a primeira e única edição do livro "Um guarda-chuva para o dia de hoje", lançado originalmente no ano de 2001. Por aqui, a versão ganhou tradução, posfácio e glossário de Marcelo Backes.
Assim, levando-se em conta a dimensão do tempo, não é um elemento factual que justifica a escrita deste texto, mas efetivamente um desejo de fazer ressoar - para que se tome conhecimento da rica, complexa e inquieta prosa genaziana - os elementos narrativos e temáticos que se sobressaem na única tiragem feita em português do texto do contemporâneo.
O autor, na referente obra, disseca discretos fragmentos do cotidiano para imprimir olhares sobre a vida e as relações sociais. Crítica corrosiva e embebida de um inteligente arsenal de tiras ácidas e irônicas que vêm a tiracolo, à medida que a cidade é desbravada pelo protagonista da história.
Por sinal, é esse componente de saída que se destaca nas páginas de "Um guarda-chuva para o dia de hoje". É que o narrador da obra - um homem de meia-idade que trabalha como testador de sapatos de luxo na metrópole alemã dos negócios, Frankfurt - é um típico flâneur, figura que elege a cidade como ponto de partida para desbravar sentimentos, meias verdades ou ele mesmo.
Técnica
A verossimilhança labiríntica que Genazino confere ao retrato da urbanidade ganha força com a técnica narrativa que escolheu para detalhar a rotina de seu personagem principal. É através do fluxo de consciência que o escritor atropela aspas, vírgulas e parágrafos, um desequilíbrio estrutural que mescla perspectivas interiores com o que se encontra fora, na atmosfera circundante do viajante.
Não à toa - como é típico do referente recorte literário -, períodos sintáticos muitas vezes são mutilados na metade de sua conclusão, abrindo espaço para que o autor divague sobre assuntos mil.
Em uma dessas ocasiões, por exemplo, ao refletir sobre a antiga companheira, o protagonista interrompe o pensamento e olha para o céu, passando a contemplar o movimento das folhas. O leitor, por sua vez, acompanha essa mudança temática rapidamente, saltando de um ponto final para outro, simples assim.
Sob outro espectro, o tédio é assunto caro à escrita genaziana. Toda a extensão do livro é marcada por um mal-estar que evoca enfado e solidão, motores que impulsionam o egresso e observações profundas sem, no entanto, soarem piegas. Ponto para Wilhelm.
"À tarde, sucede uma espécie de fragmentação da minha pessoa, contra a qual sou completamente indefeso. Me desmancho em fios, em fibras, em franjas. Então esqueço que, na vida, há coisas essenciais e coisas superficiais, porque uma coisa superficial qualquer penetra em mim e não me libera mais. Exatamente como agora", confessa o personagem em determinado momento, demonstrando capacidade de tornar algo que não é da conta de ninguém em um despontado retrato do mundo atual.
Reflexo
Hábil em construir paralelos que dialogam de maneira fluida - num movimento que ora se pretende frenético, ora se contenta com o silêncio - Wilhelm Genazino também é autêntico ao nunca menosprezar os dramas de seu personagem principal, como geralmente acomete as publicações que têm, no humor, seu principal gênero discursivo.
Pelo contrário: é a partir da facilidade com que as ideias do narrador mudam de perspectiva que o alemão faz um reflexo da sociedade líquida contemporânea, terreno individualizante onde pensamentos minam e aparecem com a mesma velocidade com que um novo perfil em uma das inúmeras redes sociais com as quais temos contato.
O rumar pela cidade, assim, é tanto válvula de escape de um mundo em ebulição quanto bússola para que novos conceitos, novas experiências, adentrem o cotidiano. Uma verdade que se apresenta indigesta, mas sincera para o protagonista do livro, e é evidenciada em sentenças como esta: "Somos procurados, eu respondo inseguro e ao mesmo tempo tarimbado, por pessoas que têm a sensação de que também sua vida não se tornou mais do que um dia de chuva estendido ao extremo, e que seu corpo nada mais é do que um guarda-chuva para esse dia".
Reconhecer, portanto, a transitoriedade das coisas e reter abstrações que salvam esses dias nublados de quase nulos entendimentos sobre si e sobre o outro, seja talvez o principal legado que o estranho alemão praticamente anônimo por aqui - agora, literariamente, não mais - tenha deixado por meio de suas pequenas jornadas de prosas ligeiras, banhadas de muita neurose e pura melancolia.
Livro 
Um guarda-chuva para o dia de hoje
Wilhelm Genazino
Apicuri
2015, 204 páginas
R$ 39,90
Diário do Nordeste

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