Livro-CD sobre a pluralidade cultural de Fortaleza é lançado hoje com show

Diversidade cultural e sintonia entre literatura e música: premissas maiores do projeto Bulbrax, com Flávio Paiva, Gustavo Portela e Ilya Borges à frente. ( Fotos: Carol Monteiro )
Para Flávio Paiva, Fortaleza fala. A priori, tal ideia poderia soar apenas como um conceito metafórico, mas a verdade é que o escritor e jornalista – mediante os trabalhos que já empreendeu contemplando diferentes instâncias da cidade – realmente crê que a capital do Ceará possui voz, linguagem própria. 

Um dos livros de sua autoria que talvez melhor descreva essas nuances da urbe alencarina seja “Fortaleza – de dunas andantes a cidade banhada de sol” (Cortez Editora, 2005). Nele, Flávio conta para as crianças o que a cidade contou a ele, priorizando uma visão de menino, atento às manifestações do lugar que nasceu, cresceu e hoje vive. Processo, portanto, de pluralização do olhar e, sobretudo, da escuta.

À época, nesse trajeto de imersão que realizou para conceber a publicação, o profissional se viu cheio de referências e descrições que poderiam ampliar aquilo que já havia vindo à tona. E foi a partir daí que nasceu o projeto Bulbrax, que contempla um livro e um CD sobre a diversidade cultural de Fortaleza.

O lançamento da nova obra de Flávio Paiva acontece nesta terça-feira (23), a partir das 19h30, no Ceará Show, com apresentação da cantora e compositora cearense Ilya Borges. Convidada para ser a intérprete oficial do trabalho, ela divide a ação com Gustavo Portela – à frente da produção musical do disco – e Daniel Groove, Chico César e Daniel Medina, que fazem participações especiais.

“A combinação de literatura com música não foi uma escolha. Esse narrar tendo a música como sua parte intrínseca está na nossa essência cultural mais profunda. São traços culturais que vêm do mundo persa, árabe e ibérico e que encontraram terreno fértil na musicalidade nativa, tornando presentes na parcela sertaneja que integra a urbanidade fortaleza”, explica Flávio.

“Trata-se, portanto, de uma criação retroprojetiva, vinda de um mundo antes da visão. Ou seja: tem som no meu horizonte de pensamento”, completa ele, justificando o porquê de o projeto culminar não em dois produtos separados, mas em um livro-CD.

Estalo

“Bulbrax” porque a palavra evoca algo derivado de bulbo, com sonoridade de estalo, brax. Um neologismo, assim, abrangente, que envolve os ruídos – sejam musicais, sejam conceituais – de um ambiente urbano em permanente fluxo de produção de sentidos e significados.

Na seara da literatura, o livro “Bulbrax – Sociomorfologia Cultural de Fortaleza” configura-se, segundo o próprio autor, como um “ensaio experimental”. Em suas páginas, rotas traçadas com vistas a mapear os principais recantos de manifestações artísticas do povo que aqui faz morada.

“Todo ensaio é, por natureza, experimental no que diz respeito aos aspectos interpretativos, de julgamento e posicionamento do ator. Embora pareça redundante, realço o caráter experimental de 'Bulbrax' pelo tanto de liberdade que exerci no uso de intertextualidades e metalinguagens para compartilhar meu olhar apaixonado e indignado sobre Fortaleza”, esclarece o escritor.

A publicação, desta feita, chega ao público com ares de convite, convocando os fortalezenses a se permitirem atuantes no cenário que é todo nosso. Ambiente que, muitas vezes, carece de cuidados e, conforme as atitudes de seus habitantes, nega as possibilidades de construção de uma sociedade aberta, que sabe dialogar com distintas ideias e visões de mundo.

464 páginas compõem o livro, robusto arcabouço de informações. De acordo com Flávio, “brinco com essa questão dizendo que a obra foi escrita em 12 meses e 39 anos, quer dizer, durante os 40 anos em que moro em Fortaleza. No livro, exploro o debate aberto sobre as ambiguidades da cidade, suas contradições, paradoxos e pela relativização de suas leituras hegemônicas e centralizadas”.

“'Bulbrax' é um neologismo que criei para tentar ver o invisível e compreender o incompreensível no âmbito dos valores centrais de uma cidade de riqueza cultural diversa e plural, sufocada por padrões superficiais de comportamento e seu materialismo vulgar”, complementa.

Canções

Já no território musical, dez canções vão conferindo som aos capítulos do livro, herdando também seus títulos. O exercício de sintonia entre as duas obras – percebe-se – é um rastro respeitado por todo o projeto, o que viabiliza a extensão de visões sobre os espaços da urbe.

Diferentes gêneros e ritmos musicais vão contornando padrões e reafirmando o princípio primeiro do trabalho: o de amalgamar percepções. Por isso, não há composições estáticas, já que todas elas promovem uma ligação com os conceitos que o livro traz. São, portanto, sempre abrangentes, sempre maiores que elas próprias.

Estrofes sobre a ocupação dos “terrenos baldios” da cultura, presentes em “O Vento e a Flor de Seda”; a busca por alteridade nos encontros e nas descobertas das oportunidades culturais, mensagem de “Canção de Bulbrax”; e as contradições da terra cearense e seu choque com a urbanidade, algo que “Iracema Brechtiana” traz, são alguns exemplos das temáticas exploradas no disco.

Daniel Groove – que participa da canção “Igualdade infeliz” –  conta que a energia do disco traduz bem aquilo que o livro traz. “O que é legal do projeto é que todas as músicas fazem parte do texto do Flávio, da história que é contada na obra. Então a preocupação com o estilo fica em segundo plano. O repertório é bem assertivo, passeando por várias vertentes da música brasileira”.

Quanto à relação com o idealizador do projeto, Groove se diz contemplado por aquilo que o amigo conseguiu traduzir na publicação. “Já conheço o Flávio há alguns anos e o que me aproximou dele é o que historicamente vem aproximando artistas desde que o mundo é mundo, que é a admiração que nutro pelo seu trabalho. E, sim, me vejo no discurso do livro e em muitos outros discursos. Discursar é bom”, pontua.

Organicidade

É quando se consolida com maior vigor, inclusive, um termo cunhado pelo próprio Flávio Paiva, o de “Cidadania Orgânica”. Segundo o autor, o conceito – trabalhado por ele há uma década – remete a outro, trazido à tona em um momento passado por um importante teórico europeu. 

“É uma atualização da ideia de 'Intelectual Orgânico', de Antonio Gramsci (1891-1937). Diferentemente da figura criada pelo pensador italiano para a realidade histórico-social e política da primeira metade do século XX, o 'Cidadão Orgânico' não precisa ser de uma classe ou de uma categoria profissional, nem mesmo exercer o papel de intelectual de grupos de afinidades, para atuar nos complexos conflitos dos mundos sociais físicos e virtuais hipermodernos”, esmiuça.

Tantos vieses e pontos de encontro práticos e teóricos soam urgentes, refinados, bem acabados. Sinal de que a mensagem de Flávio Paiva é maior: “Espero poder contribuir para a percepção de que já está mais do que na hora de fazermos uma rotação de perspectiva na forma de tratar a pluralidade e a diversidade de Fortaleza, de modo que a cidade passe a ser escutada, vista e valorizada pelo seu relevante potencial cultural e não apenas por suas insuficiências e desnecessárias desigualdades”.

Mais informações

Lançamento-show do livro-CD Bulbrax. Nesta terça-feira (23), às 19h30, no Ceará Show (Av. da Abolição, 2323, Meireles). Valor do produto: R$ 85. Entrada franca. Contato: (85) 3224-9780.

Diário do Nordeste

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