Livro discute as multifacetas do racismo

Colson Whitehead: "Tratar de racismo no século XIX ou nos anos 1960 é, no fim, lidar, invariavelmente, com o tema nos dias de hoje também. Isso está muito claro no que escrevo e na minha crença de que só há uma saída para nós: a educação"
Vencedor das mais recentes edições dos prêmios Pulitzer e National Book, como melhor livro de ficção, "The underground railroad - Os caminhos para a liberdade", lançado agora no Brasil, não teve um parto fácil. A ideia de uma narrativa centrada nas terríveis relações étnicas nos EUA já estava na cabeça de Colson Whitehead antes mesmo de ele publicar seu primeiro livro, "A intuicionista", em 1999.
Mas o autor não se sentia preparado para a tarefa. Recém-saído da Universidade de Harvard, Colson se empregou como crítico de TV no já decadente "Village Voice". O ano era 1994, e os colegas do semanário o incentivaram a deixar o batente de lado, colocar uma mochila nas costas e visitar o outro país de dimensão continental das Américas cuja economia fora sustentada durante séculos por trabalho escravo.
A visita ao Brasil e, especialmente, a releitura, anos depois, de "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez, viraram peças cruciais no quebra-cabeças de "The underground railroad". Tão brutal quanto fantástica, a narrativa recebeu elogios entusiasmados de Oprah Winfrey e do ex-presidente Barack Obama, ultrapassou a marca do milhão de exemplares vendidos depois de entrar no popular clube de livros da apresentadora, e vai virar série da Amazon, em adaptação de Barry Jenkins, diretor de "Moonlight: sob a luz do luar", com produção da Plan B de Brad Pitt, ainda sem data de lançamento.
"Nunca havia saído do meu país e era um menino de 24 anos quando cheguei ao Brasil. Rio, Salvador e São Paulo foram as minhas três primeiras experiências de 'estrangeiro'", conta Colson, que segue: "Não tinha grana alguma, e os brasileiros estavam ligados, curiosamente, nos EUA, onde acontecia a Copa do Mundo, que iriam vencer. A cada semana as pessoas ficavam mais animadas nas ruas, e eu me percebia um ser solitário, sem grana, hospedado em pensões simples, pensando em ideias que acabaria usando em meus livros. Voltei do Brasil decidido: me tornaria um escritor".
Referências
Críticos encontraram em "The underground railroad" parentescos com o "Homem invisível" (vencedor do prêmio National Books em 1953), do também afro-americano Ralph Ellison (1914-1994), e o "Arco-íris da gravidade" de Thomas Pynchon (que recebeu o mesmo prêmio em 1974). Colson, cuja dificuldade de falar sobre seu próprio trabalho é notória, prefere dizer que seu livro nasceu de algo igualmente caro a Ellison, Pynchon e García Márquez: o uso do fantástico para contar uma história recheada de temas sociais e políticos.
De certa forma, já havia sido assim em "A intuicionista", quando ele se debruçou sobre a vida da primeira funcionária negra responsável pela fiscalização dos elevadores nos prédios de uma cidade que, nas palavras de John Updike (1932-2009), em uma laudatória crítica na "New Yorker", "está para Nova York como a Gotham de Batman".
E "Zone one" (2011) é um romance humanista cuja ação se dá em pleno surto de um vírus que leva zumbis a dominar o planeta.
Rupturas
Há dois momentos de ruptura no mais festejado e premiado dos seis livros de ficção de Colson. E são eles que transformam decisivamente a história da terrível existência de Cora, disposta a fugir das sinas de sua mãe e avó, forçadas a colher algodão para senhores sulistas em uma plantation na Geórgia.
O primeiro é quando o autor joga por terra a metáfora da "ferrovia subterrânea", como os abolicionistas descreviam a rede de apoio que ajudou a esconder dezenas de milhares de escravos do sul em fuga em direção ao norte do país, antes e durante a Guerra de Secessão Americana (1861 -1865). No livro, a ferrovia do século XIX tem túneis, trilhos, condutores e passageiros.
A segunda ruptura se dá quando Colson decide contar a experiência de Cora e de seu parceiro de fuga, Caesar, através das nuances das relações étnicas nos estados em que eles se escondem. É a geografia da infâmia - com capítulos intitulados, não por acaso, Geórgia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Tennessee e Indiana -, que oferece ao autor a possibilidade de explorar diversas facetas do racismo.
O leitor é testemunha das torturas mais hediondas, do complicado sistema hierárquico nas sedes das fazendas e nos centros urbanos, mas também nas senzalas, e do arquitetar de futuros cidadãos de segunda classe em um processo contínuo e cada vez mais sofisticado de discriminação racial.
"É como se cada estado fosse uma América diversa, com estágios variados de brutalização dos negros, que não são uma massa compacta, vivem realidades diversas, sempre sob a sombra do racismo", diz Colson.
O autor escolheu uma protagonista para o livro justamente porque as mulheres estavam na base da pirâmide social da escravidão, ainda mais expostas à violência sexual, de senhores, capatazes e outros escravos. A lógica da reprodução também é especialmente perversa, já que filho, no modelo escravocrata dos EUA, viraria mais um bem para os senhores.
Contexto
"The underground railroad" foi escrito em 2015, no fim da longa administração Obama. O livro dialoga, mas de acordo com Colson, "quase sem querer", com um momento cultural marcado por produções recentes do cinema americano - "Django livre" (2012), "Doze anos de escravidão" (2013), os documentários "Eu não sou seu negro" (2016) e "A 13ª Emenda" (2016), além do próprio "Moonlight" (2016) - que buscam rediscutir as raízes e a permanência do racismo no país hoje manchado por uma enorme população carcerária afro-americana e por evidências de tratamento desumano de policiais a negros, denunciadas pelo movimento Black Lives Matter.
O próximo livro do autor, em estágio inicial, tratará do tema de uma forma "menos direta" e se passará na Flórida dos anos 1960. "Durante séculos, os EUA foram governados pela ótica da supremacia branca. Basta pensar na volta do nacionalismo caucasiano no diálogo político depois da emergência de Donald Trump para pensar que, de certa forma, eles ainda são".
"Tratar de racismo no século XIX ou nos anos 1960 é, no fim, lidar, invariavelmente, com o tema nos dias de hoje também. Isso está muito claro no que escrevo e na minha crença de que só há uma saída para nós: a educação", completa o autor.
Diário do Nordeste

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