No Ceará também teve Campos de concentração antes da Alemanha Nazista

Texto: Jacqueline NóbregaPublicado em 29.05.2017
"No Estado do Ceará
A exemplo do alemão
Houve por aqui também
Campo de concentração
Lá era pra matar judeu
Aqui o povo do sertão"
Henrique Pinheiro
Os campos de concentração parecem uma realidade distante do que vivemos atualmente. No entanto, há mais de 80 anos, a situação aconteceu em solo cearense. Apesar de o nome remeter aos campos nazistas na Alemanha, de acordo com o livro "Isolamento e poder: Fortaleza e os campos de concentração na Seca de 1932", da autora Kênia Rios, o que aconteceu no nosso Estado foi consequência da seca que assolava o Ceará desde 1930 e antecedeu os alemães.
Em 1932, a situação piorou e os retirantes chegavam a Fortaleza na esperança de encontrar uma solução para escapar da falta de chuva no sertão. Os jornais da época chamavam a atenção para o clima alarmante com o desembarque dos flagelados. Era comum, na época, ainda segundo o livro de Kênia, notícias que relatavam o comportamento dos retirantes, como invasões a trens e indícios de revoltas. Criou-se com isso a imagem de homens e mulheres que poderiam se tornar ameaçadores. Entre as classes dominantes de Fortaleza, surgiu o hábito de temer o grupo de pessoas.
"As famílias ficavam espalhadas pelas cidades do Interior, mas a partir de 1930 o rumo certo era Fortaleza. As elites, então, começavam a conclamar na imprensa, tanto em Fortaleza, como em Sobral e no Cariri, para a formação desses campos de concentração. E as providências foram tomadas na construção desses espaços", relata Kênia, em entrevista ao Diário Plus.
Mapa da cidade de Fortaleza no ano de 1932 indicando a localização das concentrações de Matadouro e Urubu Foto: Livro Isolamento e poder: Fortaleza e os campos de concentração na Seca de 1932
Mapa da cidade de Fortaleza no ano de 1932 indicando a localização das concentrações de Matadouro e Urubu Foto: Livro Isolamento e poder Fortaleza e os campos de concentração na Seca de 1932
A historiadora e professora do departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC) conta que a construção dos locais se insere na política de obras contra a seca. "A proposta do projeto era de salvar os flagelados, oferecer comida e assistência médica. O problema é que no Brasil nada acontece como está no papel. O que ocorreu foi que essas pessoas ficaram amontoadas".
Registro fotográfico dos flagelados da seca de 1877 na estação ferroviária de Iguatu à espera de trem para Fortaleza. Na seca de 1877, Fortaleza chegou a receber retirantes que representavam mais do triplo de sua população. Fonte: "Isolamento e poder: Fortaleza e os campos de concentração na Seca de 1932"
Kênia explica que foram construídos, ao todo, sete campos de concentração no Ceará, distribuídos em lugares estratégicos para garantir o encurralamento de um maior número de retirantes, sendo dois em Fortaleza e os outros em Ipu, Quixeramobim, Senador Pompeu, São Mateus e Crato. De acordo com estatísticas oficiais, pouco mais de um mês após a abertura dos campos, os espaços somavam 73.918 aprisionados. "Eles ficavam próximos a vias férreas, porque os sertanejos se deslocavam de trem. Quando eles desciam, eram encaminhados para os campos. Lá era um confinamento, eles eram vigiados e não podiam sair sem autorização. Os que saíam, eram considerados fugitivos e a ocorrência era registrada na delegacia. Havia um grande número de pessoas confinadas em um espaço para duas mil, e aí aconteceu o inevitável. Muitas doenças, epidemias e o número de mortes diárias era grande. A alimentação, além de ser escassa, era ruim".
Estação do campo de contração Senador Pompeu | Às margens da CE-040 é possível encontrar as ruínas da antiga estação do campo Foto: Alex Pimentel
A professora relata em seu livro que entre abril de 1932 e março de 1933 foram registrados mais de 1.000 mortos somente no Campo de Concentração de Ipu. Ela ainda relata que era possível perceber distinções na estrutura arquitetônica dos campos. Alguns eram cercados de forma circular e outros recebiam uma conformação mais quadrangular, entretanto, havia uma estrutura básica presente em todos: posto médico, cozinha, barbearia e casebres separados por família.
O professor e doutorando em História pela Universidade Regional do Cariri (URCA) e Universidade Federal Fluminense (UFF), Airton de Farias, cita mais detalhes: "Os homens tinham os cabelos raspados a zero. Os campos ainda tinham banheiros, capela e casebres divididos em pavilhões para homens solteiros, viúvas e famílias. Havia uma espécie de cadeia para os retirantes desordeiros e oficinas (de olaria, carpintaria, alfaiataria etc.) para não deixar os concentrados inativos, o que era, aliás, uma preocupação das autoridades".
Outro aspecto significativo é o nome com o qual o flagelado batizou os campos de concentração: curral do governo. Na sua vivência do mundo rural, o sertanejo sabe que o gado precisa ser encurralado para não fugir (...) Era uma prisão que tratava os seres humanos como bichos
"Vários dos retirantes eram 'recrutados' dos campos também para as obras de emergência do governo e até para lutar na revolução paulista de 1932. Atraídos pelas promessas de trabalho, alimentação e assistência médica, os sertanejos eram privados de sua liberdade, não podendo sair sem autorização dos inspetores dos campos. Guardas constantemente vigiavam os movimentos dos concentrados para evitar fugas. Esses campos de concentração eram chamados pela população de 'currais do governo'. Houve casos de revolta dos retirantes contra aquele controle sufocante e a administração dos campos", explica ainda Airton.
"Junto com os retirantes, as epidemias 'encontraram' condições favoráveis para se alastrarem, devido ao ajuntamento de pessoas, falta de higiene, saúde debilitada. A mais grave dizimou em Fortaleza em um único dia, 10 de dezembro de 1878, 1004 pessoas. Foi para evitar a repetição desses eventos que os campos de concentração foram pensados. O lugar seria um lugar que sertanejos receberiam apoio governamental, mas a realidade foi bem diferente", acrescenta a pesquisadora e blogueira Fátima Garcia.

CEARÁ VERSUS ALEMANHA

Airton de Farias frisa que no imaginário das pessoas de hoje os campos de concentração ficaram associados à Alemanha, por isso é importante que tenham acesso à história do Brasil. "Os que haviam no Ceará eram diferentes, tinham outros sentidos e objetivos. Campos de concentração, como o nome sugere, são onde ficam pessoas concentradas, confinadas, em virtude de surtos de doenças, guerras, secas, etc. Vale lembrar que a criação dos campos contou com grande apoio da sociedade, como se pode perceber nos artigos elogiosos dos jornais da época, afinal, os flagelados estariam isolados e bem assistidos, o que na verdade não aconteceu. Historicamente, no nosso Estado, secas são momentos de tensão social, em que a ordem estabelecida corre riscos ante a fome e desespero das pessoas".
"A ideia de confinar, controlar e vigiar pessoas em locais 'apropriados' já tinha acontecido na seca de 1877, com os abarracamentos em torno de Fortaleza. Na seca de 1915 houve o primeiro campo de concentração na região do Alagadiço, atual São Gerardo".

COMO TERMINOU

No ano seguinte, com as primeiras chuvas de 1933, a imprensa efetivou uma forte campanha para o fim dos campos de concentrações. "As poucas chuvas que começaram a cair no sertão já forneciam uma certa segurança para os fechamentos das concentrações. Pensava-se que a cidade não corria mais o risco de invasão", conta Kênia em seu livro.
"Os campos duraram exatamente um ano, feitos em março de 1932 e desfeitos entre março e abril de 1933 porque começou a chover, então o governo distribuiu passagens e sementes para os concentrados retornarem aos seus lugares de origem. Nas concentrações de Fortaleza (nos bairros Otávio Bonfim e Arraial Moura Brasil), os campos deram origem ao surgimento de favelas, como é o caso do Pirambu".
"Havia muita rotatividade nos campos de concentrações, quando estavam muito cheios as pessoas eram encaminhadas para outros. Somente no Crato, chegou a passar durante o ano 65 mil pessoas", complementa a professora.

TOMBAMENTO

Cemitério do campo de concentração em Senador Pompeu Foto: Divulgação/MP/CE
Cemitério do campo de concentração em Senador Pompeu Foto: Divulgação/MP/CE
No último dia 17 de abril, com o objetivo de proteger o patrimônio histórico-cultural de Senador Pompeu, cidade distante 273 quilômetros de Fortaleza, o Ministério Público do Estado do Ceará (MP/CE) firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a Prefeitura do município para promover o tombamento de diversos pontos históricos da região.
Na lista de locais citados no acordo estão o sítio arquitetônico da “barragem do Patu”, a “Vila dos Ingleses”, o “cemitério” e o “campo de concentração do Patu”, além do registro do bem imaterial da “Caminhada das Almas”.
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O Cemitério da Almas da barragem do Açude Patu, em Senador Pompeu, recebe a romaria em homenagem às vítimas do campo de concentração do Patu há mais de 30 anos Fotos: Alex Pimentel
Segundo o promotor de Justiça do Juizado Especial de Senador Pompeu, Geraldo Nunes Laprovitera Teixeira, um inquérito civil público e um relatório técnico foram realizados pelo MP/CE e concluíram que o tombamento do campo de concentração é benefício para a defesa da cultura e história cearense por apresentar “inegável valor histórico-cultural”. O município assinou o TAC e, em caso de descumprimento, será aplicada multa de R$ 5 mil por mês.
Fátima Garcia explica que Senador Pompeu teve uma estrutura que resistiu ao tempo porque utilizou uma área construída pelos ingleses. "Havia um casarão construído no final dos anos 1910, conhecida por Vila dos Ingleses. Os estrangeiros estiveram na região para construção de uma barragem, do Açude Patu, que não chegou a ser concluída por falta de verbas. O casarão servia de residência aos estrangeiros e foi encampado pelo governo".

HISTÓRIA VAI VIRAR FILME

Foto clicada em Senador Pompeu durante pesquisa para o filme 'Dos campos à concentração' Foto: David Aguiar
Foto clicada em Senador Pompeu durante pesquisa para o filme "Dos campos à concentração" Foto: David Aguiar
A dupla David Aguiar, graduado em jornalismo e mestre em Comunicação e Audiovisual, e Sabina Colares, graduada em letras e especialista em Audiovisual, se prepara para rodar um longa-metragem sobre os campos de concentração no Ceará ainda este ano. Será um filme de linguagem híbrida, já que mesclará realidade com ficção. O projeto, intitulado "Dos campos à concentração", foi agraciado com o "Rumos Itaú Cultural 2015-2016".
"Desde o final de 2013, estamos em fase de pesquisa, tanto histórica quanto de linguagem. Agora o momento é de realizar um recorte dos fatos históricos e equalizar a uma forma narrativa que possa dar melhor comunicabilidade e potência estética ao filme. Estamos também em período de captação de recursos complementares para a realização do projeto", conta.
A ideia de fazer um documentário sobre o assunto não foi à toa. David tem contato com o sertão desde sua infância e a forma de sobrevivência do sertanejo o marcou de alguma forma. "Escutava histórias dos mais velhos sobre as antigas guerras entre famílias e como muitos morreram durante as secas. A história passou rapidamente a ser um dos temas pelos quais mais me interessava, sobretudo a relação entre história, memória e arte. Ponto muito forte e em comum no trabalho artístico realizado com Sabina".
Junto com a equipe do filme, eles estiveram em Senador Pompeu, onde conversaram com pessoas que perderam pais, tios e toda uma leva de familiares devido à concentração. "Nos deparamos com o patrimônio histórico em total estado de decomposição e esquecimento. Muitos lutam para preservar. Anualmente ocorre a 'Caminhada das Almas', em homenagem aos milhares que morreram no campo da barragem do Patu. É algo que quando você experimenta, não pode mais ignorar".
"Acreditamos ser imprescindível rememorar essa história, desenterrar essa dor, para conhecer o que mantemos em nossa cultura e ações políticas que chamamos de barbárie na cultura do outro. Memorar é uma forma de autocrítica e aprimoramento. Acredito que o momento atual exige isso, como sempre exigiu", finaliza.

Plus. Diário do Nordeste

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