Novo livro de Dionisio Jacob - ex-roteirista de "Castelo Rá-Tim-Bum" e "Cocoricó" - traz passeio pela História

O rosto dele pode até ser desconhecido do público que acompanhou as aventuras dos programas de TV "Castelo Rá-Tim-Bum" e "Cocoricó", por exemplo. Mas a imaginação e a capacidade de criar histórias memoráveis não. É que o paulista Dionisio Jacob foi roteirista dessas atrações e, por isso mesmo, no lugar de sua face - sempre presente no backstage - o que apareciam eram ideias, das mais criativas, que chegavam junto às crianças e as faziam viver naqueles universos onde brincar era imperativo e tudo era possível.
Mundos de possibilidades e conhecimentos que o autor também explora em seu mais novo livro, "A lenda de Abelardo", lançado recentemente e publicado pela editora SM. Um título que pretende fazer ressoar entre os jovens - como já é típico do trabalho de Dionisio - lições de vida, tudo ancorado por uma aura fantástica e, simultaneamente, calcada na realidade.
São paralelos interessantes de se observar, principalmente se tratando de uma temática que, na publicação, ganha texturas profundas e com ares epopeicos. Amplia, portanto, o referencial no qual primeiro se esgueira, conquistando também outros públicos, outras idades.
"Os dois trabalhos são independentes. Enquanto roteirista, atuo com uma equipe; nos livros, desenvolvo meu universo particular", esclarece o autor. "Este livro é uma ideia antiga, que foi tomando corpo e amadurecendo devagar. Diferentemente do tempo televisivo, sempre urgente", completa.
Não à toa - fruto do cuidado com o qual Dionisio idealizou e desenvolveu a história - "A lenda de Abelardo" chega ao mercado com um quê a mais: para além da narração de uma aventura fantástica, a obra passeia por campos do saber sempre bem-vindos para leitura e apreciação, caso da História e dos mitos fantásticos envolvendo heróis e criaturas mágicas.
Rastro
Na trama, Abelardo tem dez anos e vive em um feudo em plena Idade Média. Imaginativo, seu hobby é desenhar dragões nas paredes do castelo, os quais acredita piamente que existem, embora tentem prová-lo do contrário. Igualmente, também acredita que o pai - que partira anos antes para as Cruzadas - voltará um dia para casa.
Passadas as apresentações, o universo ficcional do livro começa a despertar uma curiosidade maior no leitor quando um mapa surge ocasionalmente na vida do garoto, indicando um local onde viveriam criaturas aladas - rastro valioso para nosso pequeno. É quando Abelardo, resoluto, embarca numa viagem fantástica rumo ao desconhecido, que reserva muitas surpresas e aventuras pela frente.
Ricamente ambientado na Idade Média, o livro prima por esmiuçar detalhes do cotidiano feudal, investindo em descrições abrangentes, que têm tudo para turbinar o interesse dos aficionados pelo tema.
Mas Dionisio não chegou a esse resultado de forma simples. O autor empreendeu estudos sobre o contexto sociocultural do período para ir além da pura fantasia, o que confere uma aura complexa ao conteúdo e encara o leitor jovem com respeito, em vez de privá-lo de informações.
O conteúdo sugere reflexões inclusive sobre assuntos como preservação ambiental e biodiversidade, mas apresentados de forma tão lúdica e equilibrada que a apreensão é quase intuitiva.
É aí que Rogério Coelho - laureado em 2012 com o Prêmio Jabuti na categoria Ilustração de Livro Infantil e Juvenil - entra, compondo, por sinal, uma parte bastante especial do projeto. Afinal, são dele as ilustrações que integram o exemplar, todas impressas em preto e branco, como um rascunho, fazendo uma espécie de recorte memorialístico imagético do texto.
"A coleção Barco a Vapor (versão brasileira de uma das mais destacadas coleções de literatura infantojuvenil em língua espanhola) possui diversos selos dirigidos às diferentes faixas etárias. Este do livro, da Série Laranja, prevê ilustrações", justifica Dionisio.
E complementa: "Acho que elas são sempre bem-vindas porque enriquecem o texto. Principalmente quando são de um ótimo artista, caso do Rogério, que, aliás, já fez a capa de outro livro meu, 'A Flauta Mágica'".
Mensagem
Indagado sobre qual a principal mensagem evocada pela publicação, Dionisio é franco: "Creio que uma obra não necessita passar uma mensagem específica. A leitura é sempre um processo de enriquecimento ao tratar com sensibilidade dos conteúdos emocionais que pertencem a todos".
"No caso específico deste livro, porém, creio que a imagem mais forte que fica é a de que toda presença humana faz uma grande diferença e pode enriquecer e transformar o seu entorno", pondera.
Quanto à sua constante ênfase de trabalho sobre o recorte infantojuvenil na seara da literatura, o profissional explica que muito dessa verve advém de sua experiência em sala de aula, o que o fez perceber as diferentes modalidades de apreciação narrativa próprias de cada faixa etária.
"Sempre trabalhei com o público jovem. Fui durante muitos anos professor de artes em diversas escolas. Tive também uma pequena escola chamada Casa do Sol, durante vários anos, de modo que sempre foi familiar trabalhar com este público. Mas tenho escrito também para adultos", sinaliza.
Neste segmento, por sinal, Dionísio também tem se destacado. Seu romance "A utopia burocrática de Máximo Modesto" (Companhia das Letras, 2001) chegou a ser menção honrosa no Prêmio Jabuti em 2002, enquanto "Assombros Urbanos" (Companhia das Letras, 2003) revela-se uma intrigante alegoria sobre o universo de produção televisiva.
Vasto, plural e inquieto, o mundo criativo de Dionisio Jacob é assim: desconhece limites quando o assunto é trazer à tona enredos que, tanto para os menores quanto para maiores, são peças singulares e de inteligente imaginação.
Livro
l
A lenda de Abelardo
Dionisio Jacob
SM Editora
2017, 264 páginas
R$ 42
Diário do Nordeste

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