Último livro publicado por Clarice Lispector, "A Hora da Estrela" ganha edição comemorativa

Ainda que discordem em alguns pontos, na escolha e na interpretação de determinados fatos, os biógrafos Benjamin Moser e Nádia Battela Gotlib reconstituíram vida de Clarice Lispector (1920-1977) como uma existência, em si, meio literária, com lances dramáticos, quase romanescos; e dores e mistérios, que lembram aqueles que figuram em sua obra. O tecido da vida parece contaminado pelo da literatura.

O "final" da história de Clarice Lispector, visto assim, como a conclusão de um romance ou de um filme, tem como limite sua morte, em dezembro de 1977. O capítulo começa um pouco antes disto e tem por clímax a publicação de seu último livro, "A hora da estrela", dois meses antes.

A morte ronda a trama, as desventuras da personagem Macabéa, e pareceu antecipar a derradeira desventura de Clarice. Como a personagem, que descobriu que o futuro não seria tão ensolarado como haviam previsto para ela, a escritora foi diagnosticada com um câncer terminal e morreu um dia antes de completar 57 anos.

A morte precoce impediu Clarice de assistir ao crescimento do culto em torno de sua persona e de sua obra. Culto que se expandiu por todo o País, se generalizou pelas redes sociais (com a ajuda de mutilações de sua escrita e de citações falsas atribuídas a ela) e, hoje, seguem conquistando fieis em outros países, sobretudo entre os leitores do inglês.

Em parte, este sucesso se deve a "A hora da estrela", possivelmente a obra mais popular da escritora. À fama de escritora difícil, se contrapôs um texto de leitura desembaraçada, uma extensão modesta (com suas 80 páginas, está mais próxima da novela do que do romance) e a história que passa, também, por um drama social - a mudança de uma jovem nordestina para o Sudeste, mais uma a ser seduzida pelo sonho de conseguir melhores oportunidades. Prato cheio para leituras interpretativas da obra, em escolas e faculdades, e para uma adaptação - o longa-metragem homônimo, dirigido por Suzana Amaral, estreou em 1985.

Os 40 anos da obra, que antecipam os 40 anos da morte de Clarice, são o mote da nova edição do livro, pela editora carioca Rocco. A verão comemorativa do livro foi dividida em quatro partes: "Antes da hora", com um ensaio sobre os manuscritos de Clarice depositados no acervo do Instituto Moreira Sales (IMS), no Rio de Janeiro; o texto aprovado pela autora e publicado originalmente em 1977; "A construção da estrela", com imagens dos manuscritos do livro; e, por fim, "Depois da estrela", reunindo seis ensaios a respeito da obra.

Leituras

"A hora da estrela" é o tipo de peça obrigatória para quem se interessa pela literatura brasileira. A edição de 40 anos dá suporte ao leitor neófito, além de interessar o colecionista e o estudioso da obra da autora. Os três públicos devem ser atraídos pela fortuna crítica, na última parte do volume.

Ali, a editora reuniu desde especialistas incontornáveis da obra de Clarice, caso de Gotlib, que assina "Quando o objeto, cultural, é a mulher"; até textos que representam a "descoberta" de Clarice pela crítica estrangeira, que é onde se encaixa o escritor e ensaísta irlandês Colm Tóibín. Seu texto, "Uma paixão pelo vazio", é uma prova da impacto positivo da biografia de Clarice escrita pelo norte-americano Benjamin Moser ("Why this world"/ aqui, "Clarice,").

O livro merece uma crítica no que diz respeito ao trato dos manuscritos. A escritora Paloma Vidal foi convidada para escrever uma crônica sobre o processo de descoberta dos manuscritos que deram origem a "A hora da estrela". O texto de Vidal capta o leitor e o faz entrar pelas salas frias da manutenção dos papeis, no IMS, e dá o convida a transitar num espaço muito mais caloroso e vivo, dos esboços, anotações e reescritas. O problema é que a escolha literária pelo textos Paloma não contemplou, por exemplo, um olhar mais crítico e analítico deste material. "A construção da estrela" poderia ser essa parte mais técnica, mas optou-se por reproduzir algumas páginas, uma aposta mais visual do que informativa sobre os manuscritos. São páginas bonitas, mas que dizem bem pouco do processo de escrita de Clarice Lispector.

A nova edição de "A hora da estrela", contudo, supera outros títulos de Clarice em excelência gráfica, caso da edição de 50 anos de "A paixão segunda GH" (comercializada exclusivamente pela Livraria Cultura) e "Todos os Contos", que seguiu a bonita versão americana da antologia. A concepção visual e o projeto gráfico são assinados por Izabel Barreto. Capa dura, sobrecapa transparente e ilustrações por todo o livro conferem uma beleza que a obra merece e enriquecem a experiência da leitura.

Edições

Clarice é uma autora de um tipo raro no Brasil. Quase 40 anos após sua morte, a escritora é uma das estrelas do catálogo da editora Rocco. Por sorte, a casa trata sua obra com o devido respeito à sua grandeza. As coleções de contos e os romances de Clarice não saem de catálogo. Claro, isso é o mínimo que se deve a um autor canônico, mas as fragilidades do mercado editorial brasileiro muitas vezes fica a dever até nisso. A Rocco vai além e tem procurado reinventar suas edições. Deslizes à parte, têm dado certo.

Livro

A hora da estrela

Clarice Lispector

Livro

Rocco

2017, 224 páginas

R$ 44,50

Diário do Nordeste

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