Artesanato inspirado no Patrimônio Histórico

por Honório Barbosa - Colaborador
Técnicos do Sebrae viram as produções ainda limitadas e acharam importante uma busca de identidade com o patrimônio arquitetônico local no artesanato
Icó. Os artesãos desta cidade do Centro-Sul do Ceará encontraram nos traços da arquitetura colonial, do século XVIII, nos desenhos das fachadas dos casarões e prédios históricos, a inspiração para a produção de peças e bordados na tipologia ponto rococó. A produção local vem ganhando destaque no Ceará e em outras praças. A coleção Patrimônio Arquitetônico sobressai-se pela beleza singela, gera trabalho e renda às famílias dedicadas ao artesanato.
Icó possui um vasto patrimônio arquitetônico colonial. O centro histórico no entorno do Largo do Théberge foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1998. Os prédios possuem, em suas fachadas, belíssimos desenhos e formas, que servem de modelo para a produção artesanal de variadas tipologias de produtos bordados em ponto rococó: desde guarnições de mesa, toalhas, redes, almofadas, aventais, até bolsas de couro.
Núcleos
A Associação dos Produtores de Artesanato, Gestores Culturais e Artistas de Icó (Aproarti) possui nove núcleos artísticos: arte plástica, música, dança, teatro, patrimônio, literatura, decoração, gastronomia e artesanato. O grupo de artesãos é o que permanece mais ativo, reúne mais de 60 pessoas e atualmente trabalha nove coleções.
A presidente da Aproarti, Maria Soares Cândido Freire, lembra que o grupo começou a se formar no ano de 2005 com apenas sete artesãos, que se sentavam em uma calçada, no Largo do Théberge, para se reunir e traçar diretrizes de organização do trabalho. A iniciativa foi do Valdir Bezerra, empreendedor social, que achou importante que fosse criada e organizada a Associação. "Era costureira de moda, fazia roupas e fui convidada a participar de uma feirinha", revelou Maria Cândido Freire.
Apoio
Técnicos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Ceará (Sebrae-CE) apareceram em Icó, viram as produções ainda limitadas e acharam importante que houvesse uma busca de identidade com o patrimônio arquitetônico local no artesanato. A ideia foi amadurecida e veio a inspiração dos desenhos dos prédios coloniais. A intervenção do designer Epitácio Mesquita foi decisiva.
Surgiram, depois, treinamentos e cursos de produção. "Nas oficinas, disseram que o patrimônio colonial tem uma identidade forte, era uma riqueza", relembra Maria Soares Cândido Freire, que decidiu deixar a costura de moda de lado e ingressar na atividade de produção de peças artesanais, mesmo sabendo que a sua renda mensal iria ser reduzida. "Fui conquistada por um sonho", disse. "Não me arrependo e estou satisfeita com esse nosso projeto".
Por meio do curso de produção, surgiu a primeira coleção, com cinco peças, sob a curadoria da Central de Artesanato do Ceará (Ceart), em 2008. O resultado ficou bom e surgiram os primeiros pedidos de jogo americano, bolsa, caminho de mesa, almofada, avental. "A nossa tecelagem é 100% algodão, que adquirimos das fábricas de rede", observa Maria Cândido. "O tecido é bordado a mão, em ponto rococó, com desenhos inspirados nos frontispícios da arquitetura histórica local".
Cláudia Nunes, tesoureira da Aproarti, está entusiasmada e afirma: "ninguém segura mais a gente". A entidade oferece aos consumidores nove coleções, que são produzidas por mais de 60 artesãos, nas cidades e em núcleos de bordadeiras da área rural, nas localidades de Três Bodegas, Cacimbas, Capitão Mor e no Assentamento Bom Lugar.
Emprego e renda
"Estamos contribuindo para a geração de emprego e renda no município", observa a vice-presidente da Aproarti, Nivalda Souza. A produção ganhou novas peças e formas: jogo americano redondo, tapetes, organizador, carteiras, pasta, bolsas para notebook, porta-vinho, agenda, celular, tablet, toalha de mesa, em tecidos e em couro.
O município de Icó vivenciou o ciclo econômico do gado e do couro, com intensas feiras, passagem para Aracati e Fortaleza, interligando pelos rios Salgado e Jaguaribe, centros de Pernambuco e Paraíba com o Ceará. Na mais recente coleção, o couro retrata essa passagem histórica, traz a marca do ferro do gado, em suas peças.
Por meio da Ceart, o artesanato de Icó está chegando aos centros consumidores e de distribuição, em São Paulo, Belo Horizonte e Maceió. As encomendas são feitas em "rodadas de negócios", promovidas pelo Sebrae, além de feiras regionais.
Os lojistas conhecem os catálogos e, no evento, se firmam valores, quantidade e modelos encomendados à Aproarti. A entidade começou com um capital de R$ 260 e hoje tem mais de R$ 85 mil em patrimônio, peças e máquinas, um ateliê para a produção, corte e costura. O bordado é feito nas casas dos artesãos.
A Associação se reúne em um modelo semelhante ao de uma cooperativa. Os artesãos seguem o desenho definido na coleção, produzem suas peças e entregam na sede da entidade, que fica responsável pela venda coletiva. Pode-se pedir o dinheiro adiantado ou aguardar pela comercialização final.
Além da Ceart e do Sebrae, a entidade obteve apoio da Caixa Cultura e da Brasil Foundation. Foram investidos R$ 40 mil na aquisição de máquinas, equipamentos, mesa. A renda mensal de cada artesão varia entre R$ 500 e R$ 1.800, dependendo do período do ano e da quantidade produzida.
Esforço social
Há um grupo de artesãos presidiários, que trabalha na produção de bordados e de suporte para outras peças, na Cadeia Pública de Icó. Homens tiveram cursos e recebem o benefício da redução da pena. "É um esforço social da Aproarti", pontua Maia Cândido.
"Temos também homens, jovens, produzindo bordados, nas comunidades, em busca de ocupação e renda", frisa a tesoureira da Aproarti, Cláudia Nunes.
Na avaliação da secretária de Cultura e Turismo de Icó, Ana Glesse Oliveira, a produção artesanal do Município foi buscar na sua história a inspiração para a produção de desenhos e peças que despertam a atenção dos consumidores.
"Não é fácil viver do artesanato, vender as peças, alguns acham caro, mas, quando contamos a nossa história, como é feito, que tem trabalho de presidiário, de jovens em comunidades rurais, as pessoas mostram interesse, ficam curiosas e compram", finalizou Maria Cândido.

Diário do Nordeste

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