Editoras do País apostam em obras para crianças

por Adriana Martins - Editora assistente
Pela lista de publicações no site, dá para ter uma ideia do nicho de público: são 127 títulos infantis e juvenis contra 35 adultos. Fundada em 2003, a editora Zit segue uma estratégia que nunca perdeu lugar no mercado - a manutenção de selos e coleções voltados especificamente aos leitores miúdos.
É assim tanto com editoras menores e especializadas - como Biruta, Pulo do Gato e Salamandra - quanto com as maiores, que mantêm selos exclusivos para crianças e jovens - a exemplo da Cia das Letras (Cia das Letrinhas), Rocco (Pequenos Leitores) e Zahar (Pequena Zahar). Sem falar nos clubes de assinaturas específicos para esses leitores - Leiturinha, Boox, Petite Book, entre outros. Algumas editoras também inauguraram seus próprios serviços de assinaturas.
Entre os predicados que atestam a qualidade de um livro infantil estão o texto interessante - sem ser bobo, ou seja, que não duvide da inteligência de seu leitor -, temas relevantes e, obviamente, ilustrações que não apenas tornem a publicação mais atraente, mas que de fato dialoguem com o conteúdo verbal.
Felizmente, o mercado nacional conta com lançamentos regulares nesse sentido. Três mais recente são da Zit - e, melhor, em estilos bem distintos. O mais "fofinho" certamente é "Coração de inverno, coração de verão", que, assim como outros títulos corajosos, aborda temas difíceis, em especial para a faixa etária a que se propõe: solidão, luto e a tristeza.
Na história, esses elementos são traduzidos no "inverno perene" que habita o coração do pequeno protagonista - desde que perdeu i pai e a mãe. Em meio às nevascas e ao frio que habitam seu espírito, ele vaga em busca de conforto, alguém que possa enxergar sua dor. Nem os avós, nem tios nem a madrinha logram sucesso.
Até que ele conhece uma garota na escola, que com seu sorriso quente espalha o quase esquecido verão em seu coração. O texto de Leticia Sardenberg, cativante e delicado, é completado de um jeito muito bonito pelas ilustrações de Alexandre Rampazo, que seguem um fluxo meio cinematográfico, com sequências que sugerem movimento página a página.
Em estilo completamente diferente, "Cafofo do remelexo" homenageia tanto grandes escritores da literatura brasileira quanto figuras do folclore nacional. Assim, nesse cafofo onde "todos chegam para dançar xote, maxixe ou forró" homens e mulheres reúnem-se com Saci, Curupira, Iara, Boto Cor-de-rosa e Boitatá, além de lendas urbanas como Loira do Banheiro, Mulher de Branco e Velho do Saco e outros não tão conhecidos, como o Pé de Garrafa. Ah, Quem garante o som a noite inteira são Nhô Lobato e Nhô Cascudo (em homenagem a Monteiro Lobato e Câmara Cascudo, respectivamente)
O texto varia em pedaços de três a seis versos, sempre com rimas, o que torna tudo mais divertido. O baile só termina quando "o dia já vem raiando".
De novo, o texto - escrito a seis mãos pelos autores - nada seria não fosse a coleção de ilustrações, aqui assinadas por Julio Carvalho. Mais em estilo de pintura, elas dão vida à noite narrada e personalidade aos personagens, com detalhes de roupas e movimentos. Tudo numa paleta de cor de babar.
Por fim, a Zit traz "A boca da noite", vencedor em duas categorias do Prêmio Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil 2017 - Criança e Ilustração. O livro conta um pouco da infância, da família, do cotidiano e da criatividade da etnia indígena Wapichana, a parti das aventuras dos irmãos Dum e Kupai. O autor, Cristino Wapichana, é da etnia, do estado de Roraima.
Aqui, as ilustrações de Graça Lima emergem fortes - marcantes em altos contrastes, angulosas, inspiradas na arte indígena, em especial nas cerâmicas e pinturas corporais. A paleta ora é quente como o dia na floresta - repleta de amarelos, vermelhos e laranjas escandalosos - ou sombria como a noite cheia de segredos - em azuis, pretos e brancos luminosos. Um deleite não apenas para crianças.

Diário do Nordeste

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