O inglês Peter Brook lança coleção de ensaios sobre o gênio William Shakespeare

por Dellano Rios - Editor de área
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Shakespeare e Peter Brook: diretor inglês mantém uma relação permanente com a obra do bardo, ora levando-a para os palcos, ora escrevendo sobre ela
Uma das definições do escritor Italo Calvino para o clássico, aquela que diz se tratar de uma obra que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer, ilustra bem a fortuna crítica de alguns autores - clássicos, claro. A fortuna crítica é uma forma de se referir ao conjunto de reflexões que se produziu sobre esta ou aquela obra, por um criador ou outro; no caso de William Shakespeare, a palavra "fortuna" tem mesmo que evocar opulência.
Shakespeare tem uma obra extensa para um autor de seu tempo. Não que inexistissem autores prolíficos nos séculos XVI e XVII, mas são raros aqueles cujas obras sobreviveram e menos numerosos ainda os que continuaram a ser editados, passado tanto tempo.
Shakespeare é um autor constantemente reeditado e, para pensarmos além dos limites vastos do mundo anglófono, traduzido e retraduzido. Mas nem é este o central ponto que o distingue de tantos outros - e talvez os outros sejam todos os demais. Shakespeare continua a ser encenado. É um autor, portanto, vivo. No palco, está sempre vivo - é o que ensina o inglês Peter Brook em seu livro mais recente.
No palco e nas páginas
Aos 92 anos e ainda na ativa, Peter Brook é um dos grandes nomes do teatro do século XX. Tão imensa é sua arte que não faltam aqueles que o tomam como falecido, acostumados à glória póstuma dos grandes nomes de todas as artes.
Brook é conhecido por sua assinatura teatral, pela ousadia na montagem de obras antigas e novas. Sobram relatos de gente de teatro, arrebatada por este ou aquele de seus trabalhos. Sua teoria (na verdade, a base dela) foi apresentada no ensaio "O Espaço Vazio", seu primeiro livro, de 1968 (editado no Brasil só no ano passado, pela Apicuri). Apesar do jeitão de professor, Brook publicou pouco. Uma estante com suas obras (até o momento) contará apenas oito volumes - o mais recente a ser adicionado é o breve "The Quality of Mercy" (2013). No Brasil, foi batizado com o que é seu subtítulo na edição original, "Reflexões sobre Shakespeare", e acaba de chegar às livrarias.
É um livro pequeno, de leitura ágil, com nove ensaios distribuídos em menos de 130 páginas. Mas é um título que justifica a associação da definição de Calvino a certas publicações sobre obras clássicas.
Afinal, se William Shakespeare falou muito, numa obra vasta e tagarela de dezenas de peças e centenas de poemas, muito mais se falou em nome dele, por gerações de críticos, numa árvore genealógica que hoje espalha seus ramos por todo o mundo.
E, note, estamos falando apenas daqueles que escrevem e não dos que o montam nos palcos ou o traficam para domínios narrativos como cinema, quadrinhos e literatura.
Razão
Com tanta gente falando, quem ouvir? Ou, para ir direto ao ponto, por que ler Peter Brook escrevendo e não outro - um crítico, por exemplo?
Muitas vezes a leitura ou a vivência de um autor clássico depende que se entre pela porta certa em seus domínios. A dificuldade da obra, do pensamento por ela expresso ou mesmo a referência exagerada, que se confunde com temor, podem atrapalhar este contato. A porta aberta por Brook, neste pequeno livro, certamente tem potencial para a ser aquela por onde muitos leitores, antes receosos, possam passar - tanto para chegar a Shakespeare, como ao teatro de Brook.
Brook professou um teatro sem rococós, em "O Espaço Vazio", e parece fazer o medo escrevendo sobre Shakespeare. Os ensaios curtos recorrem à leitura do bardo, à vivência de encená-lo e à experiência de lidar com o universo que o cerca, com editores, críticos, especialistas, acadêmicos, admiradores, comerciantes de suas indulgências.
Shakespeare é um autor vivo, nos lembra Brook. Não como ele mesmo que, enquanto o leitor corre os olhos por estas linhas, está Deus sabe onde, respirando, pensando e criando. Não, a vida de Shakespeare não é um dado de que se conhece, é uma existência aproximada, como um corpo que, ao nosso lado, irradia calor, cheiros e sons. E, por conta desta presença, é fácil entender a razão de ele ser, sim, um contemporâneo nosso.
Em sua obra vasta e profunda, Shakespeare parece ter mapeado a própria existência humana, sem lições e morais caducas. Foi observador preciso, criador de obra universal, que desafia os séculos e parece sempre ter sido feita para o exato momento que se toma conhecimento dela. Hoje, por Peter Brook.
Livro
Reflexões sobre Shakespeare
Peter Brook
Tradução: Marcelo Gomes
Edições Sesc
2017, 127 páginas
R$ 35

Diário do Nordeste

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