Gravações realmente raras justificam compilação póstuma de Belchior

Dezenas de coletâneas do cantor e compositor cearense Antonio Carlos Belchior (1946 – 2017) já foram despejadas no mercado fonográfico ao longo dos últimos 40 anos. Idealizada para celebrar as sete décadas de vida deste grande artista cearense que viria a falecer repentinamente  em 30 de abril, chocando e entristecendo o Brasil, Belchior 70 anos – Pequeno mapa do tempo sobressai em relação às demais compilações por misturar gravações originais de sucessos como Coração selvagem (Belchior, 1977) e Medo de avião(Belchior, 1979) com seis fonogramas raros.
Dentre esses seis registros, quatro gravações são especialmente raras e, pelo alto valor histórico, já justificam a edição da coletânea produzida com esmero pelo jornalista Renato Vieira, inclusive pela boa qualidade do som obtido a partir da extração de registros de vinil dessas faixas mais raras por conta da perda das matrizes. Mas não redimem a gravadora Warner Music por não ter produzido caixa com os seis álbuns de Belchior – Belchior(Chantecler, 1974), Coração selvagem (WEA, 1977), Todos os sentidos (WEA, 1978), Belchior(WEA, 1979), Objeto direto (WEA, 1980) e Paraíso (WEA, 1982) – pertencentes ao acervo da companhia. Embora somente Paraíso seja inédito no formato de CD, estes álbuns merecem reposições em catálogo em edições criteriosas, à altura da importância de Belchior.
Se essa oportuna caixa tivesse sido produzida, como era a intenção inicial de Renato Vieira, as raridades de Pequeno mapa do tempo poderiam ter virado valiosas faixas-bônus das edições em CD dos álbuns da caixa. Infelizmente, no breve texto que escreveu para a edição em CD da compilação, o jornalista não contextualiza a origem de três dos quatro fonogramas mais raros. Dois – A palo seco (Belchior, 1973) e Sorry, baby (Belchior, 1973) – são de obscuro compacto gravado e lançado por Belchior pelo selo Chantecler em 1973, dois anos após obter projeção nacional ao vencer festival exibido pela TV Tupi em 1971, com a música Na hora do almoço (Belchior, 1971), e um ano antes de gravar o primeiro álbum, Belchior, do qual Vieira escolheu rebobinar justamente Na hora do almoço.
É alto o valor documental dessas duas gravações arranjadas pelo maestro tropicalista Rogério Duprat (1932 – 2006). Música desconhecida até por quem conhece o cancioneiro de Belchior, Sorry, baby é composição bilíngue, que incorpora termos em inglês, e na qual o artista já faz azeitada mistura de pop e rock com a rítmica nordestina, citando o baião na letra. Já A palo seco faz todo sentido nessa gravação original porque, nos versos da canção, Belchior já abordava os dilemas existenciais que o angustiavam naquele ano de 1973 (citado na letra, inclusive) e que permeariam a parte mais expressiva da obra do compositor.
Menos denso, mas sedutor, o country Meu nome é cem (Belchior e Rick) – gravado por Belchior, com produção de Guti Carvalho, para a coletânea promocional New super disc, lançada pela WEA em 1981 – também poderia ter a origem do fonograma mencionado no texto. Tal como Vieira fez ao explicar a procedência da versão acústica de Galos, noites e quintais (Belchior, 1976), música lançada na voz do cantor paulista Jair Rodrigues (1939 – 2014), mas propagada na voz de Belchior na gravação feita para o álbum Coração selvagem, lançado com toda pompa em 1977 para marcar a ida do artista para a então recém-instalada no Brasil gravadora WEA.
Belchior vinha de álbum de grande sucesso, Alucinação (1976), obra-prima da discografia do artista, produzida pelo mesmo Marco Mazzola que levou Belchior para a WEA ao migrar da Philips para a nova companhia. Em Pequeno mapa do tempoGalos, noites e quintais é ouvida em gravação feita em 1976 para álbum promocional (criado para propagar a chegada da WEA no Brasil) e introduzida por trecho do Salmo 50, recitado em latim por Belchior, numa provável reminiscência do tempo em que ele foi seminarista antes de se decidir pela carreira artistíca.
Menos raras, posto que já lançadas em CD em compilações anteriores, as regravações de Apenas um rapaz latino-americano (Belchior, 1976) e Como nossos pais (Belchior, 1976) – ambas feitas para coletânea Divina comédia humana – O melhor de Belchior, editada em 1981 pela WEA – também contribuem para que essa excelente primeira compilação póstuma de Belchior mapeie o tempo e os tormentos de um compositor que radiografou na obra os sentimentos, anseios e desilusões da geração que ousou acreditar no sonho hippie de um mundo movido somente a paz e amor. (Cotação: * * * * 1/2)

(Crédito da imagem: capa da coletânea Belchior 70 anos – Pequeno mapa do tempo)

Do G1

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