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Livro "Para você não se perder no bairro", de Patrick Modiano, não foge à regra do Prêmio Nobel de Literatura

por Roberta Souza - Repórter
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O escritor francês Patrick Modiano ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2014
Nem lógico nem absurdo, no meio do caminho entre dois mundos, entre a luz e a sombra. É mais ou menos isso que se quer dizer quando o termo "modianesco" é usado na França. Adotado no meio literário em referência ao escritor Patrick Modiano, ele descreve bem os personagens e situações claro-escuras que este Prêmio Nobel de Literatura (2014) costuma reunir em seus romances. E em "Para você não se perder no bairro" não é diferente.
O livro, editado pela Rocco no ano seguinte ao da premiação da academia sueca, traz exatamente as características mais observadas na obra do francês: elementos de autoficção, protagonistas escritores, a descrição da geografia dos subúrbios e das pequenas cidades francesas, o estranhamento com o mundo moderno, entre outras.
Além disso, o tom sóbrio, mas também hipnótico, e a narrativa em tensão crescente estão em evidência desde o primeiro parágrafo, quando o telefone toca às quatro da tarde na casa de Jean Daragane.
Narrativa
O protagonista, um escritor sexagenário, solitário e já meio esquecido das coisas, começa a ter sua memória estimulada a partir do contato com um casal - Gilles Ottolini e Chantal Grippay. Ottolini é quem primeiro o contata, após encontrar uma agenda de Daragane perdida no chão de um restaurante, na estação de Lyon. Nada afeito a conhecer novas pessoas, o escritor vai contrariado ao encontro com aquele que resgatou seu material perdido. E esse é apenas o começo de uma sucessão de desconfortos pelos quais ele irá passar.
O "bem-feitor" logo revela ter folheado a tal agenda e encontrado um nome que teria lhe despertado curiosidade: Guy Torstel, que ele andava investigando para a produção de um livro, e cuja história estaria ligada a um assassinato na época do pós-guerra na França. Daragane, no entanto, não lembra sequer por que anotou esse nome, até uma sucessão de fatos voltarem a sua memória por insistência de Ottolini, da companheira Chantal e de um dossiê que o primeiro teria separado em suas pesquisas para a escrita deste caso policial.
Aos poucos, lembranças vão sendo reavivadas, e Daragane mergulha em sua própria história, que, anos antes, ele mesmo tinha feito questão de esquecer. Números, ruas, lugares, pessoas - tudo volta de maneira embaraçosa, mas sempre conectada com as buscas de Ottolini.
Espaço-tempo
A fluidez com que Modiano intercala presente e passado, tanto do ponto de vista temporal como espacial, aguça a curiosidade de quem lê, e também aumenta os mistérios em torno da narrativa.
No livro, o protagonista vai da infância à fase adulta, passando pela adolescência e pelo estágio atual, às vezes num mesmo capítulo. Aliás, os capítulos são bem pequenos, fazendo jus a um livro curto, com menos de 150 páginas.
Essa facilidade com que Modiano intercala diferentes momentos da vida de seu personagem pode parecer confusa. E em certos momentos é mesmo. Especialmente se levarmos em consideração a forma como o livro termina, passando a sensação de narrativa mal resolvida.
Real
Vale ressaltar no entanto, que, se fosse diferente, ele perderia seu maior vínculo com o real, já que, em resumo, a história mergulha numa busca do protagonista por si mesmo. E, convenhamos, buscar respostas íntimas não é das tarefas mais fáceis.
Não somos seres lineares, e ainda que pareça, a cronologia dos fatos não contempla nossa totalidade. Sendo assim, a busca de Daragane pode corresponder a qualquer um de nós; com menos emoções e mistérios, talvez, mas ainda assim, uma procura natural, inclusive quando renegada.
Livro

Para você não se perder no bairro
Patrick Modiano


Rocco
2015, 142 páginas
R$19,50
 
Diário do Nordeste

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