Novas vozes femininas discutem identidade e ritmo

© walter craveiro
Três mulheres da novíssima literatura em língua portuguesa — escritoras de romance, contos e poemas — estiveram lado a lado na mesa "Pontos de fuga”, a terceira do segundo dia da Flip, realizada no Auditório da Matriz. A angolana Djaimilia Pereira de Almeida, a carioca Carol Rodrigues e a gaúcha Natalia Borges Polesso transitam entre estudos acadêmicos e escrita literária, mas foi nesta última que estabeleceram de vez sua produção textual. Sob mediação do professor de Estudos Lusófonos Leonardo Tonus, a conversa se estabeleceu nos temas centrais de cada uma, que envolvem identidade, subjetividade, feminino e forma e gêneros literários.  

Antes dos participantes entrarem no palco, foi exibido no telão um videopoema de Josely Vianna Baptista, parte da série "Fruto estranho”.  Com passagens sobre o etnocídio indígena, especialmente do povo guarani, a intervenção artística foi dirigida por Yasmin Thayná e terminou sob aplausos do público. 

Quando a conversa entre o trio começou, Natalia ressaltou que ser escritora é uma escolha que precisa ser feita diariamente. "É me formar escritora todos os dias, com o exercício da literatura, do outro, da escuta." Carol comentou o ato da escrita pela perspectiva do silêncio: "Ao escrever, a gente aprende a fabricar a quietude e a compartilhar a quietude". Djaimilia, por sua vez, relatou como foi difícil a transição de doutoranda para romancista. "Ao tentar escrever, percebi que não sabia o que fazer com tanta liberdade, tão habituada que estava ao rigor acadêmico."

Sobre a obra “Esse cabelo”, Djaimilia revelou que, a partir da leitura de blogs de moda, percebeu que não era a única com um "drama capilar". Ao se aprofundar no tema, chegou em questões identitárias da mulher negra e saiu em busca de suas origens, "perceber minha avó, o cheiro da minha avó”, o que a levou para a escrita efetiva do romance. Atentou-se ainda para o fato de que "uma pessoa pode se transformar numa caricatura de si própria", inclusive no contexto de discriminação racial em que ainda vivemos.

Com formação em cinema, Carol citou a influência da experimentação visual em seu trabalho — sobretudo na pontuação, elemento essencial para a condução do ritmo do texto e da respiração do leitor. E acrescentou: "As palavras designam destino, tem o destino que as palavras colocam nos corpos”. Natalia também compartilhou nuances do seu método criativo. "Penso no encontro das palavras, no ritmo, no texto a ser lido quase sem respirar". Às vezes sua preocupação é com o lirismo, com estabelecer conexões e intersecções, alcançar "autoplágios": contos seus que viram poemas e quem sabe até trechos de outros livros. 

Por fim, as convidadas falaram de seus personagens, alguns pertencentes a grupos de minorias, e de como buscam a literatura que lance luz a múltiplas histórias. "Talvez não baste para deixá-los visíveis, o que a gente faz é abrir um espaço espaço mental; assim podemos compartilhar sensibilidades", falou Carol. O trio leu também trechos de suas obras, ressaltando marcas e particularidades de cada fazer literário. 

FLIP 2017

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