Belchior: música, mistério e poesia

por Dellano Rios - Editor de Área
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Belchior: cantor e compositor cearense é tema de biografia ( FOTO: CLEO VELLEDA/ FOLHAPRESS )
O embate em torno das biografias no Brasil, quando envolveu os figurões da MPB, passou a resumido na defesa de duas posições - de um lado, a reivindicação do direito à privacidade; de outro, o interesse público que justificaria estas incursões pela vida e obra de alguém. Havia, da parte de alguns, razões veladas e tacanhas, gente que se não queria este escritor ou aquele jornalista ganhando dinheiro às suas custas. Para esses, a intimidade e a trajetória artística eram produtos a serem preservados, para uma possível comercialização futura. Afinal, pode-se não ganhar muito com um livro, mas a coisa muda se for um filme, um sucesso de bilheteria que usa suas canções (e paga-se, também, por isso).
"Apenas um rapaz latino-americano", a biografia de Antonio Carlos Belchior, escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros, prova de que uma biografia não é interessante apenas para o público, mas também para o artista (e, no caso de Belchior, para sua memória). Lançado pela editora Todavia, o livro permite ordenar uma história que ameaçava se converter em lenda.
Os fatos se diluiam em interpretações cada vez menos coerentes. O sumiço de Belchior, por uma década, proporcionava a distância e o desconhecimento necessário para que se pudesse falar dele da maneira que se desejasse. Não faltou quem fala-se pelo cantor e compositor cearense, dando razões para ele ter deixado tudo para trás e buscado uma vida reclusa, sem contatos com a família e os amigos de outros tempos. Um bloco de carnaval em Fortaleza resume a tese de quem viu, no ato de recusa, uma espécie de heroísmo, de tomada de posição de quem está farto de um mundo muito chato, carregado de problemas e loucura: "pelo direito de desaparecer".
Se o Belchior sumido deixava o espaço livre para um Belchior mítico e caricato se instalar em seu lugar, tampouco sua obra se beneficiava deste afastamento. Claro, suas canções foram "reaquecidas" e novas gerações passaram a cultuá-las. Regravações e shows tributos apareceram. Contudo, era difícil encontrar reedições dos discos, em CD ou vinil; e mesmo após sua morte, os serviços de streaming disponibilizavam apenas uma discografia incompleta e desorganizada, misturando álbuns de estúdio, coletâneas e registros ao vivo. Belchior não é um caso isolado, infelizmente. Se lá fora, é fácil encontrar obras de referência de grandes nomes da música pop, caixas especiais com as partes mais significantes de uma biografia, aqui predomina a cultura da coletânea, do resumo apressado da história.
Encantamento
O livro de Jotabê Medeiros é breve. São 250 páginas - as 200 primeiras com a história, complementada por caderno de imagens, índice onomástico (aquele que lista os nomes de pessoas, instituições, obras lugares e eventos citadas na obra), bibliografia e discografia.
Não se deve esperar a narrativa exaustiva, acadêmica e carregada de citações, como nos grossos tomos dedicados a figuras históricas. Jotabê Medeiros outro caminho. "Apenas um rapaz latino-americano" é um livro-reportagem, no qual é possível entrever os deslocamentos do autor em busca dos rastros de seu personagem. O texto é marcado por encontros, com gente que conviveu com Belchior - a figura complexa que inclui o homem, o artista e a lenda.
Honesto, Jotabê deixa claro, no prefácio, o retrato de Belchior que irá pintar, quais cores irá utilizar e que estilo seguirá. "Subvertendo a suposta objetividade de repórter, me vi recuperando todo dia o despertar de meu encantamento pelas palavras, ainda na adolescência", entrega o biógrafo no texto de apresentação.
A intimidade não é forçada. Jotabê confessa que Belchior é uma preferência musical antiga. "Sempre fui muito fã. Quando tinha 16 anos, eu morava em Curitiba. Tinha saído da casa dos meus pais, para viver às próprias custas S/A. Meu único bem era um toca fita de carros, adaptado, e três fitas: 'Desire', do Bob Dylan; 'A peleja do Diabo com o dono do céu', do Zé Ramalho; e 'Alucinação', do Belchior. Essa foi minha educação sentimental e tem um disco do Belchior na base dela", relembra.
Contextos
Jotabê Medeiros começa sua história por Guaramiranga, onde um jovem Antonio Carlos Belchior passou três anos no mosteiro. É uma escolha significativa (afinal, rompe um pouco com a cronologia tradicional, que recomenda que se parta da infância). O autor viu neste período pouco conhecido da trajetória de Belchior uma anunciação de muitas coisas pelas quais ele ficou conhecido. Entra a inclinação à contemplação e reflexão; e a reclusão, claro.
O fim da obra aborda outro período pouco conhecido, ainda que muito falado e fantasiado: a década de perambulação de Belchior e sua companheira, Edna Prometeu, longe de jornalistas, amigos, família e curiosos. A inspiração para esta parte da obra, entrega Jotabê Medeiros, é um clássico do jornalismo narrativo, o livro "À sangue frio", de Truman Capote. Ali, o autor norte-americano "biografa um assassinato". O mistério de Belchior não é sangrento, mas é radicalmente humano.
Do início ao fim, "Apenas um rapaz latino-americano" é uma obra que traz a marca do biografado sobre a escrita do biógrafo. Não é o caso do fã que presta um tributo exagerado, mas de alguém que assume uma forma de olhar semelhante à do ídolo. Ao falar de si, Belchior falava de si e do mundo. Jotabê faz algo parecido. Ele fala de um homem, para falar de muitas coisas: música, poesia, sucesso - e outros mistérios da vida.
Livro
Apenas um rapaz latino-americano
Jotabê Medeiros
Todavia
2017, 240 páginas
R$ 49,90/ R$ 34,90 (e-book)

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