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Com o tema "Cartas & Mapas", projeto Literatura e Lua acontece hoje (23) no Espaço Mix do CDMAC

por Iracema Sales - Repórter
"Trocar cartas é quase como tocar o outro. De fato, talvez seja o mais próximo do toque que uma escrita possa chegar", diz a jornalista Isabela Bosi ( Foto: Fabiane de Paula )
Uma das maneiras mais antigas de comunicação, a carta constitui também forma de expressão da subjetividade, em especial quando escritas à mão, pelos sentimentos que as pessoas manifestam. A versatilidade desse estilo de narrativa, aos poucos, vem sendo adotada por escritores, correndo risco de se tornar um gênero literário.
Até mesmo a Academia demonstra receptividade a esse formato de escrita, bastante difundido durante o século passado. O assunto será discutido e vivenciado nesta quarta (23), a partir das 18h, durante a realização do projeto "Literatura e Lua", que abordará o tema "Cartas & Mapas".
O encontro terá como cenário o Espaço Mix do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) - localizado acima do teatro e em frente ao planetário -, possibilitando aos participantes contemplar estrelas e, ao mesmo tempo, desvendar cartografias da Cidade.
A convidada desta edição é a jornalista Isabela Bosi, mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), missivista e autora do projeto "Pra Você" - cuja ação principal consistia em espalhar cartas anônimas por Fortaleza, em 2013.
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Intervenção artística distribui cartas sobre a relação das pessoas com Fortaleza; para Bosi, é uma maneira de "tocar esse corpo-cidade" Foto: Fabiane de Paula

Narrativas
Nesta noite, amantes da literatura poderão contar, ouvir e dividir histórias, tendo as cartas como ponto de partida. Muitas pessoas vão apenas para ouvir, mas sempre terminam levando algo para casa, conforme adianta Fernanda Meireles, idealizadora do projeto, que circula desde 2008.
Dessa vez, o assunto abordado será literatura e cidade, enfocando autores que usam cartas para se expressar - ela cita, por exemplo, o poeta Paulo Leminiski. "Nosso objetivo é tirar do artista a ideia de seres iluminados. Todos têm inclinação para a arte", afirma Fernanda, ressaltando que "a distância entre comunicação e literatura fica mais estreita".
Outra finalidade do projeto, que aconteceu durante dois anos no andar superior da Livraria Lua Nova, no bairro Benfica, é mostrar que a carta segue ainda hoje como uma forma de comunicação.
Assim, será uma oportunidade para as pessoas que receberam cartas do projeto "Pra Você" falarem sobre a sensação que tiveram. Ou seja, como foram afetadas pelas mensagens enviadas por alguém desconhecido.
A escritora, que estudou o universo das cartas no mestrado, não comunga com a ideia de que ela foi suplantada pelo telefone e o e-mail, tampouco, algo que ficou no passado. Além do seu encanto, "a carta manuscrita envolve outros mecanismos de expressão", garante. Isabela Bosi reitera a opinião de Fernanda quanto à vitalidade dessa forma de comunicação, que continua atual.
Catarse
Daí o "Cartas & Mapas" não trazer no bojo um desejo de resgate. "Para mim, a carta nunca ficou esquecida em um passado distante. Sempre mantive o hábito de escrever a amigos, namorados, familiares. É algo que nenhuma tecnologia é capaz de substituir, eu acho", afirma Bosi. "Carta é também corpo, pele, cheiro. É quase como tocar o outro. De fato, talvez seja o mais próximo do toque que uma escrita possa chegar".
No caso do projeto "Pra Você", a ideia do formato de cartas para intervir na cidade foi algo que chegou à jornalista muito naturalmente. "É a minha tentativa de tocar esse corpo-cidade; de criar uma conversa, alguma troca possível com o outro; de me expandir e explorar os limites da minha própria escrita", resume. Ao distribuir cartas anônimas, Bosi admite: "foi uma das coisas mais maravilhosas que já fiz, para mim mesma. Uma catarse, um processo de cura. Eu estava num período muito difícil comigo, com a cidade, com as escolhas. Precisava me colocar para fora de mim e dos espaços onde habitava", lembra ela.
"Quando você coloca em um texto seu íntimo, muito pessoal, na rua, dentro de envelopes para quem quer que seja, você se dilui um pouco. Parece que a solidão diminui também. Alguém agora carrega um pedacinho de você. Minha expectativa era simplesmente de me desafogar, como quem inventa uma boia quando está em alto mar".
A autora enxerga o "Pra Você" como reverberação desse projeto que considera ter ido além das suas expectativas. Conta que recebeu algumas mensagens de pessoas que encontraram as cartas, mas garante ter recebido bem mais de pessoas que gostariam de encontrá-las.
"Foi algo que me surpreendeu, não esperava. Conheci muitas pessoas a partir disso, fiz também muitas coisas", confessa Bosi, completando que essa percepção a ajudou na escolha para o mestrado.
Ela defende uma ideia particular de carta, ou seja, "não se escreve só com caneta e papel. Talvez o que as pessoas tenham é medo dessa entrega (literalmente). Escrever, o que quer que seja, já é enviar-se. Veja bem: enviar-SE, um envio de si mesmo".
Mais informações:
Projeto Literatura e Lua apresenta "Cartas & Mapas" com a jornalista Isabela Bosi. Nesta quarta (23), às 18h, no Espaço Mix do CDMAC (R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Gratuito. Contato: (85) 3488.8600

Diário do Nordeste

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