Estudante cearense vira um viral na internet ao recitar poesia contra o preconceito

A recitação de uma poesia por um estudante cearense conquistou as redes sociais na última semana. Registrada em vídeo e interpretada em plena sala de aula, a poesia é um verdadeiro manifesto contra o preconceito e pela diversidade. Seu autor é o estudante Victor Martins, de 17 anos.
Só na página “O mundo sem preconceito”, o vídeo teve mais de 25 mil compartilhamentos e 29 mil curtidas, já tendo sido visualizado mais de 1,5 milhões de vezes, em duas semanas no ar.
Ao Tribuna do Ceará, Victor confessa ter ficado surpreso com a proporção que o vídeo ganhou, embora já soubesse que a poesia iria repercutir. O retorno, até agora, é bastante positivo, afirma.
Victor, aluno do colégio Ari de Sá, vem recebendo muitas mensagens de pessoas que dizem ter gostado bastante do texto — não só professores e colegas, mas também desconhecidos. Superam em muito os “ignorantes”, de “mente fechada” apontando “vitimismo”.
A performance foi feita na disciplina de Interpretação de Texto. O professor João Filho tem o costume de abrir a aula com apresentações de produções artísticas dos alunos.
Confira a performance:
 

Vestibular para Engenharia
Victor diz que nunca tinha se apresentado no espaço, tendo ido à frente da turma por insistência do professor, um dos cientes da capacidade do aluno com as palavras. Apesar de “ser de exatas” — pensa em prestar vestibular para Engenharia Civil —, Victor já havia até conquistado concursos internos de poesia no colégio.
Ainda assim, não foram muitas as poesias escritas por Victor. Os célebres versos fluíram naturalmente, afirma. As palavras foram apenas “jogadas” na poesia. Era a tradução de ideais apreendidos no ativismo social de cada dia, para ele tão necessários em uma “sociedade extremamente discriminatória quanto a brasileira”, quanto na qualidade de bissexual.
Ou, parafraseando a poesia, “transparecem apenas a estética de um bravo grito mudo e transpõem os ruídos existenciais numa ausência eterna”.
O apoio vem de casa, dos pais, uma advogada e um padre casado, atentos às questões de discriminação de minorias. “Sempre debatemos muito essas questões: raça, cor, gênero… E que isso nunca importou, e sim a essência e o caráter da pessoa”, afirma a mãe de Victor, Adriana Martins. “Essa base foi muito da família. Ele é um orgulho para nós e nossa família”.
Victor pretende continuar escrevendo poesias. É a forma dele de dizer a quem é menosprezado e luta pelos seus direitos que “vocês não estão sozinhos”.
Confira a poesia na íntegra:
Há será uma constante na natureza humana
de que não foi me concebida por parte de meu criador?
A singularidade de que me rege transcreve o algor
de minha alma dissimulada e disparatada.
Perceba vós, caro leigo, precoce e tolo,
de que belas palavras numa poesia
transparecem apenas a estética de um bravo grito mudo
e transpõem os ruídos existenciais numa ausência eterna.
Tão fácil falar de amor num breve soneto,
quanto a contrapor a este em vista do diferente.
Diferente este combatido como epidemias.
Lindas e únicas criaturas pecadoras.
Pecadora é a mulher!
Criada duma costela, nascida para servir.
Ao homem? A Deus? Servir a si mesma!
Como manifesto de seu poder e autonomia.
O que você chama de feminista,
eu chamo de bruxa que não conseguiram queimar.
Pecadora que só se cala com o contentamento
ou com a morte.
Pecador? Pecador é o preto!
Moeda de troca, espécie que choca, nascido do gueto.
Se resistência fosse cor, ela seria preta.
Preta como a alma daquele infeliz racista.
Não há corrente dura que segure o espirito do bravo negro,
que luta para não ser chamado de negro,
mas de ser humano.
Pecador? Pecador é o viadinho, o baitola, o boiola…
Aberração da natureza, falha de Deus.
Aprende a ser homem! Aprende a ser macho!
Se homem for sinônimo de arrogante e violento,
é preferível ser um unicórnio.
Enquanto que o ódio luta com forças e armas,
o gay luta com amor, por amor, sem sentir dor, muito menos temor.
Realmente, preciso parar de me vitimizar…
O que pode me curar?
Uma ida à igreja? Uma garrafa de vodka?
Um tiro na boca? Ou uma guerra?!
Conservadores e preconceituosos se preparem!
A pedra que mata a travesti,
a corrente que escraviza o negro 
e a mão que oprime a mulher
não são não, senhor,
tão fortes, como o meu amor.

Tribuna do Ceará

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