Livro reúne relatos e fotos dos 79 mestres da cultura popular do Ceará reconhecidos pelo edital "Tesouros Vivos"

por Roberta Souza - Repórter
Maria José Ignácio, a Maria do Horto, Mestra em Benditos, 73 anos, reconhecida com o título desde 2007. "Pra mim, é um prazer muito grande na vida", fala no livro, sobre sua atividade e o reconhecimento oficial ( Fotos: Jarbas Oliveira )
Mestre Piauí só pode ser feliz com o boi, "saber que eu tô fazendo alguém se lembrar de mim". Mestra Margarida Guerreira não quer reisado não, 'eu quero é guerreiro". Mestra Fransquinha é convicta quando diz: "o que faço é uma arte e é uma sobrevivência". E Mestre Aldenir acredita que "a cultura é aquilo que sai de dentro da alma da gente". O que estes e os outros 75 representantes da cultura cearense documentados pelo "Livro dos Mestres" têm em comum não é apenas um título, mas sim uma longa trajetória dedicada a vivência e a transmissão de saberes.
Foi em busca do que eles mesmos tinha a dizer sobre si, com suas próprias palavras, mas também com gestos e olhares, que a jornalista e produtora cultural Dora Freitas, a historiadora Silvia Furtado e o fotógrafo Jarbas Oliveira percorreram 12 mil km pelo interior do Ceará, nos últimos dois anos. O resultado desse trabalho de campo e ainda de pesquisa bibliográfica é a publicação de 512 páginas - que dão conta da história de mestres vivos e falecidos, e cujo lançamento acontece nesta quinta-feira (31), a partir das 18h30, na Fundação Waldemar Alcântara.
O projeto do "Livro dos Mestres" foi concebido em 2012, em uma discussão das organizadoras sobre a necessidade de apresentar um material atualizado diante do que já se tinha feito até então.
"A gente teve contato com outras obras, como a de Gilmar de Carvalho, organizada em 2006. Mas ela só dava conta dos primeiros mestres. Não tinha uma que contemplasse todos, que contasse a história de cada um, que colocasse as informações de maneira compilada. Observamos essa lacuna e descobrimos que era importante fazer esse livro", explica Dora.
A inquietação levou-os a instigar o ex-governador Lúcio Alcântara, em cuja gestão foi criada a lei dos Mestres da Cultura, em 2003, a realizar a empreitada por meio da Fundação Waldemar de Alcântara, da qual é mantenedor junto à família e aos amigos. Desafio aceito, o projeto foi aprovado pela Lei Rouanet em 2013, e teve os recursos captados até 2015 com Banco do Nordeste, M. Dias Branco, Grupo Linhares/Ares Motos, além de Carlos Albuquerque, Ciro Albuquerque, Beatriz Alcântara e o próprio Lúcio.
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José Aldenir Aguiar, Mestre em Reisado, 84 anos recém-completos: "cultura é aquilo que sai da alma"
Trajetos
As viagens de trabalho começaram em março de 2015 e se estenderam ao longo de 2016. Quando chegavam às casas dos mestres, fosse por contato direto ou guiados por conhecidos, sucediam-se as apresentações e um roteiro de perguntas que conduziria todo o relato posteriormente transcrito para o livro. "A gente pedia primeiro para eles contarem suas histórias de vida, e a gente sempre queria saber o que significava para eles ser um mestre; o que mudou, se houve mudança na vida deles em serem diplomados pela Secult", recorda Silvia.
Os depoimentos dos 58 mestres vivos até a finalização do livro vieram no Tomo 1 da publicação. "Optamos por fazer uma edição que se aproximasse do português vernacular, sem ferir os contextos, resguardando ao máximo suas falas e a condução de seu pensamento. As interferências da edição se dão basicamente nas concordâncias verbais e ordenamentos dos assuntos", explicam as organizadoras na apresentação da obra.
Já o Tomo 2, que reuniu textos sobre 21 mestres já falecidos, foi construído a partir de pesquisa em fontes documentais, jornais, livros, acervos fotográficos, materiais impressos e digitais.
No caso do Tomo 1, constam ainda curtos relatos de viagem, uma espécie de diário de bordo que dá conta dos contextos de cada visita. "Eles nos acolheram de forma muito generosa. A gente almoçou na casa deles, a gente jantou. Eu conheci um Ceará que não iria conhecer se não tivesse participado desse projeto", conta Sílvia. Dora partilha da sensação. "Eu como jornalista já tinha viajado pelo Ceará com o Jarbas, meu companheiro. Mas dessa vez foi muito especial: a acolhida deles para com a gente, a forma como éramos recebidos minimizava toda a dificuldade", aponta.
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Pajé Luís Caboclo, dos Tremembés de Almofala, reconhecido como Mestre em Cultura Indígena em outubro de 2008 
Imagens
As fotografias de Jarbas, aliás, propiciam um mergulho à parte. Nos retratos, os mestres estão de todo entregues, claramente à vontade em frente às lentes que eternizariam suas imagens para o mundo. No projeto gráfico, as personas perfiladas estão listadas em sequência, por ordem alfabética a partir do nome real dos Mestres. Traz dados sobre as datas de reconhecimento do título no Diário Oficial do Estado, como também a localidade onde residem e a data do nascimento de cada um (no caso dos mortos, consta também a data do falecimento). A edição conta ainda com texto de Lúcio Alcântara e da jornalista e Doutora em Literatura Eleuda de Carvalho. "A publicação mostra que a memória, a história de um povo, não se faz só de edifícios. Não é que isso não seja importante, mas foi com a memória imaterial que a gente se preocupou aqui, no sentido de assegurar a preservação desse patrimônio, que não é edificado, mas que está na cultura, na história, no comportamento e na atitude dessas pessoas simples, às vezes perdidas no Interior, na periferia, sem que ninguém se dê conta do valor delas", observa Lúcio Alcântara.
Distribuição
O "Livro dos Mestres" será distribuído gratuitamente para instituições e equipamentos culturais, como bibliotecas e secretarias de cultura municipais, estaduais, além do Ministério da Cultura e locais de leitura onde nasceram os Tesouros Vivos da Cultura Popular Cearense. Na ocasião de lançamento, estará à venda por R$ 100.
O evento contará com apresentação do Boi do Mestre Zé Pio e do grupo Drama em Cena, da Mestra Ana Norberto, de Tianguá aos convidados e à imprensa. Mestre Aldenir (Reisado), do Crato, também estará presente.
Livro
O Livro dos Mestres
Organizadoras: Dora Freitas e Silvia Furtado
Fotografias de Jarbas Oliveira
FWA
2017, 512 páginas
R$ 100

Diário do Nordeste

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