Produção cearense tem espaço em feira de artesanato em Portugal, pelo projeto "Mãos que fazem história"

por Germana Cabral - Especial para o Caderno 3
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O cordelista Edésio Batista, no estande do Ceará, emocionado ao conferir os folhetos
"Cá existia. Na minha infância, lembro desses livrinhos nas feiras, mas hoje não vejo mais isso por aqui", discorria um visitante português, com aparência de uns 60 anos, no estande "Artesanato do Ceará - Mãos que fazem história", enquanto folheava folhetos de cordéis expostos na 40ª Feira Nacional do Artesanato de Vila do Conde, que chega ao fim neste domingo (6), após 16 dias de mostra.
Com temas variados, as publicações da Tupynanquim Editora, Academia dos Cordelistas do Crato e da Tipografia Padre Cícero, dentre outras, chamam atenção pelos títulos curiosos. Mesmo quem não conhece a literatura de cordel quer saber a origem e o conteúdo, seja criança, jovem ou adulto. Estudiosos igualmente se interessam, adquirindo exemplares com variados temas, do Padre Cícero a Luiz Gonzaga, do Papa Francisco a Lampião e Maria Bonita. De Patativa a Camões.
Da Academia de Cordelistas do Crato, há publicações, por exemplo de Bastinha, Josenir Lacerda e Edésio Batista, que fez uma visita surpresa ao estande. De férias em Portugal, Edésio posou pra foto junto ao seu cordel "Laudato Si" (louvado seja), sobre o Papa Francisco.
A pergunta mais frequente do público é: "São reedições de textos antigos ou no Brasil continuam produzindo cordel?". E a resposta de que no Ceará são editados até hoje surpreende.
História
Para o jornalista e pesquisador de cultura popular Gilmar de Carvalho, a força do cordel nordestino está na voz.
"Antes de ser cordel, esta poesia era cantada ao som das violas e rabecas, nas feiras, nas noites sertanejas. A impressão deu vida mais longa à manifestação, com o circuito das feiras, com a presença do editor e com o surgimento de muitos poetas. Partimos de um modelo que veio na bagagem do colonizador, mas soubemos dar nossa cor e nossa ambiência, nossos valores ao cordel. Daí sua força".
No Nordeste, segundo Gilmar, a literatura de cordel tornou-se forte porque falava a língua que o povo entendia. Mesmo quando tratava das Mil e Uma Noites ou de outros contos indo-europeus, o cordel era inteligível para o matuto sertanejo. "Não podemos negar a contribuição lusa, muito valiosa, mas o cordel ganhou sotaque brasileiro. Isso faz uma grande diferença".
E é esse sotaque, com jeito bem cearense, que encanta os visitantes da FNA 2017. Entre os preferidos dos portugueses, estão o "Grande Duelo de Lampião com Zé do Telhado", de Rouxinol do Rinaré, que une a história do cangaceiro brasileiro e do "Hobin hood" português, respectivamente, e "O Papagaio que fez até Camões de Otário", do Mestre Zé Barbosa, ambos da Tupynanquim. Da mesma editora, "Os Lusíades em Cordel", de Luiz de Camões, adaptado por Stélio Torquatro de Lima, também chama atenção.
Público
Alguns visitantes até se aventuram em ler a poesia em voz alta. E assim a cultura nordestina vai ganhando mais vida no estande. Comprovando, assim, o que diz Gilmar de Carvalho: "O cordel é sempre composto para ser lido em voz alta. Sua leitura individual é sempre menor. O cordel cresce nos espaços públicos, no instante da performance", observa ele.
"Nosso cordel é herdeiro de uma tradição que vem de muitos países. Histórias que correram o mundo e chegaram aqui. Podemos falar, como escreveu Antonio Candido, da 'aventura da adaptação'. Eles ganharam o que chamamos de 'cor local'", completa.
Para o pesquisador, o grande mérito dos cordéis nordestinos é que não são mera tradução, mas outro texto, com camadas de significações, que permitem várias leituras. "Ele tem uma dimensão encantatória. Toca no que temos de mais profundo no que se referem aos mitos, aos valores, a uma dimensão que envolve a humanidade toda. Parece banal, um mero folheto de feira, mas condensa toda uma visão de mundo que é oriental (temos cordel na Índia) e ocidental. É isso que faz dele esta potência".
A jornalista foi enviada a Portugal

Diário do Nordeste

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