Seminário que acontece hoje (28), no auditório da reitoria da Universidade Federal do Ceará, irá debater a obra de Parsifal Barroso, reeditada no início desse mês

Há exatos 20 dias, o lançamento da segunda edição do livro "O Cearense", de Parsifal Barroso, ajudou a reacender a discussão sobre uma identidade que está muito além da ideia de "cabeça-chata" ou de "judeu brasileiro". O conceito de cearensidade trabalhado pelo intelectual nos anos 1960 - reforçado por uma "modalidade própria de ser, de falar, de agir e de afirmar-se, que não se confunde com qualquer outra" -, retorna hoje (28) ao centro do debate, em um seminário no auditório da reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), a partir das 16h.
A abertura do evento - gratuito e aberto ao público - será conduzida pelo reitor da UFC, professor Henry de Holanda Campos, e pelo presidente do Instituto Myra Eliane e neto de Parsifal Barroso, Igor Queiroz Barroso. Na ocasião, a ideia proposta pelo autor pautará as falas do professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e aposentado da UFC, Josênio Parente, e das escritoras Angela Gutiérrez e Ana Miranda.
"O seminário será mais uma maneira de possibilitar ao público uma aproximação com essa obra tão importante sobre o nosso povo. 'O Cearense' é um livro de vanguarda que esmiúça diversos aspectos de nossa cultura e formação enquanto povo. Mais do que isso, a obra representa a valorização de algumas de nossas características mais importantes. Um verdadeiro resgate de nossa autoestima", destaca Igor Queiroz Barroso.
Considerada um dos estudos pioneiros sobre o conceito de cearensidade, a obra, publicada originalmente em 1969, analisa diferentes aspectos dessa identidade, levando em conta desde traços mais subjetivos até a própria geografia do Estado. Os estudos de Parsifal foram amparados em sua formação em Ciências Jurídicas e Sociais, e na própria vivência como político.
Além disso, os dados colhidos da conferência "Precisa-se do Ceará", ministrada pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre no Theatro José de Alencar e publicada nas páginas do jornal Unitário, edição de 28 de agosto, de 1944, deram fundamental contribuição ao ensaio do cearense.
Palestrantes
A escritora Angela Gutiérrez, uma das convidadas do seminário de logo mais, adianta um pouco de sua leitura sobre a obra de Parsifal. "O conceito que ele utiliza está muito ligado a um contexto em que viveu sua jovem maturidade, influenciada por todos os romances de 1930, os livros de Gilberto Freyre e de Djacir Menezes. Essa preocupação da intelectualidade sobre uma identidade contribuiu para que Parsifal se dedicasse a estudar o papel do cearense como construtor do Brasil, como construtor da brasilidade", observa Ângela.
Uma das ideias pelas quais a autora mais se interessa é a da tendência do cearense de juntar características opostas, observada por Freyre e aprofundada por Parsifal em seu ensaio. A isso, ela associa discussões da atualidade. "O cearense tem uma tendência triste de não cuidar das tradições, mas ao mesmo tempo tenta manter a tradição da cearensidade", identifica. O próprio livro se insere nesse paradoxo, acredita a escritora.
"Veio em boa hora a iniciativa do Instituto Myra Eliane, especialmente do neto do doutor Parsifal, Igor Queiroz Barroso, de trazer outra edição, porque a primeira já se esgotou. Em torno do lançamento, você consegue colocar em pauta muitas questões da cearensidade, e uma delas é esse pouco apego às tradições, que nos fazem perder patrimônios", diz Gutiérrez.
O professor Josênio Parente, por sua vez, lamenta o fato de não ter tido acesso ao livro de Parsifal em suas pesquisas de mestrado e doutorado, quando se debruçou sobre a ideia de poder local e sobre a lógica das elites cearenses. Parente identifica algumas semelhanças entre o que concluiu e o que o autor propôs.
"No caso das minhas pesquisas, percebi que, ao longo da história, não temos oligarquias permanentes aqui no Ceará; há uma constante alternância entre os grupos, e ela está ligada ao meio ambiente, à seca, ao semiárido, que não favorece a uma economia sustentável para essas elites. Parsifal e outros estudiosos já haviam suspeitado disso ao estudarem a geografia do nosso Estado e como ela interfere em nossa formação", observa o professor.
Conclusões como essa levam Parente a reconhecer a importância tanto da reedição do livro como do próprio evento de hoje. "Atividades como essa têm o papel de revelar intelectuais que o Ceará teve e muitas vezes a Academia não dá a devida atenção. As contribuições do passado e do presente devem ser somadas para se conhecer melhor o processo e construir-se um Ceará que dê conta da sua realidade", finaliza.
Mais informações:
Seminário "O Cearense". Hoje (28), a partir das 16h, no Auditório Castelo Branco, na reitoria da UFC (Av. Da Universidade, 2853, Benfica). Entrada gratuita. Site: www.ocearense.com

Diário do Nordeste

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